Bissau: Três candidatos, três percursos marcados pelo PAIGC
20 de novembro de 2025
Termina esta sexta-feira (21.11) a campanha eleitoral para as eleições gerais de domingo na Guiné-Bissau. Os principais candidatos continuam no terreno a tentar convencer os eleitores.
Hoje, a DW traça o perfil de três concorrentes à Presidência: Baciro Djá, José Mário Vaz e João Bernardo Vieira — todos com percurso no PAIGC, partido que ficou de fora nestas eleições, mas que apoia o candidato independente Fernando Dias.
No discurso de campanha, prometem restaurar a liberdade e a dignidade dos guineenses. Mas o sociólogo Armando Correia alerta que é "urgente” devolver legitimidade ao Estado através do respeito pelas regras constitucionais.
José Mário Vaz: o ex-presidente que quer concluir a "obra inacabada"
Economista e primeiro Presidente guineense a concluir um mandato de cinco anos (2014-2019), José Mário Vaz, de 67 anos, regressa à corrida presidencial. Conta agora com o apoio do Partido da Convergência Nacional para a Liberdade e o Desenvolvimento (COLIDE-GB), liderado pelo antigo Procurador-Geral da República, Juliano Fernandes.
"Jomav”, como é conhecido no país, recordou os feitos do seu primeiro mandato, destacando que os cinco anos foram marcados por acalmia, sossego, liberdade, paz social e respeito ao próximo. Acrescentou que lutou pela igualdade entre todos os cidadãos.
No lançamento da candidatura, Vaz justificou a decisão de regressar à disputa eleitoral com o objetivo de concluir a "obra inacabada".
"O nosso país merece mais. Merece paz duradoura, estabilidade política e instituições fortes. Apresento esta candidatura com um compromisso firme de servir incansavelmente a Guiné-Bissau para que avance no caminho do desenvolvimento, da justiça social e da unidade nacional”, afirmou.
Formado em Portugal, militou no PAIGC, foi membro do Conselho de Estado e ministro das Finanças entre 2009 e 2012. Em 2014, venceu a segunda volta das presidenciais, derrotando Nuno Nabiam.
Mas o seu mandato foi marcado por forte instabilidade governativa. Em 2015, demitiu o governo de Domingos Simões Pereira, ato que lançou o país numa das crises políticas mais prolongadas da sua história. Nomeou oito primeiros-ministros, enfrentou conflitos com o próprio PAIGC e deixou um legado de divisões políticas profundas.
Baciro Djá promete meritocracia e respeito constitucional
Outro concorrente é Baciro Djá, de 52 anos, líder da Frente Patriótica de Salvação Nacional (FREPASNA). Declara-se uma figura de "ações concretas” para reforçar a unidade e a coesão nacionais, valorizando as diversidades étnicas do país.
No manifesto, Djá, que se assumiu crítico do Presidente cessante, Umaro Sissoco Embaló, defende que fará da Guiné-Bissau um Estado social baseado na meritocracia e no respeito pela Constituição.
"A Guiné-Bissau desenvolverá só se apostarmos na meritocracia. Quem sabe é que deve estar a frente. Base fundamental que pode alavancar a economia do país é a agricultura. Aposto numa agricultura cientifica e mecanizada é aqui que vamos da emprego aos jovens”, defendeu.
Formado em Psicologia Social pela Universidade de Havana, construiu quase toda a carreira política no PAIGC. Foi deputado, presidente do Instituto da Defesa, ministro da Juventude e ministro da Defesa Nacional. Após as legislativas de 2014, assumiu o cargo de ministro da Presidência do Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares. Chegou a ser nomeado primeiro-ministro por José Mário Vaz, no auge da crise interna do PAIGC.
Apresenta esta candidatura como a sua terceira tentativa de conquistar a Presidência da República, depois de experiências anteriores em 2012 e 2019.
João Bernardo Vieira quer Conferência Nacional de Paz
Aos 48 anos, João Bernardo Vieira, ex-porta-voz do PAIGC, concorre como defensor da paz, da justiça e da reconciliação nacional. Diz ter como prioridade consolidar o entendimento entre guineenses.
"Gostaria de propor uma agenda para os guineenses que é a conferência Nacional de Paz, a nível nacional e onde os males-entendidos devem ser ultrapassados, partindo para o perdão e o diálogo. Gostaríamos de convidar os guineenses para essa agenda, com o propósito da reconciliação e unidade, rumo ao desenvolvimento do nosso país”.
Com formação em Direito e mestrado em Desenvolvimento Internacional, Vieira foi secretário de Estado dos Transportes e Comunicações entre 2014 e 2016, nos governos de Domingos Simões Pereira e Carlos Correia.
Defende que o Estado deve priorizar setores sociais essenciais, como educação, saúde, agricultura, juventude e novas tecnologias.
O desafio comum: restaurar o futuro do país
Os três candidatos partilham o mesmo berço político — o PAIGC — e enfrentam agora o desafio de conquistar um eleitorado cansado de crises políticas sucessivas. Nesta eleição, o PAIGC apoia o candidato independente Fernando Dias, enquanto os antigos quadros do partido avançam de forma autónoma.
À DW, o sociólogo Armando Correia considera que o país vive um percurso político "degradante” e que ainda não atingiu uma democracia plena.
Deixa um alerta claro:
"É preciso muito restaurar o estado para que se torne um estado firme e pleno. Mas antes disso é preciso restaurar a legitimidade democrática que é o cumprimento das regras constitucionais, e respeitar os direitos humanos. É preciso que as pessoas tenham a liberdade, a educação e saúde, em primeiro lugar. E é preciso, sobretudo, restaurar a dignidade dos guineenses”, afirmou.