Níger indignado com resolução sobre destino do ex-Presidente
23 de março de 2026
Mohamed Bazoum tinha sido eleito em 2021, na primeira transição democrática do país desde a independência. O mandato deveria terminar a 2 de abril, mas foi interrompido pelo golpe liderado por Abdourahamane Tiani, que mantém uma junta militar no poder.
Agora, a poucos dias da data que marcaria o fim do mandato de Bazoum, eurodeputados apelam à sua libertação imediata e defendem o regresso à ordem constitucional, com eleições livres.
Ora, o Governo do Níger rejeita a posição europeia, classificando-a como ingerência nos assuntos internos. Em Niamey, na passada segunda-feira (16.03), centenas de pessoas saíram à rua em apoio à junta militar, defendendo o direito do país à autodeterminação.
Cidadãos contra ingerência
Indignado, um cidadão afirmou: "A soberania nao pode ser arrancada, como demonstrámos com a CEDEAO. Demonstraremos isso à União Europeia ou a qualquer outra entidade que queira prejudicar o Níger. Os assuntos políticos do Níger são da competência dos nigerinos. Cabe-nos a nós decidir o que fazer e quando o fazer".
Outro cidadão foi mais longe: "Esta é mais uma tentativa de interferir nos assuntos internos do nosso país. Conhecemos as ambições dos antigos colonizadores. Não estão interessados na democracia, mas sim em recuperar influência no Níger e controlar os nossos recursos naturais".
A crítica dirige-se diretamente à França. O interesse nos recursos do Níger, como petróleo e ouro, é antigo, mas o país é também relevante para a antiga potência colonial como fornecedor de urânio para a energia nuclear. Durante décadas, a exploração destes recursos esteve nas mãos de uma empresa francesa, cuja licença foi, entretanto, retirada pela junta.
"Sabemos muito bem que não foi uma iniciativa da União Europeia, mas sim uma maquinação da França que levou a União Europeia (UE), através do seu Parlamento, a tomar esta decisão precipitada", critica outro maliano.
Detenção arbitrária
De facto, a resolução europeia teve origem na iniciativa de um eurodeputado francês Christophe Gomart, que rejeita acusações de ingerência e afirma que o objetivo é apenas a libertação de Bazoum e o regresso à democracia, sem sanções ou ações contra os golpistas.
Enquanto isso, defensores dos direitos humanos na região, como o jurista Alioune Tine, fundador do centro AfrikaJom em Dakar, mostram preocupação e defendem a libertação de Bazoum.
Estou verdadeiramente revoltado e indignado com esta longa detenção arbitrária: "Estamos a atuar com boa vontade, a nível africano e internacional, para garantir a libertação do Presidente Bazoum".
Para o jurista "o Presidente Bazoum é um democrata humanista, com um historial notável de governação, tendo dado grandes passos em direção a uma paz e segurança efetivas no Níger".
Respeito pela lei
Também o jornalista e ativista nigerino Mamane Kaka Touda considera inadequado que Bazoum permaneça detido por tempo indeterminado. "Esta resolução, ou o voto a favor desta resolução, reforça a nossa posição de que o Presidente Bazoum deve ser libertado. Ele continua a ser humano. Não se pode privar alguém do seu poder e depois continuar a mantê-lo detido".
E o ativista sublinha o respeito pela lei: "Penso que, quando lhe foi retirada a imunidade, ainda nos lembramos de que isso aconteceu. Normalmente, se a imunidade foi levantada e se existem acusações contra ele, então que os tribunais façam o seu trabalho e não continuem a mantê-lo numa ala do palácio presidencial".