O que explica a deterioração das relações EUA–África do Sul?
4 de abril de 2026
Quando o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, criticou recentemente as “forças globais de direita agressivas”, todos sabiam a quem se referia: desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, no início de 2025, as relações entre os EUA e a África do Sul têm-se deteriorado cada vez mais.
Trump acusou a maioria negra da população sul-africana de cometer um “genocídio” contra a minoria branca, sem apresentar provas concretas — uma acusação que o Governo de Ramaphosa rejeitou veementemente. Trump também boicotou as reuniões do G20 organizadas pela África do Sul no ano passado, incluindo a cimeira em Joanesburgo. E agora, vários meios de comunicação noticiam que os EUA terão pressionado a França, que por sua vez voltou a excluir a África do Sul da cimeira do G7 prevista para junho, em Evian.
Não ceder à pressão dos EUA
No entanto, o ponto de partida para este "gelo diplomático" remonta a antes do início do segundo mandato de Trump, acredita Daniel Silke, diretor da consultora Political Futures Consultancy, na Cidade do Cabo. “Já se vinha a desenhar há muito tempo. Ao longo dos últimos dez anos, a África do Sul tem vindo a deslocar a sua política externa para longe dos EUA e do Ocidente”, afirmou Silke à DW. O país aproximou-se mais dos Estados do BRICS, um grupo de economias emergentes que procura constituir um contrapeso à aliança do G7, dominada pelo Ocidente.
Mesmo depois de o início da guerra na Ucrânia, Cyril Ramaphosa continuou a procurar manter boas relações com a Rússia. A proximidade do seu partido, Congresso Nacional Africano (ANC), a Moscovo remonta às décadas de 1970 e 1980, quando a União Soviética apoiava a luta contra o regime do apartheid. Mais recentemente, a África do Sul reforçou também os seus laços com a China, outro país do BRICS.
Segundo Silke, Washington acompanhou esta mudança e tomou nota das mensagens do grupo BRICS. A aliança tem um objetivo comum: reduzir o papel do dólar norte-americano como principal moeda no comércio mundial.
Desconfiança profundamente enraizada
“O ANC sempre nutriu, historicamente, uma desconfiança em relação aos EUA”, afirmou Silke à DW. Também aqui as razões remontam aos anos 1980, quando a pressão internacional sobre o regime do apartheid aumentava. O então Presidente dos EUA, Ronald Reagan, não demonstrou interesse em impor sanções económicas abrangentes à África do Sul, segundo Silke.
Após o fim do apartheid, em 1994, as relações diplomáticas com os EUA também se transformaram com a chegada ao poder do democrata Bill Clinton. Atualmente, de acordo com estatísticas da agência alemã de promoção económica GTAI, os EUA são — depois da China — o segundo parceiro comercial mais importante da África do Sul.
“O desvio ideológico para a direita em Washington colocou o Governo em rota de colisão com o ANC”, afirma Silke. “Com Trump que não tem receio de seguir esse caminho, a situação agrava-se ainda mais.”
África do Sul como alvo de uma política racista
O académico Noor Nieftagodien, diretor do History Workshop na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, sublinha igualmente a importância central dos investidores tecnológicos ligados ao movimento MAGA de Trump, sob cuja influência o Partido Republicano estaria a agir de forma mais racista do que nunca.
“No seu círculo mais próximo encontram-se pessoas como Elon Musk e Peter Thiel”, afirmou Nieftagodien à DW. Musk, diretor da Tesla e antigo responsável pela agência de desregulação DOGE de Trump, nasceu na África do Sul. Thiel, fundador da PayPal, viveu na Namíbia durante a infância. “Têm ligações a organizações de extrema-direita e racistas na África do Sul, que difundiram completamente a mentira de que existe um genocídio branco no país. E Trump adotou essa narrativa.”
Dianne Hawker, correspondente da DW em Joanesburgo, considera que a África do Sul está praticamente na mira da administração Trump desde a sua tomada de posse: “Apenas duas semanas depois, os EUA anunciaram o fim de todos os programas de ajuda, alegando supostas violações dos direitos humanos”, afirmou Hawker. Entre estes programas encontram-se também iniciativas de combate ao VIH/SIDA, cujo fim poderá representar uma ameaça à vida de muitos sul-africanos seropositivos.
O fosso agravou-se ainda mais quando o governo norte-americano lançou um programa especial de asilo para sul-africanos brancos, ao mesmo tempo que reduziu drasticamente a aceitação de refugiados em geral. Aos africânderes foi prometida uma grande parte das apenas 7.500 vagas disponíveis.
Outro ponto crítico: em dezembro de 2023, a África do Sul recorreu ao Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, acusando Israel de genocídio contra os palestinianos em Gaza. Israel nega as acusações, e Trump considera-as infundadas: em março de 2026, o governo dos EUA apresentou formalmente uma objeção em Haia.
Estará Trump a punir a África do Sul pela sua posição?
A guerra mais recente no Médio Oriente teve também efeitos negativos adicionais nas relações entre os EUA e a África do Sul. O regime iraniano continua a ser bem visto dentro do ANC, uma vez que, após a Revolução Islâmica de 1979, os clérigos deixaram de fornecer petróleo ao regime do apartheid e apoiaram simultaneamente o ANC.
Segundo o analista Nieftagodien, o facto de a África do Sul não se distanciar do Irão é algo que incomoda o Presidente Trump: “A administração Trump não tolera qualquer voz crítica em relação à sua visão do mundo e à tentativa de impor a sua vontade ao resto do mundo.” Na sua perspetiva, Trump pretende punir a África do Sul pela sua política externa independente e firme. Enquanto Trump permanecer na Casa Branca, Nieftagodien não espera uma melhoria nas relações entre os dois países.