Governo dos EUA entra em paralisação após falta de acordo
1 de outubro de 2025
Na terça-feira (30.09), o Senado não aprovou uma proposta de financiamento temporário que já tinha sido aprovada pela Câmara dos Representantes. Apesar de os republicanos deterem a maioria com 53 lugares, não conseguiram os 60 votos necessários para ultrapassar o bloqueio democrata. Três democratas votaram a favor da proposta, mas não foi suficiente para evitar a paralisação.
A medida, que suspende temporariamente as operações não essenciais do Estado, marca a primeira paralisação governamental em quase sete anos. A última ocorreu durante o primeiro mandato presidencial de Donald Trump, quando as funções governamentais foram suspensas durante 35 dias, em dezembro de 2018.
O impasse surge no final do ano fiscal norte-americano, que decorre de 1 de outubro a 30 de setembro. Sem um acordo, todas as agências federais ficam sem financiamento, obrigando à suspensão de funções não essenciais e ao envio de centenas de milhares de funcionários para casa, sem remuneração até que o Congresso aprove uma nova lei orçamental.
Ameaça de despedimentos em massa
A administração do Presidente Donald Trump ameaçou com despedimentos em massa no setor público caso a paralisação se concretizasse. "Vamos despedir muitas pessoas que serão fortemente afetadas. E são democratas, vão ser democratas", afirmou o chefe de Estado na véspera do "shutdown".
Além das consequências para os trabalhadores federais, a medida poderá afetar o pagamento de alguns benefícios sociais e comprometer o funcionamento de serviços públicos.
Agências como a NASA e os serviços de proteção fronteiriça continuarão a operar, enquanto outras, como o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes, já anunciaram a suspensão de parte do seu pessoal.
Porque é que republicanos e democratas não chegaram a acordo?
O bloqueio político deve-se, em parte, à exigência dos democratas de reintegrar centenas de milhares de milhões de dólares em financiamento para cuidados de saúde destinados a famílias de baixos rendimentos, incluindo a reversão de cortes no Medicaid. Os republicanos recusaram negociar estas condições, insistindo numa proposta "limpa” e sem alterações.
A tensão agravou-se com a publicação, por parte de Trump, de vídeos gerados por inteligência artificial que ridicularizam os líderes democratas Chuck Schumer e Hakeem Jeffries. Num dos vídeos, Jeffries aparece com um chapéu e bigode, ao som de música mariachi, enquanto uma versão manipulada de Schumer profere insultos e alegações falsas sobre os democratas quererem oferecer cuidados de saúde gratuitos a imigrantes ilegais para ganhar votos.
Jeffries classificou o vídeo como "repugnante" e "racista", afirmando que "a intolerância não leva a lado nenhum". Schumer, por sua vez, acusou Trump de não saber negociar e de tratar a paralisação como uma brincadeira.
A paralisação do governo federal norte-americano continuará até que o Congresso consiga aprovar uma nova lei de financiamento. Até lá, a incerteza permanece sobre o impacto económico e social desta medida.
Parques nacionais afetados
O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos planeia colocar cerca de 9.200 funcionários em licença, o que representa quase dois terços do seu pessoal, segundo um plano de contingência divulgado poucas horas antes do início da paralisação.
De acordo com o plano, "as estradas dos parques, miradouros, trilhos e memoriais ao ar livre permanecerão, em geral, acessíveis aos visitantes". No entanto, os locais poderão ser encerrados caso sofram danos ou acumulem lixo em excesso.
O Serviço Nacional de Parques gere mais de 400 locais, incluindo parques emblemáticos como Great Smoky Mountains, Zion, Yellowstone e Grand Canyon.
Antes do encerramento, a Associação de Conservação dos Parques Nacionais alertou para os riscos de manter os parques abertos durante uma paralisação, sublinhando que isso os torna vulneráveis a danos.
Durante o "shutdown" de 35 dias ocorrido no primeiro mandato de Donald Trump, muitos parques permaneceram abertos, o que, segundo a associação, teve impactos devastadores.
Entre os danos registados, a organização destaca prejuízos por vezes irreparáveis, como a vandalização de petróglifos antigos, o roubo de artefactos históricos em campos de batalha e o abate de árvores com mais de cem anos.