África do Sul e Moçambique são focos globais de tuberculose
6 de abril de 2026
A África Austral continua a ser uma das regiões mais atingidas pela tuberculose, com países como a África do Sul e Moçambique ainda a suportarem uma parcela significativa do fardo global da doença. Especialistas afirmam que, embora alguns progressos tenham sido alcançados, ainda há muito por fazer para reduzir infeções e mortes.
A África do Sul permanece um dos principais focos globais da doença. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que entre 54 mil e 56 mil pessoas tenham morrido entre 2023 e 2024, com entre 270 mil e 326 mil novos casos registados anualmente.
"A África do Sul tem, sem dúvida, um fardo mais elevado devido às taxas de coinfeção com o HIV", afirmou Helen Hallstrom, responsável sénior de parcerias da ADPP Moçambique.
O país está entre as 30 nações com maior carga de tuberulose no mundo, com uma taxa de coinfeção de 54% entre pessoas que vivem com HIV." As pessoas que vivem com HIV tendem a ter o sistema imunitário mais debilitado se não aderirem ao tratamento", explicou Hallstrom.
Moçambique: Casos por diagnosticar
Moçambique também enfrenta uma grave crise de casos de tuberculose. Só em 2023, estima-se que 112 mil pessoas tenham desenvolvido a doença, mas cerca de 17.400 casos permanecem por diagnosticar, refletindo dificuldades persistentes no acesso aos cuidados de saúde.
A tuberculose é uma das principais causas de morte no país, especialmente entre pessoas que vivem com HIV. Tal como a África do Sul, Moçambique está entre os 30 países com maior carga da doença.
Hallstrom destacou que a desnutrição crónica continua a agravar a situação. "Temos também níveis elevados de desnutrição crónica, e muitas pessoas vivem na pobreza, o que contribui para a propagação da doença", afirmou.
Tuberculose resistente e estigma
Para além do HIV e da desnutrição, a tuberculose resistente a medicamentos (DR-TB) está a agravar o problema. O estigma, a discriminação e falhas nos sistemas de resposta dos serviços de saúde impedem muitas pessoas de procurar diagnóstico e tratamento atempados.
Embora a tuberculose seja uma doença curável e prevenível, especialistas alertam que o diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento são fundamentais.
"Sistemas de saúde frágeis, que levam a diagnósticos tardios, estão a comprometer os progressos", acrescentou Hallstrom.
Doentes ainda ignoram sinais precoces
Uma paciente em Joanesburgo contou à DW que só descobriu que tinha tuberculose após ser hospitalizada devido a um mal-estar.
"Quando voltei para buscar os resultados, disseram-me que tinha a doença. Mas só depois disso comecei a ter sintomas como suores, falta de apetite e perda significativa de peso", relatou.
Especialistas afirmam que o conhecimento limitado sobre os sintomas continua a impulsionar a propagação da doença.
"Quando se começa a perder peso, a tossir ou a ter suores noturnos, algumas pessoas pensam que são alergias. Estes são sintomas comuns… há pessoas que têm tuberculose mas não apresentam sinais imediatos", explicou Hallstrom.
África do Sul reforça campanhas
Na África do Sul, ativistas, profissionais de saúde e autoridades governamentais intensificaram campanhas para incentivar o rastreio e o tratamento.
"Estamos a encorajar as pessoas a assumirem o controlo das suas vidas. Ano após ano, continuamos a observar uma redução constante no número de pessoas que contraem tuberculose", afirmou o vice-presidente Paul Mashatile, num evento do Dia Mundial da Tuberculose.
"O nosso programa nacional alcançou resultados notáveis na redução da taxa de incidência, ou seja, do número de novos casos por ano", disse.
Comunicadores comunitários
Especialistas defendem que ambos os países devem investir mais na formação de comunicadores comunitários para sensibilizar a população.
Em Moçambique, a líder comunitária Modesta António, de 67 anos, tornou-se uma voz influente apesar de não ter formação médica. Após receber formação no âmbito de uma iniciativa local de saúde, é hoje uma das principais educadoras sobre tuberculose no seu distrito.
Segundo Hallstrom, iniciativas deste tipo são altamente eficazes para promover o rastreio e o tratamento.
Ferramentas digitais
Além da educação e dos programas de tratamento, a inovação digital tem-se revelado importante para alcançar comunidades e reduzir o estigma.
"O estigma ainda é muito elevado. Garantir que as pessoas tenham acesso à informação sobre o que é a doença e como preveni-la é fundamental", afirmou Hallstrom.
A sua organização utiliza a plataforma OneImpact, uma aplicação de monitorização liderada pela comunidade, desenvolvida pela Stop TB (tuberculose) Partnership e ativa em mais de 23 países. Comunicadores locais recebem formação para usar a ferramenta, que oferece soluções tecnológicas de baixo custo.
Em Moçambique, a aplicação permite que doentes de tuberculose denunciem discriminação, conheçam os seus direitos e mantenham ligação com os serviços de saúde.
A primeira avaliação formal da plataforma em contexto africano revelou elevada aceitação e melhorias na comunicação com profissionais de saúde, adesão ao tratamento e conhecimento dos direitos dos pacientes.
Progressos apesar dos desafios
Apesar dos desafios, a África Austral tem registado avanços na redução de infeções e mortes pela doença. Segundo a OMS, a melhor integração do tratamento do HIV contribuiu para uma redução de 42% nas mortes por TB em África entre 2015 e 2023.
Para Hallstrom, estes resultados demonstram que é possível eliminar a doença. "Há progressos, muito graças ao forte envolvimento das comunidades. Se as comunidades assumirem a responsabilidade e trabalharem em soluções locais, será possível eliminar a tuberculose", concluiu.