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EducaçãoBrasil

O custo da mentalidade utilitarista na educação

Brasilien São Paulo | Studentin der Universidade de São Paulo
Lívia Vitória dos Santos
26 de fevereiro de 2026

"Se não uso na vida, para que estudar isso?", se perguntam alguns. Mas matérias tradicionais ajudam a formar o senso crítico. Utilitarismo desvaloriza centros educacionais e transforma educação em mercadoria.

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Homem visto por trás lendo livro ou caderno, com professor ao quadro negro e alunos na sala de aula ao fundo
"Alterar para visão focada só no mercado profissional é renunciar ao objetivo primário da educação: a potencialização de seres humanos"Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

"Não faz sentido eu estudar fórmula de Bhaskara e equação de segundo grau, porque o que isso vai me ajudar na minha vida? A longo prazo não te dá retorno financeiro. Como que eu vou ganhar dinheiro com isso?"

Embora a maioria dos professores já tenham sido confrontados com a pergunta canônica "se não vou usar na minha vida, para que vou estudar isso?", a citação acima não foi retirada de uma sala de aula, mas de um corte de podcast que viralizou em 2024.

A fala, dita por um jovem de 14 anos, chama a atenção justamente por revelar a mentalidade utilitarista enraizada na nossa sociedade desde a adolescência. Esse discurso desvaloriza os centros educacionais e transforma a educação em mercadoria, uma vez que apenas aquilo que tem uma utilidade prática é legitimado e valorizado: uma lógica prejudicial para a formação intelectual dos cidadãos brasileiros.

Nosso modelo de educação está em ruínas?

O sistema educacional vigente no Brasil foi originado a partir da paideia, modelo de educação da Grécia Antiga. Ao ensinar sobre literatura, ginástica, retórica, matemática e ciências, os gregos focavam na formação integral do cidadão, ou seja, um processo contínuo que aprimorava as características físicas e intelectuais para a vida na pólis.

Foi partindo dessa ideia, com algumas adaptações a cada época, que a centralidade nas matérias tradicionais se perpetuou até os dias de hoje. Ou seja, lecionar português, matemática, geografia, ciências da natureza e história não é um método retrógrado, mas a base estruturante do conhecimento.

É importante reconhecer que atualizações na educação poderiam ser interessantes, como a proposta de flexibilização de escolhas sugerida pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Entretanto, a escola ainda precisa ser um espaço de formação cidadã e não apenas profissional.

Para quê? x por quê?: um conflito de valores

Alterar a base estruturante do conhecimento para uma visão focada apenas no mercado profissional é renunciar ao objetivo primário da educação: a potencialização de seres humanos. Quando digo isso, me refiro aos valores que estarão sendo cultivados na nossa sociedade.

É provável que, em um dia comum, você nunca tenha usado a fórmula de Bhaskara ou a equação de segundo grau. Porém, é através desse e outros conhecimentos fornecidos pelas matérias tradicionais que pensamento crítico, raciocínio lógico, capacidade de abstração e análise do mundo são estruturados no intelecto humano.

Ao invés de manter a visão utilitarista de "para quê?”, é necessário fomentar uma mentalidade curiosa, investigativa e crítica do porquê cada coisa acontece no mundo. Isso propiciaria não só uma sociedade com valores mais humanos e menos automatizados, mas também aumentaria a autonomia intelectual e a capacidade de resolução de problemas nos indivíduos.

Custo da visão utilitarista

Essa mentalidade utilitarista na educação, além de ser uma negligência com a formação humana, é também reduzir o processo de aprendizagem a uma linha de produção. Ao priorizar a utilidade do conhecimento em detrimento dos valores anteriormente citados, um ciclo de alienação e esgotamento mental se perpetua. O resultado: síndrome de burnout. Os jovens, ao perseguirem apenas o status e o retorno imediato, veem-se despersonalizados e presos em carreiras vazias de propósito, produzindo uma sociedade em que, não só a educação, mas a própria vida se torna uma mercadoria.

Romper com esse ciclo, através da mudança de mentalidade, é construir uma sociedade com valores mais humanos.

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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por Lívia Vitória dos Santos, de 18 anos, estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP), e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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A coluna semanal é escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade.