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CiênciaJapão

A foto de samurais no Egito que parece falsa, mas não é

16 de março de 2026

O que um grupo de samurais faz em frente à Grande Esfinge de Gizé em 1864? Não se trata de uma montagem: é uma imagem autêntica do período final dos xogunatos do Japão feudal.

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Grupo de samurais ao lado da Grande Esfinge de Gizé em 1864
Antonio Beato imortalizou os membros da Missão Ikeda em 1864 ao lado da Grande Esfinge de Gizé durante sua viagem à EuropaFoto: Public Domain

Em 1864, vários samurais japoneses foram fotografados diante da Grande Esfinge de Gizé. A cena hoje é desconcertante: guerreiros do Japão feudal, com suas espadas tradicionais, posando diante de um monumento milenar no deserto do Egito.

À primeira vista, a imagem pode parecer improvável, sobretudo em tempos de inteligência artificial e imagens falsas. No entanto, longe de ser uma montagem rara, a fotografia é autêntica e registra um episódio pouco conhecido ocorrido num momento de profundas transformações políticas no Japão.

A cena foi registrada durante a viagem da chamada Missão Ikeda, a segunda expedição diplomática japonesa enviada à Europa. A delegação partiu em 6 de fevereiro de 1864 por ordem do Xogunato Tokugawa, a ditadura militar que governava o Japão durante o período feudal.

À frente da comitiva estava Ikeda Nagaoki, um jovem de apenas 27 anos que era governador de pequenas aldeias na província de Bitchū. A delegação era formada por 36 homens. Vários deles carregavam duas espadas, um privilégio reservado aos samurais, a classe guerreira que então exercia grande influência na política japonesa.

Da política de isolamento aos portos abertos

A missão que tinham era tão concreta quanto urgente: convencer a França a fechar o porto de Yokohama ao comércio exterior. O pedido refletia a preocupação do governo japonês com a crescente presença estrangeira.

Samurai Ikeda Nagaoki em 1864
Comitiva foi liderada pelo samurai Ikeda Nagaoki, um jovem de apenas 27 anosFoto: Public Domain

Por mais de dois séculos, o Japão havia limitado severamente seus contatos com o exterior por meio de uma política conhecida como sakoku, que restringia a presença estrangeira no país.

Esse sistema começou a mudar em 1853, quando o comodoro americano Matthew Perry chegou ao Japão à frente de vários navios de guerra e exigiu a abertura de portos para o comércio internacional, os chamados portos abertos. O Japão acabou cedendo, e o porto de Yokohama logo se tornou um dos principais pontos de contato com potências estrangeiras.

A reação não demorou. Em 1863, o imperador Kōmei, que se opunha fortemente à abertura de portos para as nações ocidentais, promulgou o famoso edito baseado no movimento "Reverenciar o imperador, expulsar os bárbaros". Nesse clima de tensão, o xogunato decidiu enviar Ikeda e sua comitiva à Europa na esperança de reverter o que já parecia, para muitos, irreversível.

A fotografia no Egito

Foi então que Ikeda e sua comitiva iniciaram sua viagem rumo à Europa. O trajeto seguia uma rota frequentemente usada por delegações japonesas da época: cruzar o Egito por terra antes de continuar para a Europa pelo Mediterrâneo.

A expedição viajou a bordo de um navio de guerra francês e fez escalas em Xangai, na Índia e no Egito. Durante a passagem pelo Cairo, os membros da missão aproveitaram para visitar as pirâmides de Gizé.

Lá, o fotógrafo Antonio Beato, um italiano radicado no Egito e irmão mais novo do também fotógrafo Felice Beato, célebre por suas imagens do Japão da Restauração Meiji, registrou a delegação diante da Esfinge. A fotografia, assinada "A. Beato” no canto inferior esquerdo, existe até hoje.

Depois de atravessar o Egito de trem e navegar pelo Mediterrâneo, a expedição chegou finalmente à França. O desfecho, como esperado, foi negativo para a delegação: as autoridades francesas não aceitaram os pedidos de Ikeda. Yokohama já havia se tornado um importante ponto de presença estrangeira, o que tornava improvável seu fechamento.

Filho de Nadar entre dois samurais
O famoso fotógrafo Nadar, em Paris, retratou vários membros da delegação japonesa em estúdioFoto: Public Domain

A missão retornou ao Japão em 23 de agosto de 1864 de mãos vazias. Durante a estada em Paris, o famoso fotógrafo Nadar também retratou vários membros da delegação, desta vez posando diante do pano de fundo de um estúdio.

Dos samurais à Restauração Meiji

O fracasso da missão refletia uma realidade cada vez mais evidente: o sistema político do Japão feudal estava entrando em crise. Apenas quatro anos depois, em 1868, o Xogunato Tokugawa foi derrubado e teve início a Restauração Meiji. O Japão então abriu suas portas ao mundo, empreendeu um rápido processo de ocidentalização, modernizou sua indústria, reorganizou seu exército e transformou profundamente sua sociedade.

Assim, o país que enviara samurais para negociar com a Europa a bordo de navios de guerra tornou-se, em poucas décadas, uma potência industrial que passou a competir com as grandes nações do Ocidente.

Quando Ikeda e seus companheiros posaram diante da Esfinge, não podiam imaginar até que ponto o Japão estava prestes a mudar. Vista hoje, aquela fotografia parece capturar um momento de transição histórica: representantes da velha ordem samurai retratados em terras distantes pouco antes de seu mundo começar a desaparecer.

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