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Ataques ao Irã danificam patrimônios culturais seculares

14 de março de 2026

Detritos de bombardeios em cidades iranianas atingem palácios, mesquitas e sítios tombados pela Unesco. Entidade divulga coordenadas para reduzir riscos.

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Palácio de Golestan danificado
O Palácio de Golestan, Patrimônio Mundial da Unesco, sofreu danos causados por ataques militares dos EUA e de Israel em 2 de marçoFoto: Majid Asgaripour/WANA/REUTERS

Marcos históricos protegidos e considerados patrimônios culturais da humanidade estão ameaçados pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Até o momento, os ataque já danificaram uma mesquita e três palácios tombados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), além de outros sítios de relevância nacional.

A Unesco afirmou que "comunicou a todas as partes envolvidas as coordenadas geográficas dos locais da Lista do Patrimônio Mundial, bem como daqueles de importância nacional, para evitar qualquer dano potencial".

A disposição das coordenadas não impediu que o patrimônio histórico fosse atingido. Os danos mais graves ocorreram nos centenários Palácio de Goletan e Palácio Chehel Sotoun, além da Mesquita Jameh, datada do século 8.

"A Unesco continua monitorando de perto a situação do patrimônio cultural no país e em toda a região, com o objetivo de garantir sua proteção", acrescentou a organização em uma nota.

Veja os locais danificados até o momento. 

Destruição no Palácio de Golestan
Ao menos quatro patrimônios da Unesco foram atingidos, como o Palácio de GolestanFoto: ISNA/AP Photo/picture alliance

Palácio de Golestan, Teerã

Um dos monumentos mais antigos da capital iraniana e o único Patrimônio Mundial da Unesco em Teerã, o Palácio de Golestan é um complexo de oito edifícios palacianos construído inicialmente no século 16 e revitalizado à sua forma atual no século 19.

A ONU confirmou que o Palácio de Golestan sofreu danos após ser atingido por destroços de um ataque com mísseis ocorrido em 2 de março na vizinha Praça Arag.

Os estragos incluem tetos espelhados estilhaçados, arcadas quebradas, janelas destruídas e detritos dentro dos salões.

O Palácio Chehel Sotoun
O Palácio Chehel Sotoun remonta ao século 17. (Imagem de arquivo, 09/09/2024)Foto: Mustafa Noori/Middle East Images/picture alliance

Palácio Chehel Sotoun, Isfahan

Conhecido por seus afrescos meticulosamente detalhados, o Palácio Chehel Sotoun é um dos marcos históricos mais famosos da cidade de Isfahan, localizada a cerca de 450 quilômetros ao sul de Teerã.

O pavilhão do século 17 faz parte de outro Patrimônio Mundial da Unesco, os Jardins Persas. O palácio era usado para recepções e cerimônias imperiais durante o império safávida.

Uma grande piscina retangular central, localizada bem em frente à entrada do palácio, contribui para o nome do famoso marco. Chehel Sotoun significa "40 colunas", referindo-se às 20 colunas de madeira do pavilhão, que, quando refletidas na água, parecem dobrar de número.

Interior do palácio Chehel Sotun
Relatórios confirmaram os danos causados no interior do palácio Chehel Sotun, destacando azulejos quebrados ou danificadosFoto: Morteza Nikoubazl/NurPhoto/picture alliance

A Unesco confirma que vários elementos do palácio foram danificados durante ataques a um prédio governamental adjacente, próximo à praça pública central da cidade, em 10 de março.

A lista de itens danificados inclui azulejos quebrados, murais caídos, janelas e espelhos safávidas estilhaçados e afrescos rachados.

Masjed-e Jame, ou Mesquita Jameh de Isfahan

Destroços resultantes de bombardeios também causaram danos à estrutura, aos azulejos e aos elementos decorativos da Masjed-e Jameh, a mais antiga mesquita preservada do Irã, outro Patrimônio Mundial da Unesco em Isfahan.

Segundo a entidade, "o monumento ilustra uma sequência de estilos arquitetônicos e decorativos de diferentes períodos da arquitetura islâmica iraniana, abrangendo 12 séculos".

O pátio da Mesquita Jameh de Isfahan
O pátio da Mesquita Jameh de Isfahan, em 2024Foto: Morteza Aminoroayayi/Middle East Images/AFP/Getty Images

Palácio Ali Qapu, Isfahan

Devido à sua importância cultural e histórica, o palácio real de Ali Qapu também foi incluído na lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1979.

O local também foi afetado pelos ataques a Isfahan: janelas e portas foram quebradas, bem como azulejos deslocados.

O palácio está localizado no lado oeste da Praça Naqsh-e Jahan, um centro cultural desenvolvido sob o reinado de Xá Abbas I, que governou de 1588 a 1629. O complexo monumental de mesquitas, palácios e mercados tradicionais é reconhecido como uma obra-prima da arquitetura safávida. A praça é apelidada de Nesf-e Jahan, "metade do mundo".

O prédio da Prefeitura na praça parece ter sido o alvo principal do ataque que atingiu o marco histórico.

O palácio de Ali Qapu Palast
O palácio Ali Qapu, obra-prima da arquitetura safávidaFoto: Robert Harding/picture alliance

Sítios pré-históricos do Vale de Khorramabad, Província de Lorestan

A Unesco confirma que edifícios próximos a outro Patrimônio Mundial também foram danificados pelo resultado de bombardeios que atingiram a cidade de Khorramabad.

Na região está o Vale de Khorramabad, composto por cinco cavernas e um abrigo rochoso, que apresenta evidências de ocupação humana que remontam a 63 mil anos. Ele foi protegido pela agência cultural da ONU em 2025.

Na mesma região fica a cidadela de Falak-ol-Aflak, ou Castelo de Shapur Khast, uma gigantesca fortaleza construída no início do século 3, durante a era sassânida.

Detritos no Palácio Chehel Sotoun
Detritos no Palácio Chehel Sotoun, em 9 de março de 2026Foto: SOCIAL MEDIA/REUTERS

Segundo o Ministério da Cultura e do Turismo do Irã, o local sofreu danos graves após um ataque direcionado a edifícios governamentais que acabou atingindo a área interna da cidadela. A explosão comprometeu os museus de arqueologia e antropologia do complexo, embora a estrutura principal da fortaleza tenha permanecido intacta.

Cinco funcionários e membros da equipe de proteção do patrimônio ficaram feridos, diz a pasta.

O "Escudo Azul"

Em uma tentativa de proteger marcos históricos, as autoridades no Irã têm hasteado escudos azuis e brancos no topo de edifícios por todo o país.

O Escudo Azul é um emblema criado durante a Convenção de Haia de 1954 para proteger bens culturais durante conflitos.

Explosão próxima à Praça Naqsh-e Jahan
Explosões próximas à Praça Naqsh-e Jahan atingiram marcos históricosFoto: Iranian Supreme Leader's Office/ZUMA/picture alliance

A organização Blue Shield International também pediu a proteção do patrimônio no Irã: "Embora a proteção da vida e da dignidade humanas deva ser sempre a primeira prioridade em qualquer crise, a proteção das pessoas está intimamente ligada à proteção de seu patrimônio", afirmou Peter Stone, presidente da entidade, em comunicado divulgado em 13 de março.

"O patrimônio cultural é mais do que um registro do passado; é uma âncora tangível da identidade humana e um bem global compartilhado. Ele nos lembra que temos muito mais em comum do que aquilo que nos diferencia", acrescentou Stone.

Os danos relatados até o momento resultaram, em grande parte, de detritos e explosões causadas por ataques que tinham como alvo infraestruturas próximas, e não dos monumentos em si.

Fortaleza Falak ol-Aflak
Fortaleza Falak ol-Aflak foi outro sítio cultural atingidoFoto: Thomas Schulze/ZB/picture alliance

Potenciais "crimes de guerra"?

O presidente dos EUA, Donald Trump, já havia ameaçado atacar locais culturais do Irã em janeiro de 2020.

Ataques militares contra marcos históricos são considerados crimes de guerra segundo o direito internacional. Os Estados Unidos, Israel e o Irã assinaram convenções para proteger o patrimônio cultural, inclusive durante conflitos.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, criticou o que chamou de "regras de combate estúpidas" – as convenções e leis destinadas a reduzir os riscos para civis.

O Comitê dos Estados Unidos do Blue Shield disse estar "perturbado" com a declaração de Hegseth e observou que "o descumprimento do direito internacional humanitário, incluindo inúmeras convenções internacionais das quais os EUA são signatários, bem como do direito internacional consuetudinário, pode levar à prática de crimes de guerra".