Chuvas em Moçambique: É preciso repensar calendário escolar?
19 de fevereiro de 2026
A Associação Nacional do Professores (APU) afirma que alterar o início do calendário escolar de forma definitiva para março não seria uma solução mágica.
O presidente da associação, Avatar Cumbe, considera que o Governo de Moçambique poderia adotar um calendário com o objetivo de abranger zonas frequentemente afetadas pelos fenómenos naturais.
"O ideal seria um calendário flexível e regionalizado," defende.
"Temos províncias em que há recorrência de cheias. E essas poderiam ter um calendário específico conforme o pico de chuvas, enquanto a zona norte vai tendo aulas ou uma parte da zona centro. Essas escolas, de alguma forma menos afetadas, poderiam ter aulas."
Início em março?
O porta-voz da Associação Nacional dos Professores (ANAPRO), Marcos Mulima, defende a alteração do calendário letivo para março. Mas antes, deve fazer-se um estudo aprofundado que se adeque aos momentos das intempéries.
Mulima acrescenta que o Governo deve igualmente desenhar um plano pedagógico permanente que envolva professores, alunos e encarregados de educação.
"Não há planos concretos e específicos que vão impactar, sob o ponto de vista pedagógico, os indivíduos que estão no terreno - que são o professor e o aluno. Não se percebe como é que se vai fazer", afirma.
Abrigar ou educar
As escolas ainda abrigam vítimas das intempéries, numa altura em que o país está a duas semanas do arranque do ano letivo. Avatar Cumbe diz que o cenário obriga os professores e alunos a correrem contra o tempo para cumprir o plano de atividades de todo o ano.
"Isso resulta numa aprendizagem superficial, os conteúdos são lecionados de forma acelerada e é uma grande dor de cabeça para o professor," critica.
"O outro aspeto é o cansaço. Os alunos e os professores ficam exaustos até ao final do ano porque há uma correria para cumprir com os programas," relata Cumbe.
Necessidade de adaptação
Também o professor Rogério Nhanale se queixa de que as chuvas, as cheias e os ciclones que ocorrem em tempos letivos obrigam os professores a alterarem quase sempre os planos de aula.
"Os planos de aula ficam comprometidos, porque o professor não havia previsto essa questão da chuva. Sendo assim, tem de usar métodos contingenciais, adaptando-se à realidade atual," conta.
Além disso, é urgente lidar com os traumas provocados por cheias, ciclones e chuvas intensas, que afetam professores e alunos. O porta-voz da ANAPRO, Marcos Mulima, pede assistência psicológica.
"Com que moral esses professores voltam ao terreno? Como é que os professores vão voltar desmotivados? E como iniciam o ano letivo? Há uma série de imbróglios que não devemos acomodar. O Governo devia pensar melhor sobre isso e não pensar sozinho," conclui.
As cheias deste ano destruíram mais de 400 escolas forçando o Governo a adiar o início do ano letivo de 30 de janeiro para 27 de fevereiro.