Trump forma "conselho de paz" para Gaza com líderes mundiais
Publicado 17 de janeiro de 2026Última atualização 18 de janeiro de 2026
Governos ao redor do mundo têm reagido até agora com cautela aos convites distribuídos pelo presidente dos EUA, Donald Trump , para integrar o chamado Conselho de Paz para Gaza, uma iniciativa que diplomatas temem que possa prejudicar o trabalho das Organização das Nações Unidas (ONU) .
"É uma 'Nações Unidas de Trump' que ignora os fundamentos da carta da ONU", disse um diplomata à agência de notícias Reuters que pediu anonimato.
Apenas a Hungria de Viktor Orbán, aliado próximo de Trump, sinalizou claramente ter aceitado o convite enviado a cerca de 60 países ao longo do fim de semana. A maioria parecia relutar em fazer declarações públicas a respeito, informou a Reuters.
A expectativa é de que os EUA anunciem uma lista oficial de membros nos próximos dias, provavelmente durante o encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos , na Suíç.a.
A alemã Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral da ONU, não comentou diretamente o plano de Trump, mas disse que as Nações Unidas eram a única instituição com capacidade moral e legal de reunir todos os países, grandes ou pequenos.
"E se questionarmos isso [...], vamos retroceder para tempos muito, muito sombrios", disse ela à Sky News.
A ONU viu sua influência diminuir após cortes massivos de repasses dos EUA sob Trump e de outros doadores. Além disso, seu órgão mais poderoso, o Conselho de Segurança, foi impedido de tomar ações que poderiam ter encerrado a guerra em Gaza por causa dos vetos de Washington.
Quem foi convidado para o conselho de paz de Trump
O conselho de Trump faz parte da segunda fase do plano de paz para o território palestino, que prevê o fim permanente da guerra com Israel e o desarmamento da organização extremista Hamas.
O painel deverá supervisionar o novo comitê palestino de tecnocratas que governará Gaza durante um período de transição, mas também tem objetivo de permanecer como um órgão consultivo que pode ser acessado em outros conflitos, diz a Casa Branca. O próprio Trump presidirá o conselho, em caráter vitalícia. Contudo, sua composição exata ainda não foi divulgada.
Estados-membros teriam mandato de três anos no conselho. A permanência além desse período foi condicionada ao pagamento de 1 bilhão de dólares, que garantiriam mandato vitalício.
Até o momento, Washington procurou líderes como o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan; o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sissi; o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney; o presidente do Paraguai, Santiago Peña; e o presidente da Argentina, Javier Milei.
Segundo o portal G1 e a revista Veja, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também foi chamado a compor o grupo, mas o governo brasileiro ainda não se manifestou sobre o caso.
Os primeiros nomes a integrar o painel só se tornaram conhecidos após os próprios chefes de Estado confirmarem que foram procurados. Representantes de França, Alemanha, Austrália, Jordânia, Grécia, Chipre, Albânia e Paquistão também teriam sido convidados.
No X, Milei afirmou ser uma "honra" participar do painel. Canadá e Egito ainda avaliam se aceitarão o convite. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também estaria considerando participar, segundo a BBC.
A Casa Branca informou que o Conselho da Paz tratará de temas como "fortalecimento da capacidade de governança, relações regionais, reconstrução, atração de investimentos, financiamento em larga escala e mobilização de capital".
O Conselho de Segurança das Nações Unidas só autorizou um mandato para um Conselho de Paz para o ano de 2027, com foco exclusivo em Gaza.
Tony Blair compõe conselho executivo
Os anúncios desses líderes acontecem depois de o presidente dos EUA também nomear um conselho executivo para implementar os objetivos do Conselho da Paz e supervisionar a reconstrução e a administração da Faixa de Gaza.
Segundo a Casa Branca, esse grupo inclui o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o genro de Trump, Jared Kushner, e o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff.
O ex-enviado especial da ONU, Nickolay Mladenov, também foi nomeado para o conselho. Ele será responsável por fazer a ligação entre os conselhos e o governo de transição em Gaza.
Outros nomeados são o bilionário Marc Rowan, o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, e o vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert Gabriel, além de representantes de Catar, Egito e Turquia, incumbidos de monitorar o cessar-fogo.
O painel ajudará a "operacionalizar a visão do Conselho da Paz" e cada integrante terá áreas de atuação especializadas para apoiar os esforços de "estabilização" em Gaza, disse a Casa Branca. Mais membros serão anunciados nas próximas semanas.
Tecnocratas palestinos comandam transição
A Casa Branca também confirmou o estabelecimento de um novo comitê palestino que administrará Gaza durante a segunda fase do plano de paz. Esse grupo atuará sob a supervisão do conselho executivo nomeado por Trump.
O governo de transição será liderado por Ali Sha'ath, um tecnocrata palestino nascido em Gaza que já ocupou diversos cargos no governo da Autoridade Palestina na Cisjordânia Ocupada.
Já o major-general do Exército Jasper Jeffers, comandante de operações especiais dos EUA, foi nomeado comandante da Força Internacional de Estabilização, informou a Casa Branca. Uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, adotada em meados de novembro, autorizou o estabelecimento dessa força em Gaza.
O Hamas afirmou que dissolverá seu governo em Gaza assim que o novo comitê palestino assumir, mas não deu sinais de que desmantelará sua ala militar ou suas forças de segurança.
Israel rejeita conselho executivo
Israel se opôs publicamente à composição do conselho convocado pelos EUA. "O anúncio sobre a composição do Conselho Executivo de Gaza, que é subordinado ao Conselho da Paz, não foi coordenado com Israel e contraria sua política", disse um comunicado do gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
"O primeiro-ministro instruiu o ministro das Relações Exteriores a entrar em contato com o secretário de Estado dos EUA sobre este assunto".
O comitê anunciado pela Casa Branca na sexta-feira não inclui nenhum representante israelense, mas conta com o empresário israelense e bilionário Yakir Gabay. Observadores acreditam que a oposição de Israel se deve ao fato de Hakan Fidan, ministro das Relações Exteriores da Turquia, também compor o comitê executivo. A Turquia mantém uma relação tensa com Israel, mas boas relações com o Hamas.
A Jihad Islâmica Palestina, o segundo maior grupo militante de Gaza, também expressou insatisfação com a composição do comitê executivo, alegando que ele refletia "especificações" israelenses.
Muitos especialistas em direitos humanos afirmam que Trump supervisionar um conselho para administrar o governo de um território estrangeiro se assemelha a uma estrutura colonial. A participação de Blair também foi criticada no ano passado devido ao seu papel na guerra do Iraque e ao histórico do imperialismo britânico no Oriente Médio.
Em uma declaração enviada à AFP, Blair agradeceu a nomeação. O próprio Trump afirmou no ano passado que queria garantir que Blair fosse uma "escolha aceitável para todos".
gq (Reuters, DPA, AP)