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"Chapo devia anunciar o colapso das unidades sanitárias"

29 de dezembro de 2025

Os profissionais de saúde moçambicanos culpam o Presidente Daniel Chapo pela falta de meios nos hospitais, onde há pacientes a morrer, e ameaçam com uma nova greve por falta de condições e incumprimento de promessas.

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Pacientes num hospital de Moçambique
A Associação dos Profissionais Unidos de Moçambique diz que falta de tudo um pouco, desde anestésicos e medicamentos a soro fisiológico e alimentação para os doentesFoto: Sitoi Lutxeque/DW

Daniel Chapo deveria declarar "o colapso das unidades sanitárias", defende o presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos de Moçambique (APSUM), Anselmo Muchave, que culpa o chefe de Estado pela falta de meios e condições nos hospitais moçambicanos, que, no seu entender, está a matar muitos pacientes.

Muchave diz que falta de tudo um pouco, desde anestésicos e medicamentos a soro fisiológico e alimentação para os doentes. Os profissionais de saúde têm feito o máximo, "mas já não conseguem mais", alerta o responsável, acusando o Executivo de Daniel Chapo de estar a "brincar" com a saúde dos moçambicanos.

O grupo ameaça com uma nova greve no setor, reivindicando o pagamento do 13.º salário e o cumprimento do caderno reivindicativo entregue ao Governo há três anos.

Anselmo Muchave, presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique
Anselmo Muchave afirma que "o Governo tem brincado com os profissionais de saúde"Foto: Romeu da Silva /DW

DW África: Os profissionais de saúde deram um ultimato de 15 dias para o Governo moçambicano se pronunciar sobre o pagamento do 13º salário. Porquê?

Anselmo Muchave (AM): Quando demos 15 dias, [quer dizer que] é em 15 dias que o Governo deve pronunciar-se e começar a pagar o décimo terceiro salário, porque nestes últimos anos o Governo tem contado muitas histórias para fazer esses pagamentos.

DW África: E passados os 15 dias, se o Governo não esclarecer essa questão, qual vai ser o próximo passo?

AM: Nós não recuamos, nós continuamos a dizer que vamos fazer greve. Vamos parar, vamos pausar todas as atividades, como sempre fizemos, porque o Governo tem brincado com os profissionais de saúde. Há mais de três anos que o nosso caderno reivindicativo não está a ser respondido. Este ano houve mais mortes nas unidades sanitárias por falta de medicamentos, por falta de insumos médicos, por falta de alimentação nas unidades sanitárias. Os profissionais de saúde fizeram o máximo para assegurar - sem meios, sem nada - e merecem motivação, aquilo que é de lei. Então, paralisaremos as atividades.

APSUSM quer entender logística dos medicamentos

DW África: Mas quando diz que o vosso caderno reivindicativo não está a ser respondido, sabe-se que, no início deste ano, havia um grupo de contacto de diálogo entre os profissionais de saúde e o Governo. Quando é que para este processo de negociação com o Governo?

AM: Eu não gosto de mentir. O ministro [Inocêncio] Impissa, como porta-voz do Governo, e o próprio Presidente da República [Daniel Chapo] criaram uma equipa multissetorial desnecessária e não séria, uma equipa com falta de respeito, uma equipa que não leva a saúde a sério, uma equipa que marca [apenas] reuniões. Até hoje não temos conclusões, nem nada de concreto. Nada se resolveu.

Então, há uma brincadeira. Há um novo Governo que está no meio de brincadeiras, com um bocadinho de vergonha. O Governo sabe que, neste momento, não há anestésicos nas unidades sanitárias, [mas] não falou nada. As pessoas não estão a ser operadas por falta de gazes e anestésicos. E o que é que acontece a essas pessoas? Essas pessoas morrem.

DW África: Pelos vistos, a situação nos hospitais continua a deteriorar-se cada vez mais. Como é que se pode caracterizar a situação nos hospitais nesta quadra festiva, que normalmente tem sido o período de maior procura?

AM: A associação já disse que o Presidente da República devia anunciar um colapso das unidades sanitárias. O que acontece é que as unidades sanitárias têm recebido uma [grande] demanda e os profissionais de saúde têm feito um esforço maior para atender [os pacientes], com carinho e com zelo, mas a dificuldade da falta de medicamentos e de material médico-cirúrgico leva também a mortes evitáveis.

Chapo ainda não conseguiu romper com as velhas práticas?

DW África: A narrativa governamental tem sido de que a situação está a melhorar comparativamente aos últimos anos do mandato do Presidente Filipe Nyusi. Vocês que estão no terreno, que trabalham dia a dia no setor, podem confirmar se é verdade que as condições melhoraram significativamente nos últimos tempos?

AM: Mentira, isso é mentira. Os hospitais estavam melhores no mandato passado. Agora pioraram, deterioraram-se. Estamos num colapso total. No mandato passado, nós não tínhamos problema de gazes nas unidades sanitárias. A maioria das pessoas era operada, mas agora é traumatizante não ter anestéticos, é traumatizante não ter, por exemplo, soro fisiológico. Então, é uma grande mentira.

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