Pressão política afasta favorito de eleições na ORMED
2 de outubro de 2025
O processo eleitoral na Ordem dos Médicos de Angola (ORMED) voltou a ser marcado por polémica, com denúncias de interferência política. Pedro da Rosa, candidato apoiado pelo Sindicato dos Médicos, anunciou a desistência na véspera da votação, abrindo caminho para que a candidata associada ao apoio do Governo possa ser confirmada como nova bastonária nos próximos dias.
Segundo dados da Comissão Eleitoral, cerca de 90% dos eleitores optaram por não votar, num protesto claro contra a alegada "mão invisível" do MPLA no desenrolar do processo.
Concorreram quatro médicos ao cargo deixado por Elisa Gaspar, bastonária cessante que, ao longo dos seus dois mandatos, manteve um relacionamento tenso com a classe.
O pediatra Pedro da Rosa, único homem entre os candidatos e visto como favorito, surpreendeu os apoiantes ao anunciar a desistência a apenas 72 horas do sufrágio.
Segundo Adriano Manuel, presidente do Sindicato dos Médicos de Angola, o candidato terá sido forçado a abandonar a corrida por membros da direção central do MPLA, a fim de abrir espaço para a candidatura de Jovita André, médica próxima do Governo.
"Quero dizer que este afastamento se deve a uma pressão que o Dr. Pedro da Rosa sofreu nos últimos dias, uma pressão de duas altas figuras do Comité Central do Bureau Político do MPLA, bem como de indivíduos ligados ao Ministério da Saúde, à Direção Provincial da Saúde, à Direção Municipal da Saúde, e ainda da Direção do Hospital do Capalanga, onde o Dr. Pedro da Rosa trabalha", denunciou Adriano Manuel.
Pressões e chantagens
De acordo com o sindicalista, Pedro da Rosa terá sido chantageado com uma acusação "injusta" de roubo no hospital público onde exerce funções, como forma de forçá-lo a renunciar à candidatura.
Paralelamente, foi aliciado com a promessa de nomeação como diretor do Hospital Heróis de Kifangondo, no Icolo e Bengo, cargo até então ocupado por Jovita André, considerada a candidata preferida do Governo.
"Um alto responsável do partido, também membro do Comité Central e do Bureau Político do MPLA, dissuadiu o Dr. Pedro da Rosa de continuar a campanha, garantindo-lhe que a sua nomeação como diretor do Hospital Heróis de Kifangondo seria feita já na segunda-feira", afirmou Adriano Manuel, em conferência de imprensa na quinta-feira (25.09).
Protestos e silêncio oficial
Médicos descontentes com a suposta interferência política prometeram impugnar o processo eleitoral. O MPLA, partido no poder, mantém-se em silêncio perante as denúncias.
Com a retirada de Pedro da Rosa, permaneceram na disputa Manuela Sande, Eurídice Chongolola e Jovita André, sendo esta última a mais votada segundo os dados provisórios.
Apesar da polémica, 90% dos médicos abstiveram-se da votação. Ainda assim, a candidata Eurídice Chongolola defendeu que o processo decorreu de forma transparente e argumenta: "E viu-se que realmente existiu alguma transparência e lisura no processo, mas fico um bocadinho triste pela abstenção de muitos votantes. Isto não dignifica a classe".
"Queremos união, e infelizmente muitos não exerceram o voto. É um processo democrático, mas pouco representativo", proferiu.
A ascensão de Jovita André
A reumatologista e especialista em Medicina Interna Jovita André foi a candidata mais votada e poderá ser confirmada como a nova Bastonária.
Na sua campanha, destacou como prioridades a formação contínua, a união da classe e a valorização dos médicos, apontando ainda a escassez de especialistas como um dos maiores desafios. "O Sistema Nacional de Saúde ainda enfrenta uma grande carência de médicos especializados. Defendemos que, havendo uma parceria e a oficialização do médico pós-reforma no setor, isso vai fortalecer o sistema, porque são profissionais experientes, professores e assistentes", disse.
No sábado (27.09), Jovita André foi eleita Bastonária da ORMED, com 327 votos, num universo de mais de 4.000 médicos inscritos, num processo marcado pela mais elevada taxa de abstenção da história da instituição.
Quem é Jovita André?
Licenciada em Medicina e especialista em Medicina Interna e Reumatologia, Jovita André construiu uma carreira marcada pela acumulação de responsabilidades no setor da saúde. Ao longo do percurso, frequentou formações complementares em Gestão da Saúde e Docência Universitária, conciliando a atividade clínica com cargos de liderança.
Foi chefe dos Serviços de Medicina IV do Hospital Militar Principal/Instituto Superior, diretora do Gabinete Provincial da Saúde do Huambo e mais tarde diretora Nacional dos Hospitais, no Ministério da Saúde.
A médica também integrou a equipa angolana de Cirurgia Robótica e assumiu a direção-geral do Hospital de Cacuaco "Heróis de Kifangondo". De acordo com o Ministério da Saúde, soma quase quatro décadas de experiência, exercendo funções como docente, médica, líder e gestora pública, deixando marcas profundas em cada função, com ética, competência, patriotismo e sensibilidade humana.
Resultados finais
A Comissão Nacional Eleitoral da ORMED informou que os resultados definitivos serão anunciados na primeira quinzena de outubro.
"No nosso calendário eleitoral, temos uma margem de 15 dias para que todos os boletins escrutinados cheguem à capital e sejam devidamente conferidos com os números provisórios já enviados", explicou Antónia Muangala, porta-voz da Comissão. Eleição na ORMED marcada por polémica e pressões políticas