1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
DesastresMoçambique

Recuperação pós-cheias desafiante para população e Governo

1 de março de 2026

Após as cheias em Xai-Xai, munícipes queixam-se do agravamento dos preços dos materiais de limpeza e de construção civil e da falta de apoios para afetados. Governo diz ser incapaz de atender a todas as solicitações.

https://p.dw.com/p/59dEt
Xai-Xai, Província de Gaza
Na cidade de Xai-Xai enxurradas deixaram um rastro de destruição nunca antes vistoFoto: Carlos Matsinhe/DW

A recuperação pós-cheias e inundações na cidade de Xai-Xai, província de Gaza, no sul de Moçambique, tem sido um desafio para a população e para o Governo. 

Falando em anonimato, um residente que vive no Bairro Cimento, na cidade baixa de Xai-Xai, há 68 anos, conta que a retoma da vida decorre com imensas dificuldades. Diz que perdeu tudo e que as perdas foram agravadas pelos malfeitores que vandalizaram o que havia de ser o pontapé de saída na recuperação pós-cheias.

Agora, apela ao Governo que tenha em conta os estudos, alguns até do tempo colonial, sobre a mitigação do impacto das cheias na cidade.

"O nosso Governo tem de trabalhar seriamente. Existia um plano de desviar o rio Limpopo não na totalidade. A ponte Chicumbane tem um rio natural, é só desviar a água. Quando a água vem em grande quantidade vai passar por lá e não vai dar cabo da cidade".

Este residente acrescenta que o corte da Estrada Nacional número 1, que permite acesso à cidade de Xai-Xai, a partir do sentido norte- sul, deveu-se à falta de ouvido do Governo sobre a necessidade do alargamento da extensão da ponteca sobre o Rio Anguluzane.

Materiais de limpeza e construção mais caros

Ângela de Costa Ferreira, residente no Bairro 2 da cidade, a escassos metros do rio, descarta a possibilidade de se retirar da casa afetada. Diz que o facto de ter mais de 50 anos, não lhe permite pensar numa nova moradia e que o custo dos materiais dificulta a reconstrução depois de perder quase tudo.

"Ficou tudo destruído e os materiais são caros nas lojas ao invés de nos darem um pouco mais barato o que havia de nos facilitar neste momento. Fui a uma loja para comprar tintas e pregos e tudo subiu de preço, até o preço da vassoura para varrer dentro de casa", lamenta. 

Inundações em Moçambique
Cidade de Xai-Xai foi fortemente afetada pelas cheias nos anos 1955, 1977, 2000, 2013 e 2026 (imagem ilustrativa)Foto: Mendes Mondlane/Xinhua/picture alliance

Ângela de Costa Ferreira defende a construção de represas de água ao longo do Vale do Limpopo e valas de drenagens nas cidades e vilas. A residente sublinha, no entanto, que ninguém dá conta do recado.

Abdul Gafar, proprietário de uma padaria, explica que conseguiu reatar a atividade graças ao apoio de familiares. E defende que a solução passa pela construção de infraestruturas hidráulicas porque, segundo lembra, a cidade é a espinha dorsal económica da província.

"Tivemos de fazer um novo estrado e neste momento estou a trabalhar com a minha padaria. Preciso de reforço financeiro, mas de onde virá esse apoio? Conseguimos fazer alguma coisa com ajuda dos familiares e dos meus filhos", diz Gafar.

Recuperação é "gradual"

Adérito Tomas, proprietário de uma unidade de entretenimento, diz que pensar numa transferência ou nova cidade é uma ilusão num país em que o Estado se exime das suas obrigações.

"Sabemos que aqui em Moçambique é o cidadão que abre a estrada, puxa o cabo de água, de energia, e o Estado depois vem cobrar, mas tinha que ser ao contrário."

O presidente do Conselho Municipal de Xai-Xai, Ossumane Adamo, explica que a recuperação é gradual. Alguns estabelecimentos comerciais já estão a operar, numa cidade com sete quilómetros de estradas que ficaram sem asfalto, além de muito lixo trazido pelas enxurradas.

"O centro da cidade já está minimamente em condições, temos lojas, bancos, que já reabriram as suas portas e estão a atender o público", complementa.

Sobre os debates em torno da transferência ou não da cidade, Ossumane Adamo defende o projeto da edilidade, da construção de um dique à volta da cidade.

A cidade de Xai-Xai foi sucessivamente afetada pelas cheias nos anos 1955, 1977, o ano 2000, 2013 e 2026.

DJ mobiliza apoio nas cheias: "É preciso devolver dignidade"

Carlos Matsinhe Correspondente da DW África em Xai-Xai
Saltar a secção Mais sobre este tema