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Guerra no Médio Oriente abala a aviação africana

Isaac Kaledzi
27 de abril de 2026

A crise no Médio Oriente está a afetar o setor da aviação em África. Analistas alertam que um conflito prolongado poderá fragilizar seriamente algumas companhias aéreas, obrigando-as a adotar estratégias inovadoras.

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Aeronave da Ethiopian Airlines em Addis Abeba, Etiópia, em 2024
A Ethiopian Airlines afirmou em março que a guerra com o Irão lhe custou cerca de 137 milhões de dólares por semanaFoto: Seyoum Getu/DW

A indústria global da aviação, incluindo o setor africano, em rápido crescimento, enfrenta dificuldades para lidar com as consequências da crise. Uma das pressões mais imediatas resulta do aumento dos custos do combustível, que representa uma parte significativa das despesas operacionais das companhias aéreas.

O combustível para aviação, um derivado do querosene refinado a partir do petróleo bruto, é o principal combustível utilizado pelas companhias aéreas. No entanto, as perturbações associadas à crise levaram a que os preços duplicassem em alguns mercados, provocando também escassez de abastecimento.

"O impacto reflecte‑se na quantidade de combustível que as transportadoras africanas conseguem adquirir para as suas operações", afirmou Dominick Andoh, sócio‑gerente da Aviation Ghana, em declarações à DW.

As preocupações com a segurança energética fizeram disparar os preços globais do petróleo. O Brent chegou a ser negociado a 95,46 dólares por barril na passada segunda‑feira (20.04), um aumento superior a 5%.

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Analistas atribuem a subida ao receio de colapso de um cessar‑fogo frágil entre os Estados Unidos e o Irão, sobretudo após a apreensão de um navio de carga iraniano pelos EUA e a paralisação do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.

Segundo Andoh, o aumento do preço do combustível acabou inevitavelmente por ser transferido para os passageiros. "Os preços dos bilhetes subiram. As taxas de sobretaxa de combustível aumentaram em várias percentagens desde o início da guerra, sobretudo a partir de abril", explicou.

Sobrevivência em risco

A gravidade da crise alarmou líderes empresariais africanos. Aliko Dangote, o homem mais rico de África e proprietário da refinaria Dangote, na Nigéria, advertiu que muitas companhias aéreas africanas poderão não resistir a um aumento prolongado dos custos do combustível.

"A maioria das companhias aéreas africanas não conseguirá sobreviver ao atual aumento dos custos do combustível", afirmou Dangote durante a cimeira Semafor World Economy, em Washington.

Os líderes do setor defendem uma abordagem mais estratégica dos governos em matéria de segurança energética. O diretor‑geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), Willie Walsh, afirmou que a disponibilidade de combustível de aviação deve ser tratada como uma questão política crítica.

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Cancelamentos e prejuízos 

Para além do aumento dos custos, as restrições ao espaço aéreo em torno dos países do Golfo obrigaram muitas companhias a desviar rotas ou a cancelar voos, agravando os custos operacionais e reduzindo a eficiência das ligações.

A Ethiopian Airlines está entre as mais afetadas. No mês passado, a companhia anunciou erdas de cerca de 137 milhões de dólares por semana devido à crise. "Foram cancelados mais de 100 voos por semana, e estamos a perder cerca de 137 milhões de dólares semanalmente", afirmou o gestor Lemma Yadhecha à imprensa local.

Um anúncio recente de cessar‑fogo gerou expectativas de melhoria, mas o otimismo foi breve após o incumprimento do acordo pelas partes envolvidas.

Estratégias alternativas para resistir

Perante os desafios, algumas companhias africanas estão a adotar novas estratégias. A Kenya Airways, por exemplo, começou a redireccionar passageiros europeus através do seu hub em Nairobi, evitando os tradicionais pontos de trânsito no Golfo.

Apesar das dificuldades, Andoh acredita que o setor pode resistir se forem tomadas medidas preventivas, como o armazenamento de combustível e a cobertura contra oscilações de preços. No entanto, Willie Walsh alerta que a recuperação será lenta, devido à disrupção da capacidade de refinação no Médio Oriente.

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Impacto no turismo

A crise na aviação está também a afetar o turismo, um setor fortemente dependente do transporte aéreo. Na África do Sul, operadores turísticos afirmam que os cancelamentos e a incerteza já estão a afetar os seus meios de subsistência.

"A Cidade do Cabo foi eleita um dos melhores destinos do mundo para visitar e, devido à guerra, a cidade como um todo também está a sofrer. Refiro‑me sobretudo ao sector do turismo, onde muitos guias e empresas turísticas estão a enfrentar dificuldades", disse  Walsh à Reuters.

Os cancelamentos de voos ligados às rotas do Médio Oriente afetaram igualmente negócios que dependem de clientes internacionais recorrentes.

"Perdi entre 350 mil e 500 mil rands (21 mil a 30 mil dólares) nos últimos meses devido à guerra no Médio Oriente. Isto teve um impacto directo no meu negócio, sobretudo porque muitos clientes habituais não fizeram planos este ano devido à incerteza", sublinhou Ruiters, guia turístico internacional.

Ainda assim, Andoh mantém‑se confiante de que tanto a aviação como o turismo acabarão por recuperar. "O setor da aviação e o do turismo continuarão em atividade. Se algo ficou provado com a Covid‑19, é que estes setores são muito resilientes. As pessoas continuarão a viajar", concluiu.

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