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"Mancha fria" no Atlântico intriga especialistas sobre clima

13 de junho de 2026

Área no Atlântico Norte desafia tendência global, esfriando há 150 anos, enquanto o resto do planeta aquece. Novo estudo fornece possível explicação para o fenômeno.

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"Mancha fria" em visualização de dados das temperaturas médias globais
Por que uma região do Atlântico está esfriando enquanto o restante do planeta se aquece?Foto: NASA Scientific Visualization Studio/Goddard Space Flight Center

Ao sudeste da Groenlândia, no meio do Atlântico Norte, existe uma anomalia que há décadas intriga os cientistas.

Em contraste com a tendência geral de aquecimento global, uma vasta região oceânica tem registrado uma queda de temperatura próxima de 1 °C nos últimos 150 anos. Os pesquisadores a conhecem como o "buraco de aquecimento", a "mancha fria" ou simplesmente "bolha fria", e há anos tentam explicar o que a provoca.

Uma das hipóteses aponta para a atmosfera. Segundo um estudo citado pela revista New Scientist, o rápido aquecimento do Ártico teria deslocado a corrente para o norte, alterando os padrões de vento sobre o Atlântico e favorecendo maior evaporação e perda de calor na superfície do oceano.

No entanto, outra explicação vem ganhando força: a de que a origem desse fenômeno esteja sob as águas.

A Amoc em foco

Um novo estudo publicado na Geophysical Research Letters reforça a hipótese de que a Amoc pode estar desempenhando um papel fundamental nesse fenômeno. A Circulação Meridional de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês) é um grande sistema de correntes oceânicas que transporta água quente e salgada para o Atlântico Norte. Lá, ao esfriar, a água se torna mais densa, afunda e inicia um retorno em direção ao sul pelas profundezas do oceano.

Esse sistema desempenha um papel essencial no clima global, pois distribui calor, nutrientes e carbono pelos oceanos e ajuda a manter a Europa Ocidental vários graus mais quente do que seria esperado para sua latitude.

Groenlândia e a água doce

O problema é que o derretimento acelerado da Groenlândia está despejando quantidades crescentes de água doce no Atlântico Norte. Ao reduzir a densidade da água superficial, esse processo dificulta a dinâmica que sustenta a circulação. Assim, a "correia transportadora oceânica" pode estar perdendo força, e alguns cientistas temem que ela esteja se aproximando de um ponto de não retorno.

Para investigar isso, a equipe de Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estudou a mancha fria utilizando reanálises climáticas baseadas em dados coletados por satélites, boias e navios, em vez de depender apenas de modelos.

Os resultados mostraram que o resfriamento vai muito além da superfície, alcançando profundidades próximas de mil metros, segundo a New Scientist. Para os autores, esse padrão é difícil de explicar apenas por mudanças nos ventos ou na nebulosidade. Na interpretação deles, se encaixa melhor com uma redução no transporte lateral de calor associada ao enfraquecimento da Amoc.

"Os ventos e as nuvens explicam apenas uma fração modesta do buraco de aquecimento", afirmou Rahmstorf. "Os dados mostram que, na verdade, ele é causado pelo oceano", acrescentou.

Representação da Terra com correntes marítimas
Amoc é um sistema que tem papel essencial no clima globalFoto: NASA's Scientific Visualization Studio

Rahmstorf também aponta outro possível ponto vulnerável: o chamado giro subpolar, uma enorme espiral de correntes que circunda a mancha fria e desempenha papel essencial no afundamento de águas densas que alimentam a Amoc.

Segundo o pesquisador, se esse sistema atingir um ponto crítico antes da própria circulação atlântica, o noroeste da Europa poderia experimentar um resfriamento rápido mesmo antes de um colapso completo da Amoc.

"Se o giro subpolar ultrapassar esse ponto de inflexão, isso pode provocar impactos severos na Europa Ocidental já na década de 2040", alerta o cientista alemão.

Os autores destacam que seus resultados não significam que um colapso da Amoc seja iminente. Ainda assim, consideram que os achados são compatíveis com a hipótese de que essa circulação vem se enfraquecendo nas últimas décadas – uma mudança que, se confirmada, poderia ter consequências muito mais amplas do que apenas a mancha fria do Atlântico Norte.

Críticas e dúvidas

Nem todos os cientistas estão convencidos. David Thornalley, da University College London, afirmou à New Scientist que o estudo é útil, mas advertiu que "não será a palavra final” sobre a origem da mancha fria.

Neil Fraser, da Associação Escocesa de Ciências Marinhas, destacou ao veículo que os dados ainda são limitados e que outras explicações não podem ser totalmente descartadas, como um possível fortalecimento da corrente norueguesa – um ramo da Amoc que poderia estar transportando calor para fora da região.

"A mancha fria é consistente com um enfraquecimento da Amoc", concluiu Fraser, "mas não é uma prova definitiva”.

O que aconteceria se ela colapsasse?

A cautela dos cientistas não é à toa. Caso a grande circulação atlântica chegasse a colapsar, os impactos poderiam ser sentidos muito além do Atlântico Norte.

A Europa seria uma das regiões mais afetadas, com resfriamento significativo em algumas áreas. Mas os efeitos não se limitariam ao continente europeu. Um estudo citado pela revista Newsweek estima que o enfraquecimento da Amoc pode explicar entre 20% e 50% do aumento dos dias de inundação costeira observado no nordeste dos Estados Unidos desde 2005.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) também alerta que uma Amoc mais fraca pode alterar trajetórias de tempestades e padrões de precipitação na América do Norte, embora a extensão exata dessas mudanças ainda esteja em estudo.

Além disso, esse sistema faz parte de uma rede oceânica muito maior. Como a Amoc transporta calor do Atlântico Sul para o Norte, qualquer mudança significativa em seu funcionamento pode desencadear efeitos climáticos em ambos os hemisférios, embora este estudo não avalie impactos específicos para a América do Sul.

Por enquanto, existem apenas cerca de 22 anos de observações diretas da Amoc, período ainda curto para estabelecer uma tendência definitiva. No entanto, cada novo estudo reforça a possibilidade de que um dos principais reguladores do clima global esteja perdendo força.

O acúmulo de sinais de alerta está se tornando cada vez mais difícil de ignorar.