O ativista político angolano Pedrowski Teka anunciou a criação de um novo partido de centro‑esquerda, o Consenso Patriótico Angolano, conhecido pela sigla COPA.
A formação resulta da transformação do movimento da sociedade civil União do Povo Angolano, liderado pelo próprio Teka.
Figura reconhecida no ativismo político, Teka foi porta‑voz e líder da juventude da Frente Patriótica Unida, a plataforma que, nas eleições de 2022, juntou a UNITA, o Bloco Democrático, o projeto PRA‑JA Servir Angola e representantes da sociedade civil.
Com esta aposta numa nova força partidária, o antigo candidato a deputado posiciona‑se agora num cenário político cada vez mais competitivo, numa altura em que Angola se prepara para as eleições gerais de 2027.
DW África: O que o motiva a criar o COPA e a assumir‑se como líder político em Angola?
Pedrowski Teka (PT): O contexto político nacional está cada vez mais exigente. No entanto, continuam a existir várias barreiras impostas pelos partidos independentistas, os partidos mais antigos do país. Nota‑se que estas forças já não fazem uma leitura atual da realidade angolana. Há um claro desfasamento entre as suas agendas e as aspirações do povo.
DW África: Porquê?
PT: Porque eleição após eleição continuamos a circular na mesma lógica, sem mudanças reais. Chegamos aos 50 anos de independência e, infelizmente, nada muda. Na verdade, muitas situações apenas pioram. Isto é profundamente triste para o povo angolano.
Depois de meio século destes partidos no poder — ou na oposição — torna‑se evidente a necessidade de afirmação de uma nova geração. Os jovens devem assumir responsabilidades e ascender a posições de decisão. Os mais velhos, após 50 anos, demonstram incapacidade para responder aos desafios do país. É necessária uma passagem de testemunho.
DW África: Considera então que estes partidos se distanciaram da realidade do povo? Que vivem num mundo à parte?
PT: Sim. Distanciaram‑se completamente. Conformaram‑se.
Os partidos da oposição estão, neste momento, concentrados numa luta interna para determinar quem será o “maior partido da oposição”. Isto é inaceitável. Um partido político deve ter como objetivo chegar ao poder, não disputar apenas posições dentro da oposição.
Depois do que aconteceu em 2022, percebe‑se claramente que falta estratégia para vencer as eleições do próximo ano. Por isso é que defendo que os jovens devem assumir responsabilidades e dirigir o país.
DW África: Quer dizer que a oposição não luta para chegar ao poder, mas apenas para decidir quem lidera a oposição? Porquê essa leitura?
PT: Porque estamos a assistir a uma luta frenética entre os partidos da oposição para definir quem será o maior partido oposicionista. Essa disputa destrói o foco essencial: governar Angola.
Como se diz, quando a esquerda se distrai, a direita avança. E é isso que vemos. O partido no poder está confortável enquanto a oposição se digladia internamente.
E estamos a falar de políticos que estão há 50 anos nas mesmas posições, sem oferecer alternativas ao povo. Por isso insisto: é essencial que a juventude se afirme para bem de Angola.
DW África: Já esteve na Frente Patriótica Unida. Porque não permaneceu na estrutura para tentar mudar as coisas internamente? Porquê avançar sozinho?
PT: Nunca fui militante de nenhum partido político. Entrei na FPU através de um acordo entre organizações políticas e da sociedade civil. Como líder da UPA, participei na FPU desde a sua criação e durante as eleições. A minha organização ainda não se desvinculou formalmente da FPU, e continuamos a defender a união das forças da oposição porque, unidos, somos mais fortes.
Acreditamos na força dos jovens combinada com a experiência dos mais velhos.
Mas há um problema essencial: a falta de estratégia.
Os moldes de 2022 já não servem para 2027. Houve sacrifícios enormes de partidos e da sociedade civil que podem pôr em risco a sua própria sobrevivência. O Bloco Democrático é um exemplo: se não concorrer em 2027, será automaticamente extinto pela lei.
Não queremos isso. Não faz sentido apoiar apenas um partido e permitir que outros desapareçam. Isso levaria de uma ditadura para outra.
Precisamos de uma coligação formal e legal, que garanta a continuidade de todos. A união faz a força, mas não pode haver sacrifícios até à extinção de uns enquanto outros permanecem intactos.
DW África: Qual é a expressão eleitoral do projeto neste momento? O que sente no terreno?
PT: A receção tem sido extremamente positiva. O anúncio do COPA teve um impacto estrondoso e tornou‑se rapidamente um tema de tendência nacional. O nome COPA foi muito bem acolhido.
O surgimento do projeto despertou debates entre os jovens, que começaram a discutir política, a elaborar ideias, até a criar partidos virtuais com recurso à inteligência artificial. Houve um verdadeiro despertar cívico.
Muitas pessoas mostraram vontade de trabalhar connosco. Estamos satisfeitos e confiantes.
DW África: Como responde às acusações de que estes novos projetos servem como satélites do MPLA para dispersar votos?
PT: Não têm fundamento. O COPA é a transformação da UPA, o nosso projeto da sociedade civil. Eu fui candidato a deputado pela UNITA e nessa altura ninguém me chamou satélite.
Isto é apenas uma manobra para impedir o surgimento de novos partidos. Há quem queira limitar Angola a um bipartidarismo entre MPLA e UNITA. Mas defendemos uma Angola verdadeiramente multipartidária.
Estamos numa competição política e há quem queira limitar a democracia. Não permitiremos isso.
DW África: Como avalia Angola e o desempenho de João Lourenço a um ano das eleições? Que país temos hoje?
PT: Infelizmente, temos um país pior. O povo está mergulhado na miséria, há famílias a alimentar‑se em contentores do lixo, a economia está degradada e a moeda profundamente desvalorizada.
O governo não encontrou o país bem, mas agravou a situação.
A juventude precisa de assumir responsabilidades, trazer ideias novas e endireitar o país. Cada geração tem a sua missão histórica e a nossa é lutar e resgatar Angola, com renovação e passagem de testemunho, não com rutura.
DW África: Em que ponto está o processo de legalização do COPA?
PT: O processo está a correr bem. No próximo mês de março vamos entregar a documentação ao Tribunal Constitucional. Temos recebido apoio da população e de várias individualidades.
Estamos motivados e confiantes de que o COPA será legalizado ainda este ano. Com a receção que tivemos, acreditamos que seremos uma força política relevante.
DW África: Pretendem concorrer às eleições? A ambição é liderar a oposição ou chegar ao poder?
PT: Todo o partido político deve ter como objetivo chegar ao poder — e o COPA não é exceção.
Há partidos tão agarrados ao poder que prefeririam destruir o país a permitir alternância. Por isso é necessária uma terceira via — um partido de centro‑esquerda capaz de governar sem perseguições e com equilíbrio.
A juventude é a solução para unir e fazer Angola avançar.