Cheias em Moçambique: "Há que atacar o problema com coragem"
18 de janeiro de 2026
Pelo menos 103 pessoas morreram e 173 mil foram afetadas desde o início da época das chuvas em Moçambique, segundo dados do Governo, que decretou alerta vermelho nacional.
Enquanto o país não construir infraestruturas adequadas, todos os anos terá de enfrentar cenários de cheias e inundações urbanas, diz o engenheiro hidráulico José Matola.
"Devemos adequar as nossas infraestruturas e a nossa maneira de usar o solo de tal modo que esses eventos não nos afetem de forma crítica", sublinha.
Nos bairros propensos a inundações, sobretudo periféricos, residentes clamam pelo melhoramento de infraestruturas para minimizar o seu impacto, queixa-se Doroteia Cossa, moradora do bairro da Maxaquene C.
"Isto não pode continuar assim. Não é possível nós, os moradores, termos condições para construir drenos".
Rogério Anselmo, residente no bairro de Hulene A, conta que todos os anos vivem um cenário de inundações e pouco se faz para evitar que a situação se repita.
"Basta chegar esta época das chuvas e somos obrigados a nos adaptar. Outras pessoas mudam-se, mas nós não temos como", lamenta.
Investimento em infraestruturas hidráulicas
Mas até quando os residentes destes bairros deverão adaptar-se ao ambiente de inundações? Todos os anos, a única solução que se encontra é a retirada dos moradores que são alojados em centros de acomodação. O engenheiro José Matola sugere grandes investimentos em infraestruturas hidráulicas.
"Essas obras evitariam que tantas coisas se estraguem. Quanto custa ter uma estrada nacional cortada por uma ou duas semanas? Será que esse cálculo, do que se perde quando a estrada fica cortada, compara-se com o custo de fazer uma obra hidráulica suficientemente boa?", questiona.
José Matola, mesmo reconhecendo a intensidade da queda das chuvas em Moçambique, diz que não é impossível minimizar os seus impactos. Um deles é criar novos assentamentos.
"É preciso atacar esse problema com frontalidade e coragem. O problema é que todos os anos falamos deste assunto. Todos os anos quando chove é um problema. Não é um assunto que temos de continuar a falar. Temos que tomar medidas", frisa.
Deve haver investimentos na construção de mais barragens uma vez que as que existem não são suficientes para reter as águas e evitar cheias, diz ainda o engenheiro.
"Há tantas barragens que, pela necessidade de controlar cheias e para irrigar campos agrícolas, são necessárias para o país. Mas não estamos a conseguir ter isso."
A Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos estima que pelo menos 400 mil pessoas estão em risco de serem retiradas compulsivamente devido às cheias na província de Gaza, sul do país.