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Custos e interesses nacionais travam plano militar europeu

Srinivas Mazumdaru
23 de junho de 2026

Países da Europa vêm tentando ampliar e integrar suas capacidades militares, mas atual modelo de produção e aquisição de defesa dificulta avanço, dizem especialistas.

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Tanques Leopard 2
Região quer fortalecer suas capacidades militar e diminuir dependência dos EUAFoto: Peter Steffen/dpa/picture alliance

Após o fim da Guerra Fria, em 1989, líderes europeus decidiram pegar mais leve com seus gastos com defesa, afinal não havia mais a ameaça iminente de um conflito na região. Ao longo das décadas seguintes, as forças armadas dos países europeus encolheram, e os estoques de equipamentos minguaram, o que resultou em uma redução da capacidade de combate.

A guerra na Ucrânia, iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022, no entanto, forçou o continente a voltar o olhar – e o orçamento – para seu aparato militar.

A crescente incerteza sobre os compromissos de segurança dos Estados Unidos sob a gestão Donald Trump acelerou essa percepção de que é preciso fortalecer as defesas na região e depender menos de outros atores.

Para ampliar os gastos militares, a Alemanha chegou a alterar sua Constituição, em 2025, para retirar os limites de endividamento na área de defesa, o chamado "freio da dívida".

No ano passado, os 29 membros europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) gastaram, juntos, 559 bilhões de dólares (cerca de R$ 3 trilhões) em defesa, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), um centro de referência em estudos sobre temas ligados à defesa. Em 2021, ano anterior ao início da guerra na Ucrânia, esse valor foi de 342 bilhões de dólares (cerca de R$ 1,8 trilhão).

A Alemanha, sozinha, desembolsou 114 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 586,4 bilhões) com suas Forças Armadas no ano passado, uma alta de 24% em relação ao ano anterior.

Fortalecimento da indústria de defesa

A Europa também tem buscado fortalecer sua indústria de defesa para garantir autossuficiência e segurança na cadeia de suprimentos de sistemas de armamento críticos. Para isso, vários países têm unido esforços em projetos militares de ponta, como o desenvolvimento de caças de nova geração.

Per Erik Solli, analista sênior de defesa do Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais (Nupi), destacou iniciativas importantes no setor de aviação militar europeu, como o programa GCAP, conduzido conjuntamente por Reino Unido, Itália e Japão, e o ecossistema em desenvolvimento na Suécia em torno do caça Gripen e de drones.

Fabricantes europeus de armas como Rheinmetall, Thales e Leonardo têm se beneficiado do aumento dos gastos militares. Mas muitos deles enfrentam dificuldades para acelerar a produção e atender à demanda crescente.

Os resultados considerados fracos de receita e lucro no primeiro trimestre de 2026 levantaram preocupações entre investidores e dúvidas sobre a capacidade dessas empresas de converter pedidos em ganhos efetivos.

Fragmentação e interesses nacionais divergentes

O setor de defesa europeu também enfrenta desafios estruturais, como desvantagem de escala em relação a empresas dos EUA e fragmentação em vários países, o que leva a redundâncias e problemas de coordenação.

Iniciativas conjuntas frequentemente são mais arrastadas, devido a divergências de prioridades nacionais. O projeto franco-alemão do sistema de combate aéreo do futuro (FCAS) é um exemplo disso. A iniciativa foi recentemente cancelada por divergências entre a francesa Dassault Aviation e a alemã Airbus Defence and Space, um duro golpe para os esforços europeus de maior cooperação na área.

O programa FCAS previa desenvolver um sistema abrangente de aviação militar de nova geração, com aeronaves tripuladas, drones e uma "nuvem de combate" para conectividade de informações, disse Solli. Embora as empresas não desenvolvam mais o avião tripulado em conjunto, o destino dos drones e da nuvem de combate ainda é incerto.

Também é incerto o futuro de outro projeto franco-alemão, há muito adiado, para desenvolver novos tanques.

Ucranianos ensinam guerra ao resto da Europa

Projetos multinacionais entre países europeus funcionam quando governos alinham prioridades e coordenam ações, afirmou Emil Archambault, especialista em política de segurança e defesa do Conselho Alemão de Relações Exteriores. Ele citou o avião de transporte militar Airbus A400M Atlas como exemplo de programa de defesa europeu bem-sucedido.

Mas, quando a coordenação não é bem feita, ocorre fragmentação, ressaltou, apontando que Alemanha, França e Polônia seguem caminhos diferentes para adquirir sistemas de artilharia de foguetes terrestres semelhantes ao modelo americano HIMARS. "Não é um problema da indústria de defesa. É um problema de coordenação entre Estados", afirmou.

Aquisições são gargalo

A aquisição de equipamentos de defesa continua sendo um grande gargalo, dificultando inovação, colaboração e rapidez nas compras, dizem especialistas. "O ponto fraco da Europa não é mais financeiro, é institucional", concluiu um relatório recente do Nupi.

Os autores argumentam que as compras de defesa nos países europeus são conduzidas por "protecionismo nacional, aversão ao risco e tomada de decisões lenta e baseada em consenso – exatamente o oposto do que é necessário agora". Eles defendem a formação de coalizões entre parceiros com interesses alinhados para garantir cooperação, rapidez e flexibilidade.

Archambault tem visão semelhante. Segundo ele, a União Europeia desempenha papel importante na padronização, mas coordenar compras entre muitos países continua sendo um desafio.

Uma saída é criar "sistemas minilaterais" – três ou quatro países alinhados que unam forças para desenvolver e adquirir sistemas de armas, abrindo-os depois a outros – o que traria flexibilidade e ganhos de escala e padronização.

Especialistas também apontam forte tendência de favorecer grandes fabricantes nacionais nas aquisições. Em muitos países europeus, as compras de defesa são "direcionadas principalmente às dez maiores empresas", segundo relatório publicado em março de 2026 pelo think tank econômico Bruegel, de Bruxelas.

"As dez maiores contratadas respondem por entre 67% e 90% das aquisições militares na Alemanha, na Polônia e no Reino Unido", diz o estudo. O relatório destacou a necessidade de incorporar startups e pequenas empresas para impulsionar a inovação e atender às demandas militares modernas.

Defesa pode impulsionar economia?

Também cresce a preocupação sobre por quanto tempo os governos europeus conseguirão sustentar altos gastos militares, diante da pressão crescente sobre as contas públicas e do baixo crescimento econômico persistente.

Isso já afetou o valor de mercado de grandes empresas do setor: o índice Stoxx Europe Targeted Defense caiu mais de 15% desde janeiro, segundo o jornal Financial Times.

Escolher entre investir em saúde e bem-estar social ou em defesa "não é uma escolha simples", afirma Archambault.

Muitos governos europeus veem os gastos militares não apenas como política de segurança, mas também como forma de estimular a atividade econômica e gerar empregos. Países como Alemanha e Reino Unido "esperam criar e sustentar a indústria pesada por meio dos gastos em defesa e, posteriormente, por meio de exportações", pontuou.

Há, porém, variações regionais nos níveis de gastos militares e na percepção de ameaça. Para países próximos à Rússia, a defesa segue como prioridade máxima; em outros, concorre com áreas como bem-estar social.

Ainda assim, será necessário ampliar gastos em defesa "para proteger infraestrutura crítica e bens sociais contra ameaças como incursões de drones, sabotagem e ataques híbridos", afirmou o especialista. "Isso é necessário para todos os países europeus."