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Brexit ameaça a paz na Irlanda do Norte

Arthur Sullivan
11 de abril de 2021

Coquetéis molotov e barricadas voltaram à rotina do território. O conflito, que tem quatro séculos de história, estava adormecido por um tratado de paz. Mas ameaça agora ressuscitar.

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Carro queimado em Belfast: conflito adormecido voltou às ruas da Irlanda do Norte
Carro queimado em Belfast: conflito adormecido voltou às ruas da Irlanda do NorteFoto: Hasan Esen/AA/picture alliance

Vinte e três anos após o Acordo de Belfast ter posto fim a três décadas de sangrentos conflitos na Irlanda do Norte, teme-se que a violência agora possa voltar a aumentar, impulsionada pelas consequências do Brexit.

Enquanto os britânicos se preparavam para deixar a UE, não faltaram alertas, como por parte dos ex-primeiro-ministros Tony Blair e John Major, de que o Brexit poderia minar o acordo de paz na Irlanda do Norte, única nação constituinte do Reino Unido fora da ilha da Grã-Bretanha.

Esses temores se concretizaram quando tumultos e desordens eclodiram na Irlanda do Norte no final de março. Dezenas de policiais foram feridos desde então, e um ônibus foi sequestrado e incendiado em uma forte escalada da violência na quarta-feira (07/04).

Conflitos envolvem adolescentes 

A violência começou em 29 de março, em um enclave unionista (pró-união do território ao Reino Unido) de Derry, uma cidade que também tem uma confortável maioria nacionalista irlandesa. Um grupo de cerca de 40 pessoas, muitas delas adolescentes, atirou objetos, inclusive uma bomba de gasolina, contra a polícia.

Desde então, há registros de surtos de violência semelhantes em algumas cidades e vilarejos, principalmente em áreas tradicionalmente pró-britânicas. A desordem piorou na noite de quarta-feira, quando um chamado muro de paz que separava as comunidades nacionalista e unionistas em Belfast foi violado. Jovens de ambos os lados entraram em confronto.

Os tumultos envolveram quase exclusivamente unionistas. A violência tem sido amplamente ligada à insatisfação sobre o Protocolo da Irlanda do Norte, o acordo comercial especial pós-Brexit que criou barreiras comerciais adicionais entre a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte.

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Confronto nas ruas de BelfastFoto: Peter Morrison/AP/picture alliance

Acordo pós-Brexit frágil

Muitos unionistas acreditam que os termos do protocolo, comumente chamados de "fronteira do Mar da Irlanda", enfraquecem o status da Irlanda do Norte dentro do Reino Unido e a aproximam da República da Irlanda, um Estado-membro da UE, tornando mais provável a unificação irlandesa.

A escassez de certos produtos na Irlanda do Norte nos primeiros meses de 2021, bem como outras complicações iniciais, exacerbaram as frustrações. O maior partido lealista, o Partido Democrata Unionista (DUP), coletou mais de 140 mil assinaturas em uma petição instando o governo britânico a se retirar do protocolo.

As ameaças de violência vieram à tona rapidamente. Em janeiro, as inspeções da UE de produtos alimentícios de origem animal que chegavam aos portos de Belfast e Larne vindos da Grã-Bretanha foram brevemente suspensas por causa de denúncias de que o pessoal que realizava os controles estaria sendo intimidado. Pichações ameando trabalhadores do porto vinham aparecendo regularmente desde que o protocolo entrou em vigor.

Vários observadores unionistas e políticos sugeriram que outro gatilho para a violência teria sido a decisão no final de março do Serviço de Polícia da Irlanda do Norte de não processar ninguém do principal partido nacionalista, o Sinn Fein, pelo fato de muitas de suas principais figuras terem comparecido a um funeral em junho que infringiu as regras de distanciamento social.

Arlene Foster, líder do DUP e atual primeira-ministra da Irlanda do Norte, retuitou um vídeo do ônibus sendo atacado com uma bomba de gasolina na quarta-feira e escreveu que tais ações "só servem para tirar o foco dos verdadeiros infratores da lei no Sinn Fein".

Pouca mensagem política

A natureza da violência até agora mostra que o que está acontecendo não é simplesmente um protesto político que deu errado. Muitos dos que participam de ataques à polícia eram jovens. As cenas foram caóticas, com poucas mensagens políticas coerentes.

Grande parte da violência ocorreu em áreas onde grupos criminosos ligados a organizações paramilitares pró-britânicas são mais fortes. Em uma declaração na sexta-feira, um grupo que representa esquadrões paramilitares, como a Força Voluntária do Ulster,  a Associação de Defesa do Ulster e o Comando da Mão Vermelha, negou qualquer envolvimento na violência.

Vários observadores políticos unionistas proeminentes notaram que a violência nestas áreas coincidiu com uma grande repressão recente por parte da Força Tarefa de Crimes Paramilitares do governo britânico contra as principais gangues que estão traficando drogas nas áreas. Em outras palavras: os criminosos, sob grave pressão das autoridades policiais, exploraram um descontentamento político legítimo para seus próprios fins.

Por que o Brexit é um problema

Há um profundo e genuíno descontentamento dentro de amplas faixas de unionismo político sobre o Protocolo da Irlanda do Norte. Entretanto, partidos nacionalistas irlandeses como o Sinn Fein e o SDLP, bem como o não alinhado Partido da Aliança, argumentariam que o problema não é o protocolo, e sim o Brexit.

As implicações para a Irlanda do Norte quase não foram mencionadas durante os debates antes do referendo. Figuras como Blair e Major foram notáveis exceções na Grã-Bretanha. Mas muitos políticos na República da Irlanda emitiram avisos de que o Brexit poderia ter conseqüências desastrosas para a Irlanda do Norte, assim como o Partido da Aliança e os partidos nacionalistas irlandeses.

Um problema para o DUP a este respeito é que ele fez uma campanha apaixonada pelo Brexit e até mesmo ajudou a financiar anúncios pró saída britânica da UE. Durante as tortuosas negociações do Brexit, o partido rejeitou as propostas de acordos que não teriam tido impacto no comércio entre a Irlanda do Norte e o resto da Grã-Bretanha, a fim de pressionar por um Brexit mais duro.

Durante os anos entre a votação de 2016 e a partida total do Reino Unido, em 1º de janeiro de 2021, os temores de uma nova onda de violência se basearam na ideia de um retorno a uma fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte –  algo que poderia inflamar os nacionalistas.

Em 2018, Leo Varadkar, primeiro-ministro da República da Irlanda na época, levou um artigo de jornal sobre um ataque a um posto alfandegário em 1972 para uma cúpula da UE, como forma de convencer seus colegas da necessidade de evitar uma fronteira. No final, a retomada de uma fronteira dura fronteira na ilha da Irlanda foi evitada. Mas a violência não.

O Brexit sozinho não pode ser responsabilizado pela última explosão do profundo conflito sectário, que já se estende por mais de 400 anos. Mas, a partir do momento em que o resultado do referendo foi confirmado, há quase cinco anos, ficou claro que pelo menos uma comunidade na frágil e complexa divisão da Irlanda do Norte iria sair perdendo.

Embora a grande maioria das pessoas na Irlanda do Norte - sejam elas nacionalistas, unionistas ou nenhum dos dois - esteja chocada com a violência, quase ninguém se surpreende com ela.