China dispara na corrida científica – e que ir além da Terra
24 de junho de 2026
A comissária-chefe da polícia de Hong Kong, Lai Kai-ying, está nas alturas. A cerca de 390 quilômetros acima da Terra, a especialista em cargas úteis, de 43 anos, orbita a Terra 16 vezes por dia, juntamente com dois colegas astronautas da República Popular da China.
A estação espacial tripulada Tiangong ("Palácio celestial"), em órbita há quase cinco anos, é um laboratório único de microgravidade para experimentos científicos destinados a fornecer uma compreensão mais profunda do futuro da humanidade.
Assim como na chamada corrida espacial das décadas de 1950 e 1960, nos dias de hoje a indústria aeroespacial também se configura como uma competição ideológica. Países que já lançam foguetes ao espaço com sucesso demonstram não apenas sua competência técnica, mas também sua força econômica e a superioridade de seus sistemas.
Em vez da União Soviéticanos tempos da Guerra Fria, no século 21 o concorrente dos Estados Unidos é a China comunista. Em 2032, quando a Estação Espacial Internacional (ISS) for desativada, a China será o único país a operar uma estação orbital permanentemente ocupada.
China domina a pesquisa de ponta
A exploração espacial é apenas uma das inúmeras áreas em que a China detém a liderança tecnológica mundial. Isso é comprovado pelo ranking mais recente da renomada revista científica Nature, cujo índice, o Nature Index, compila e avalia todas as publicações científicas.
Na comparação entre países em 2025, a China foi a clara vencedora geral, à frente dos EUA (2º lugar) e da Alemanha (3º lugar). Além disso, nove das dez principais instituições de pesquisa eram chinesas. Apenas a prestigiosa universidade americana de Harvard ficou em terceiro lugar. A Sociedade Max Planck (MPG) da Alemanha – uma instituição de pesquisa básica de referência sediada em Berlim – ocupa a 13ª posição.
"Hoje em dia, é quase irrelevante qual ranking de instituições científicas internacionais você queira consultar. Universidades e instituições de pesquisa na China são líderes em muitas áreas", observou Christina Beck, porta-voz da MPG.
O Nature Index mostra que as instituições de pesquisa chinesas são, de maneira incontestável, líderes nas disciplinas de ciências naturais, como biologia, química e física, além de outras ciências aplicadas, ficando atrás das instituições americanas somente nas áreas de ciências da saúde e ciências sociais.
Investimentos substanciais garantem o sucesso
Essa ascensão vem ocorrendo de forma contínua ao longo das últimas duas décadas, afirmou o Dr. Richard Heidler, diretor de Gestão da Informação da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG) – a maior organização de financiamento de pesquisa da Alemanha.
"No início dos anos 2000, houve sobretudo um aumento significativo no volume de publicações, enquanto, há cerca de dez anos, análises bibliométricas passaram a mostrar também um crescimento em indicadores de impacto, como a proporção e o número de publicações altamente citadas", explicou Heidler. Ou seja, a China não apenas publica mais, como também vem se tornando cada vez mais influente e visível.
Essa ascensão se baseia em um processo de desenvolvimento de longo prazo, acrescenta Beck, da Sociedade Max Planck. "O fator decisivo foi o apoio financeiro sistemático e de longo prazo às instituições científicas e universidades na China, particularmente por meio da formação internacional de pesquisadores e investimentos substanciais em infraestruturas de pesquisa de grande escala."
A liderança em Pequim reconhece há muito tempo que a tecnologia é a chave para o sucesso. O 15º Plano Quinquenal para o crescimento econômico até 2030 prevê um "aumento na eficiência do sistema de inovação". A China visa fortalecer de forma abrangente suas capacidades de inovação independente e promover uma integração mais estreita das inovações científicas e tecnológicas com a indústria. O impulso resultante para o crescimento é chamado de "novas forças produtivas".
O novo plano quinquenal identifica oito temas-chave para o futuro: inteligência artificial (IA), tecnologia quântica, energia de fusão atômica controlável, ciências da vida e biotecnologia, pesquisa cerebral, prevenção de doenças graves e produtos farmacêuticos, pesquisa em águas profundas e polares – além do chamado deep space, o espaço profundo.
Ideologia domina a cooperação em pesquisa
China e EUA estão envolvidos em uma acirrada competição por uma missão lunar moderna. Pequim pretende estar pronta até 2030. Resta saber se a agência espacial americana Nasa conseguirá concluir com sucesso sua missão Artemis, conforme o planejado, até 2028. A entrega do módulo lunar e de uma nova geração de trajes espaciais já está significativamente atrasada.
A China também pretende estabelecer uma colônia permanente na Lua e lançar expedições ao espaço profundo a partir dali. Astronautas chineses serão alocados permanentemente na superfície lunar a médio prazo. Os chineses foram os únicos a conseguirem coletar uma amostra de rocha do lado oculto da Lua usando um módulo lunar, que será usada para produzir materiais de construção semelhantes às rochas lunares.
Os avanços tecnológicos, porém, são apenas uma parte da ambiciosa estratégia geral. "A tecnologia pode ser usada como uma ferramenta para criar esferas de influência transfronteiriças", escreveu Daniel Voelsen, do think tank Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), com sede em Berlim, em seu estudo mais recente.
"O objetivo é exportar o máximo possível graças ao domínio do mercado internacional e explorar os efeitos econômicos de escala associadas, sem abrir mão de uma vantagem militar ou econômica decisiva. Para países como os EUA e a China, isso está associado ao desejo de também influenciar as políticas de outras nações por meio do domínio tecnológico." Na teoria econômica, efeitos de escala significam: quanto mais se produz, menor o custo.
Limitações políticas
Assim, mesmo o espaço no século 21 não está livre de ideologia. A Nasa está proibida por lei federal, a chamada Emenda Wolf de 2011, de cooperar com a agência espacial chinesa. A Agência Espacial Europeia (ESA) também evita cooperar com a China por causa da aliança transatlântica, embora os astronautas da ESA já tenham aprendido algum vocabulário chinês e realizado exercícios conjuntos com taikonautas chineses. O Ministério Federal da Pesquisa, Tecnologia e Espaço, que também é responsável pela área de pesquisa, estabelece diretrizes políticas para projetos de cooperação científica com a China.
"Limites claros são estabelecidos em áreas sensíveis", assegura o Ministério. "Isso se aplica, por exemplo, a colaborações em temas que também podem servir a fins militares (uso duplo) ou a colaborações na área de inteligência artificial, que podem ser mal utilizadas para fins de vigilância e violações de direitos humanos." A China vem se tornando cada vez mais uma concorrente e rival sistêmica. Riscos e benefícios devem ser ponderados na cooperação científica.
"Queremos manter a cooperação em áreas de pesquisa onde não haja problema de uso duplo", resumiu Beck, da Sociedade Max Planck. Um exemplo é o chamado telescópio FAST, o maior radiotelescópio do mundo, localizado na província de Guizhou, no sudoeste da China. Ele tem um diâmetro de 500 metros, aproximadamente o comprimento de cinco campos de futebol. "Essa colaboração nos dá acesso a uma infraestrutura única."
Ingrid Krüßmann, do Centro Sino-Alemão de Fomento à Pesquisa da DFG, argumenta em linhas semelhantes. "A DFG está comprometida em criar a maior segurança jurídica possível para os pesquisadores na Alemanha, para que projetos de colaboração de excelência com parceiros chineses continuem, em princípio, sendo viáveis."
Cooperação cautelosa
Ao mesmo tempo, os desenvolvimentos políticos internos na China, a intensificação da situação geopolítica e, sobretudo, a estreita interrelação entre a pesquisa civil e militar representam novos desafios para as organizações científicas alemãs em suas colaborações com parceiros chineses, prosseguiu Beck. Segundo o pesquisador, a Sociedade Max Planck pretende moldar sua cooperação com parceiros na China de maneira "informada, responsável e estratégica".
Enquanto isso, a China continua a avançar com sua agenda de política externa utilizando meios tecnológicos. Após a astronauta de Hong Kong, Lai, que gerou grande entusiasmo na antiga colônia britânica, um astronauta estrangeiro, pela primeira vez, passará seis meses na estação espacial chinesa a partir de outubro. Dois paquistaneses já estão treinando para a missão Shenzhou 24 ("Nave divina-24"). A mensagem vinda da órbita da Terra é clara: a formação de blocos políticos também ocorre no vácuo do espaço. O Paquistão é um aliado próximo do governo de Pequim.