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Diretora da Berlinale sob críticas por polêmica sobre Gaza

26 de fevereiro de 2026

Segundo informações do jornal "Bild", o ministro alemão da Cultura pretende afastar a diretora do festival. Acusação de um cineasta palestino de que a Alemanha apoia um genocídio gerou forte reação política.

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Cineasta Abdallah Alkhatib usa lenço tradicional palestino e discursa ao lado de bandeira palestina na Berlinale
Usando lenço tradicional palestino, cineasta Abdallah Alkhatib criticou o governo alemão no encerramento da BerlinaleFoto: Christoph Soeder/dpa/picture alliance

O ministro alemão da Cultura, Wolfram Weimer, cogita demitir a diretora do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Tricia Tuttle, informou o jornal alemão Bild nesta quarta-feira (25/02), citando funcionários da organização responsável pela gestão da Berlinale.

O Bild relatou ter obtido a confirmação do Ministério da Cultura de que Weimer convocará uma reunião extraordinária nesta quinta-feira para tratar da questão, embora não haja anúncio oficial sobre a demissão de Tuttle.

Segundo o jornal, Weimer e Tuttle teriam concordado que ela não teria condições de permanecer à frente do festival, após a reação política gerada pelos discursos na cerimônia de premiação, em 22 de fevereiro.

O Bild também menciona uma fotografia que supostamente compromete a credibilidade de Tuttle aos olhos do governo alemão. O jornal descreve a foto, de 15 de fevereiro, da diretora do festival posando com a equipe do filme Chronicles From a Siege ("Crônicas de um cerco") dirigido pelo cineasta palestino-sírio Abdallah Alkhatib, como um "escândalo" e uma "foto de propaganda demonstrativa".

Na imagem, membros da equipe do filme usam um kufiya – o lenço tradicional palestino – e uma pessoa segura uma bandeira palestina. A própria diretora não usa nenhum símbolo.

Este foi o segundo ano de Tuttle à frente do Festival de Cinema de Berlim, que lida com críticas e acusações de antissemitismo desde sua edição de 2024.

Nomes importantes do cinema brasileiro, como os diretores Kleber Mendonça Filho e Karim Ainouz, assinaram uma carta em apoio à diretora da Berlinale, após a notícia de que o governo alemão estaria planejando destituí-la do cargo. "Se uma reunião extraordinária for convocada para decidir o futuro da direção do festival, estará em jogo mais do que uma simples nomeação. O que está em questão é a relação entre a liberdade artística e a independência institucional", diz o documento.

"Ficar fora da política"

Os vencedores dos prêmios da Berlinale deste ano e seus discursos de agradecimento revelaram o difícil equilíbrio que o festival tenta manter.

Ao encerrar um festival de dez dias que teve início com uma enxurrada de críticas nas redes sociais em torno da declaração do presidente do júri, Wim Wenders, de que os cineastas deveriam "ficar fora da política", os filmes vencedores dos principais prêmios, Yellow Letters ("Cartas amarelas"), de Ilker Çatak, e Salvation ("Salvação"), de Emin Alper, reforçaram a percepção de que a Berlinale continua sendo o mais político dos três grandes festivais de cinema da Europa.

Tricia Tuttle
"O que fazemos, o que dizemos, depende inteiramente de nós. Não recebemos nenhuma diretriz", disse Tricia TuttleFoto: Liesa Johannssen/REUTERS

Apesar das acusações de "censura" contra artistas que se manifestam sobre Gaza, formuladas numa carta aberta ao festival, vários vencedores de prêmios usaram seus discursos de agradecimento este ano para fazer declarações políticas sobre o assunto.

Ministro deixa evento de premiação

Um dos vencedores do prêmio foi particularmente crítico em relação ao governo alemão.

O diretor sírio-palestino Abdallah Alkhatib, que recebeu o prêmio de melhor filme de estreia com Chronicles From a Siege, afirmou que, como refugiado na Alemanha, havia sido advertido a não ultrapassar "linhas vermelhas" em seu discurso. Mesmo assim, disse ele — segundo o intérprete simultâneo: "Eles são cúmplices do genocídio israelense em Gaza. E acredito que sejam inteligentes o suficiente para reconhecer essa verdade. Mas optam por ignorá-la."

O Ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider – o único membro do governo alemão presente na cerimônia –, abandonou a sessão de premiação durante o discurso de Alkhatib, declarando posteriormente que as observações eram "inaceitáveis".

Weimer rejeitou a acusação de que a Alemanha seria cúmplice de um genocídio na Faixa de Gaza. "Essas falsas alegações são maliciosas e envenenam o debate político. Elas destroem a apreciação da arte cinematográfica na Berlinale", disse Weimer ao jornal Tagesspiegel.

A Alemanha é vista como uma das maiores apoiadoras de Israel e seu segundo maior fornecedor de armas. Esse apoio se deve sobretudo à responsabilidade histórica do país pelo Holocausto.

Especialistas em direitos humanos e uma comissão independente de inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU veem indícios de genocídio por parte de Israel na Faixa de Gaza. Israel nega veementemente essa acusação e descreve suas ações como legítima defesa após os ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Tuttle: "Não recebemos nenhuma instrução"

O governo alemão financia cerca de 40% da Berlinale. Diante dos cortes significativos no orçamento cultural, o festival está sob pressão para garantir a continuidade do apoio estatal.

Tuttle, no entanto, enfatizou que isso não restringe a liberdade artística do evento. "Há um controle estratégico, no sentido de que eu presto contas sobre as questões financeiras", disse ela à DW. "Mas o que fazemos, o que dizemos, é inteiramente decisão nossa. Não recebemos nenhum comunicado, nenhuma instrução."

A carta aberta à Berlinale argumenta que o festival já se posicionou politicamente no passado, por exemplo contra a guerra na Ucrânia ou em apoio aos protestos iranianos, mas não abordou oficialmente a situação em Gaza.

Tuttle diz que o tema é muito polarizador. "Em qualquer conversa, é preciso levar em conta a complexidade da situação."

Pressão de muitos lados

A Berlinale também é observada de perto pelas autoridades israelenses e por críticos culturais.

O embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor, elogiou Schneider por deixar a cerimônia de premiação: "Respeito ao ministro Schneider e à sua clareza moral", disse Prosor ao Bild neste domingo, acrescentando que a Berlinale corria o risco de comprometer sua boa reputação se "servisse de plataforma para quem odeia Israel".

Um blogueiro do jornal israelense Times of Israel afirmou que "a elite cultural alemã está brincando com fogo", enquanto um comentarista do jornal judaico alemão Jüdische Allgemeine Zeitung descreveu o discurso de Alkhatib como "incitação".

Do outro lado do debate, a campanha que exigia um posicionamento oficial da Berlinale sobre Gaza também pressionou os cineastas. Durante entrevistas coletivas, eles foram repetidamente questionados sobre suas posições políticas.

Isso não apenas levou à declaração controversa de Wenders sobre "ficar fora da política", como também fez com que muitos outros fossem questionados sobre assuntos não relacionados aos seus filmes.

"Não é bom para os filmes quando, no final, o foco está apenas nas controvérsias e não nos próprios filmes", diz Tuttle. As perguntas tendenciosas prejudicaram não só o festival, mas também os artistas convidados. "As pessoas são forçadas a falar. Se não falam, é considerado uma afronta. Se falam e não dizem o que quem pergunta quer ouvir, isso também é uma afronta. E se dizem algo errado, é um grande problema."

Cineasta alemão Wim Wenders discursa na Berlinale
Diretor alemão Wim Wenders, presidente do júri, gerou polêmica ao afirmar que cineastas deveriam "ficar fora da política"Foto: Axel Schmidt/REUTERS

O vídeo viral de Wenders também levou a escritora indiana Arundhati Roy a boicotar o festival. Ela afirmou que a exigência de que os cineastas se mantivessem afastados da política era "uma tentativa de silenciar um debate sobre um crime contra a humanidade – enquanto ele se desenrola em tempo real diante de nossos olhos, e artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para impedi-lo".

"Os artistas são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão como bem entenderem", disse Tuttle, referindo-se à polêmica nas redes sociais. Eles "não devem ser obrigados a comentar todos os debates abrangentes sobre as práticas passadas ou presentes de um festival sobre o qual não têm controle".

Urso de ouro para Yellow Letters

Ilker Çatak, cujo filme Yellow Letters ganhou o Urso de Ouro, fez um dos discursos mais impactantes da noite. Ele argumentou que o foco não deveria estar em citações nas redes sociais que colocam cineastas uns contra os outros: "Não somos inimigos. Somos aliados." A verdadeira ameaça, disse ele, são "os autocratas, os partidos de direita e os niilistas do nosso tempo. Não vamos lutar uns contra os outros. Vamos lutar contra eles."

Yellow Letters conta a história de dois artistas que perdem seus empregos num teatro estatal devido às suas opiniões políticas. O filme em turco usa Berlim e Hamburgo como pano de fundo para Ancara e Istambul. O drama político permanece deliberadamente vago: os nomes dos políticos não são mencionados nem o filme explica em detalhes o que exatamente levou à perda dos empregos.

Alguns críticos consideraram essa ambiguidade problemática, enquanto outros a viram como um ponto forte, especialmente porque o filme foi rodado na Alemanha. Isso serve como um lembrete de que a censura a artistas pode acontecer em qualquer lugar, não apenas na Turquia.

Enquanto a Berlinale navega pelos debates polarizados de nossa época, permanece a esperança de que ela se mantenha fiel à sua missão de dar espaço a vozes artísticas diversas – até mesmo controversas.