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Reciclagem química: avanço ou embuste?

Martin Kuebler
31 de maio de 2026

A cidade americana de Houston está no centro de uma nova tecnologia que promete transformar resíduos plásticos até então não recicláveis. Ativistas, no entanto, denunciam manobra do setor petroquímico.

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Pilha de plásticos de uso único
Será que uma técnica avançada consegue reciclar esse tipo de plástico?Foto: James Arthur Gekiere/BELGA/picture alliance

Em uma sala bem iluminada em Houston, no Texas, o ativista ambiental Malachi Key examina uma pilha de lixo. Ele pega uma embalagem usada de salada de frango que, assim como os demais resíduos no monte, está sendo destinada à reciclagem — e coloca um dispositivo de rastreamento dentro dela.

Em 2022, a cidade lançou um programa que prometia dar uma nova vida a até 90% de todos os plásticos, inclusive aqueles de difícil reciclagem. Trata-se de uma promessa, no mínimo, ousada,  considerando que a média nos Estados Unidos é inferior a 10%.

Mas, segundo Key, o esquema — uma parceria com líderes da indústria do plástico como ExxonMobil, LyondellBasell e Cyclyx International — é "bom demais para ser verdade". Daí o monitoramento.

Não é a primeira vez que ele e outros ativistas da organização ambiental Air Alliance Houston atuam como investigadores. No último ano e meio, eles registraram 14 casos em que o lixo plástico monitorado foi levado para um local de armazenamento de terceiros e simplesmente abandonado ali.

"O plástico acumulado na verdade não estava sendo reciclado", afirmou Jen Hadayia, diretora-executiva da Air Alliance Houston. "Não é nem de longe o que a cidade de Houston tem dito fazer."

Produção de plástico deve dobrar até 2050

O novo programa prometido pela cidade baseia-se em um processo avançado capaz de tratar plásticos descartáveis não recicláveis, como embalagens de pão, sachês de suco e potes de iogurte. A indústria emergente, que atrai milhões em investimentos nos Estados Unidos e na Europa, afirma que, por meio de calor, enzimas ou solventes, consegue quebrar esses materiais em compostos químicos menores.

Esses compostos são então transformados novamente em seus blocos químicos originais para produzir plásticos reciclados considerados indistinguíveis dos materiais virgens — o que, na prática, permitiria sua reutilização indefinidamente. Diante desse potencial, o Conselho Americano de Química descreve a reciclagem avançada como "um avanço na recuperação de plásticos usados" que pode "ajudar a conduzir a uma economia circular".

Riscos ambientais e à saúde

Apesar da promessa de circularidade, críticos afirmam que a tecnologia não corresponde às expectativas.

Lee Bell, assessor técnico da organização International Pollutants Elimination Network, ressalta que existem "cerca de 14 mil substâncias químicas usadas como aditivos nos plásticos". Segundo ele, mais de um quarto delas é tão perigosa que precisa ser removida e tratada como resíduo, o que representa uma falha no sistema circular.

"Se conseguem separar os polímeros e monômeros desses aditivos e de outros contaminantes, geram enormes fluxos de resíduos perigosos", explicou.

Esse não é o único problema. Veena Singla, cientista de saúde pública associada à Universidade da Califórnia em São Francisco, afirma que as próprias instalações de reciclagem podem representar riscos ambientais e à saúde.

"Nos Estados Unidos, apenas três unidades de reciclagem química geraram mais de 900 toneladas métricas de resíduos perigosos em cerca de três anos", disse, acrescentando que essas instalações podem emitir poluentes atmosféricos associados a doenças respiratórias, câncer e distúrbios do sistema nervoso.

Além disso, apesar da alegação de que a indústria produz apenas novos plásticos para reutilização, Singla afirma que as usinas também produzem combustíveis para queima — o que reduz a quantidade de material reciclado e aumenta a necessidade de fabricar mais plástico virgem.

Canal de Navios de Houston
O Canal de Navegação de Houston serve como centro para mais de 600 plantas petroquímicas.Foto: David J. Phillip/AP Photo/picture alliance

Atualmente, o mundo produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico novo por ano, número que deve dobrar ou até triplicar até 2050. Para Bell, a reciclagem química é em grande parte "um exercício de propaganda destinado a desviar a atenção do aumento da produção de plástico e da poluição ambiental".

Dificuldades para avançar

O Conselho Americano de Química afirma que os Estados Unidos poderiam suportar 150 plantas desse tipo, gerando um impacto econômico anual de 12,9 bilhões de dólares (cerca de R$ 65 bilhões).

Na prática, porém, o avanço é lento. Segundo Bell, havia 11 instalações em operação nos Estados Unidos em 2023. Desde então, quatro foram fechadas, por falência ou por incapacidade de se manterem financeiramente viáveis.

Das unidades ainda ativas, apenas uma está localizada na região de Houston, um polo da indústria de plásticos que abriga centenas de empresas petroquímicas. A instalação pertence à Exxon Mobil, que afirma já ter processado mais de 68 mil toneladas métricas de resíduos plásticos em novos produtos e combustíveis.

Ainda assim, Hadayia classifica a solução como "falsa" para os moradores de Houston, que veem com bons olhos iniciativas empresariais para lidar com o lixo plástico.

Jen Hadayia é uma mulher branca, cabelos curtos e encaracolados, na faixa dos 50 anos
Hayayia, da Air Alliance Houston, classificou a reciclagem química como uma "falsa solução"Foto: Air Alliance Houston

A Exxon Mobil, por sua vez, rebateu, afirmando que ativistas que se prendem a uma "definição restrita" de reciclagem fazem "propaganda" que "prejudica o planeta".

"Solução falsa", dizem ativistas

Embora o setor ainda esteja em estágio inicial, Bell aponta um problema estrutural: é mais caro produzir plástico novo a partir de material reciclado do que fabricar diretamente a partir de matérias-primas fósseis.

"É preciso competir com petroquímicos virgens e plásticos. Quando o preço do petróleo está baixo, isso não é possível", disse.

De volta a Houston, após dois meses de espera, os ativistas constataram que a embalagem de salada com o rastreador ainda não havia sido recolhida — ou seja, continuava sem se aproximar da reciclagem.

A prefeitura de Houston se recusou a comentar, afirmando apenas que coleta resíduos em pontos designados pela cidade. Atualmente, são apenas nove locais em uma cidade com quase 2,5 milhões de habitantes.

Enquanto as empresas envolvidas dizem estar construindo um centro conjunto de triagem, Hadayia defende outra solução:

"Nem sempre tivemos essa dependência de plástico descartável como hoje. Um tempo atrás, não entrávamos no supermercado e encontrávamos frutas já cortadas e embaladas em plástico de uso único", afirmou. "No fim das contas, a verdadeira solução para o problema do plástico é reduzir o uso de descartáveis."

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