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Abraji e OAB condenam ataque de Bolsonaro a jornalista

11 de março de 2019

Presidente compartilhou declarações distorcidas de repórter. Em nota de repúdio, entidades afirmam que Bolsonaro usa posição de poder para intimidar a imprensa, além de não ter compromisso com a veracidade dos fatos.

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O presidente Jair Bolsonaro
Bolsonaro fez ataques à imprensa em postagem no Facebook e no Twitter no domingoFoto: picture-alliance/dpa/Marcelo Camargo/Agencia Brazil

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) divulgaram nesta segunda-feira (11/03) uma nota de repúdio a uma publicação do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais na qual ele faz acusações contra jornalistas e veículos.

Para as entidades, o caso representa um "novo ataque público à imprensa" por parte de Bolsonaro, "desta vez valendo-se de informações falsas".

"Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica", diz a nota.

Na noite de domingo, o presidente compartilhou em suas redes sociais relatos distorcidos de uma conversa entre a repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de S. Paulo, e uma pessoa não identificada. A postagem ainda conta com um áudio com trechos do diálogo.

Segundo escreveu Bolsonaro na publicação, a jornalista disse nessa conversa "querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro", senador pelo PSL e filho do presidente, bem como "buscar o impeachment do presidente Jair Bolsonaro". Os trechos audíveis do áudio, contudo, não correspondem com a descrição que o militar reformado faz das falas.

Na conversa em inglês, Rezende fala sobre as apurações do escândalo envolvendo Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro quando este era deputado estadual no Rio. Queiroz teria recolhido parte dos salários dos servidores do gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Ainda na publicação de domingo, Bolsonaro acusa a imprensa de querer "derrubar o governo com chantagens, desinformações e vazamentos". O áudio e as acusações foram primeiro publicadas pelo site Terça Livre, alimentado por apoiadores do presidente.

O Terça Livre transcreveu os áudios divulgados pelo blog francês Club de Mediapart e incluiu o título "Jornalista do Estadão: 'a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo'". Via Twitter, o site francês Mediapart afirmou que as informações publicadas no blog sobre Rezende são falsas. "O artigo é de responsabilidade do autor e o blog é independente da redação do jornal", escreveu Mediapart.

Segundo o Estado de S. Paulo, a gravação divulgada mostra que a jornalista "em nenhum momento fala em 'intenção' de arruinar o governo ou o presidente".

"A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados. Em um deles, a repórter avalia que 'o caso pode comprometer' e 'está arruinando Bolsonaro', mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido", declarou o jornal ao comentar o caso.

Na nota de repúdio, a Abraji e a OAB afirmam que a publicação de Bolsonaro "mostra não apenas descompromisso com a veracidade dos fatos" por parte do presidente, "o que em si já seria grave, mas também o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão".

Segundo as entidades, a distorção das declarações de Rezende visa "alimentar a narrativa governista de que a imprensa mente quando se refere às investigações sobre as movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro".

"Como é comum nesse tipo de ataque, a família de Constança também virou alvo. O grave nesse episódio é que o próprio presidente instigou esse comportamento, ao citar como indício de suposta conspiração que Constança é filha de um jornalista de O Globo", acrescenta a nota.

Por fim, a Abraji e a OAB afirmam que "se unem neste momento no repúdio a qualquer tentativa de intimidação de jornalistas". "Profissionais atacados por fazer seu trabalho terão sempre nosso apoio", concluem as entidades.

O caso também foi condenado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e Associação Nacional de Jornais (ANJ). Em nota conjunta, afirmam que "os ataques à repórter têm o objetivo de desqualificar o trabalho jornalístico, fundamental para os cidadãos e a própria democracia."

Após as recentes polêmicas envolvendo Bolsonaro nas redes sociais – que incluem também a publicação de um vídeo obsceno por parte do presidente durante o Carnaval –, o governo decidiu escalar um militar para coordenar as redes sociais institucionais do Planalto.

O coronel Didio Pereira de Campos, ex-chefe da assessoria de imprensa do Exército, foi nomeado para comandar uma nova estrutura chamada Comunicação Global, que fará o monitoramento das mídias sociais, até então subordinado à secretaria de imprensa. Ele não deve cuidar, contudo, das contas pessoais de Bolsonaro.

A nomeação do militar foi publicada nesta segunda-feira no Diário Oficial da União para o cargo de diretor do Departamento de Publicidade da Secretaria de Publicidade e Promoção da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom).

EK/ots