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Sequestro de crianças ucranianas vira arma de guerra russa

Daria Nynko
10 de maio de 2026

Em quatro anos, milhares de famílias foram separadas. Na Rússia ou em territórios ocupados, menores são submetidos a adoções forçadas, doutrinação ideológica e militarização.

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Menino de 13 anos abraça a mãe após ser retornado da Rússia à Ucrânia
Só estimados 20% das crianças ucranianas separadas levadas à Rússia ou territórios ocupados voltaram para suas famílias, diz ONUFoto: Valentyn Ogirenko/REUTERS

Após mais de quatro anos de guerra, milhares de crianças ucranianas seguem separadas das suas famílias, após terem sido levadas para a Rússia ou mantidas em territórios ocupados, muitas vezes sem que seus parentes saibam onde estão. Enquanto a Ucrânia tenta localizá-las e trazê-las de volta, investigações apontam que elas são submetidas a adoção forçada, doutrinação ideológica e militarização.

Em março de 2026, uma comissão independente da Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou que crianças são sistematicamente levadas à força para a Rússia ou movidas dentro do território ucraniano ocupado. Os especialistas verificaram que este tinha sido o caso para mais de 1,2 mil crianças, acusando a Rússia de crimes contra a humanidade. 

A Rússia afirma que crianças foram realocadas por motivos de segurança, durante evacuações humanitárias desde o início da guerra. Mas 80% dos casos documentados pela comissão da ONU eram de crianças que não foram retornadas para as famílias.

Segundo a Ucrânia, há registros no país de pelo menos 20 mil casos. "Esses são apenas os casos para os quais temos dados mais ou menos suficientes. O número real de sequestros deve ser significativamente maior," afirma Maksym Maksymov, diretor da organização Bring Kids Back UA, iniciativa do presidente ucraniano Volodimir Zelenski.

Permanência de longo prazo

Indícios vindos da Rússia apontam na mesma direção. Em 2023, por exemplo, autoridades russas afirmaram que 744 mil crianças ucranianas haviam sido "acolhidas" no país.

Além disso, crianças que conseguem retornar à Ucrânia relatam a existência de outras que não constam no banco de dados ucraniano. Também surgem repetidamente novos números na mídia.

A identificação das crianças e a determinação do seu paradeiro são dificultadas pela falta de acesso às áreas da Ucrânia ocupadas pela Rússia. 

"As autoridades russas estão providenciando a permanência prolongada de crianças em famílias de cidadãos russos e em instituições russas. Com isso, violam suas obrigações, previstas no direito internacional, de reunir famílias que foram separadas durante um conflito armado”, declarou a Procuradoria-Geral da Ucrânia à DW.

Até hoje, a Ucrânia conseguiu trazer de volta 2.126 crianças. Elas haviam sido deportadas diretamente para a Rússia, transferidas dentro dos territórios ocupados ou submetidas localmente a uma "reeducação” russa.

Caminhos para devolução

Maksymov descreve dois caminhos para a devolução das crianças. Um deles é a mediação, um processo indireto de negociação. 

Nestes casos, listas com nomes de crianças ucranianas são entregues aos russos. Em seguida, com a ajuda do comissário de direitos humanos e de um mediador, negociam-se os retornos, e as crianças finalmente chegam à Ucrânia. 

"Em um único processo de mediação, nunca conseguimos trazer de volta mais de dez crianças ao mesmo tempo", relata Maksymov. 

O segundo caminho é o da "repatriação organizada", na qual organizações da sociedade civil desempenham um papel decisivo. 

"As crianças resgatadas chegam completamente desorientadas. Elas desconfiam dos adultos", diz Maksymov. 

Da transferência à "reeducação"

Do ponto de vista ucraniano, a intenção da Rússia de assimilação de crianças ucranianas não mudou ao longo dos anos de guerra. O que mudou foi o método. 

Em 2022 e 2023, houve transferências em massa. Crianças eram levadas em grupos de orfanatos à Crimeia ocupada ou à Rússia. 

O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, e sua comissária para os direitos da criança, Maria Lvova-Belova, sob suspeita de envolvimento.

Desde então, mudou o enfoque das forças russas, agora voltado à assimilação e militarização por meio do controle sobre a educação nos territórios ocupados.

"Elas criaram nos territórios ocupados um sistema de várias camadas. Ele vai da militarização à doutrinação, lavagem cerebral e russificação, até a emissão de passaportes russos. Assim, as crianças crescem com uma visão de mundo russa", afirma. 

Segundo estimativas, a Rússia teria acesso a até 1,6 milhão de crianças nos territórios ocupados. Nessas áreas, há agora escolas russas por toda parte e organizações paramilitares. Ditos "heróis" da guerra contra a Ucrânia visitam as salas de aula. Os alunos não têm acesso a fontes de informação ucranianas.

Militarização de crianças e adolescentes

A Procuradoria-Geral da Ucrânia abriu um processo criminal sobre a promoção do serviço militar nas Forças Armadas russas e da educação militarista e "patriótica" de crianças ucranianas.

O procurador-geral, Ruslan Kravchenko, afirma que escolas e universidades nos territórios ocupados foram forçadas a adotar currículos russos.

"Nos chamados 'campos de reeducação' e em movimentos paramilitares, as crianças são doutrinadas ideologicamente. Elas são treinadas no uso de armas e forçadas a jurar lealdade ao Estado agressor," disse Kravchenko à DW. "Aqui não se trata de educação. Trata-se de preparação para a guerra."

A Rússia nutriria o objetivo de aumentar até 2030 o número de participantes desses movimentos em 250 mil por ano, especialmente entre crianças dos territórios ucranianos ocupados. Algumas delas estariam sendo treinadas diretamente para o serviço no Exército russo. 

Entre 2019 e 2025, pelo menos 6 mil crianças ucranianas foram recrutadas para o "Exército Jovem". De acordo com Kravchenko, há casos em que, ao atingirem a maioridade, elas lutaram contra a Ucrânia, o que configura crime de guerra. Dezoito pessoas foram denunciadas, cerca de 30 são suspeitas e duas já foram condenadas.

Lutando contra o próprio país

Andriy Pasternak dirige, no Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), o centro de busca e libertação de prisioneiros de guerra e de pessoas privadas ilegalmente de liberdade em consequência da agressão contra a Ucrânia. Ele alerta que a militarização das crianças nos territórios ocupados vem aumentando.

Já há, em cativeiro ucraniano, jovens de 19 e 20 anos que lutaram do lado russo. Eles nasceram no Donbass, foram reeducados e levados a servir ao Exército russo. "Eles enviam ucranianos para lutar contra ucranianos", disse Pasternak numa conferência em abril, realizada no âmbito da iniciativa Bring Kids Back UA.

Em dezembro de 2025, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que autoriza a organização a solicitar informações sobre as crianças, garantir acesso humanitário a elas e assegurar seu retorno.

Em paralelo, a Coalizão Internacional para o Retorno das Crianças Ucranianas atualmente reúne 47 países e organizações. O seu trabalho é coordenar medidas para ajudar a Ucrânia a localizar crianças, trazê-las de volta e reintegrá-las à sociedade. Também contribui para documentar crimes de guerra e impulsionar sua investigação.

Esforços diplomáticos

A última reunião da coalizão ocorreu em setembro, em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU. Desde então, existe um mecanismo para a coleta de dados sobre crianças sequestradas pela Rússia.

Segundo Maksymov, isso permite à Ucrânia analisar informações existentes e pesquisar dados faltantes, o que contribuiu diretamente para obter mais informações.

A Ucrânia apresentou aos parceiros, prossegue ele, várias possibilidades de apoio a seus esforços, desde a busca por crianças sequestradas e a verificação de dados até a devolução direta das crianças.

As propostas incluem ainda a intensificação de esforços diplomáticos, melhor reintegração e reabilitação, além de medidas reforçadas para levar os responsáveis à Justiça e impor sanções.

O próximo encontro de alto nível da coalizão internacional, organizado conjuntamente pela União Europeia, Ucrânia e Canadá, acontece na segunda-feira (11/05), em Bruxelas. 

Irmãs ucranianas na linha de frente