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PolíticaVenezuela

Trump rejeita eleição nos próximos 30 dias na Venezuela

6 de janeiro de 2026

Presidente dos EUA diz que é necessário "consertar o país primeiro" e volta a descartar Maria Corina Machado para guiar o país após a captura de Maduro.

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Donald Trump
"Temos que consertar o país primeiro. Não dá para fazer eleições. Não há como o povo votar", disse Trump em entrevistaFoto: Elizabeth Frantz/REUTERS

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou nesta segunda-feira (05/01) a possibilidade de novas eleições na Venezuela nos próximos 30 dias, alimentando a indefinição política e especulações sobre o futuro do país após a captura do presidente Nicolás Maduro pelos EUA, no sábado passado.

"Temos que consertar o país primeiro. Não dá para fazer eleições. Não há como o povo votar", disse Trump em entrevista por telefone à emissora NBC News.

Mesmo perante a indefinição em relação ao futuro político do país sul-americano, Trump está certo de uma coisa: ele não apoia a participação da líder da oposição, María Corina Machado. Na entrevista à NBC News ele negou que Machado seja uma interlocutora válida para guiar o país após a captura de Maduro.

Trump já dissera anteriormente que Machado, que venceu o Prêmio Nobel da Paz de 2025 por seu empenho em promover uma transição democrática no país, é "uma mulher muito simpática", mas não tem o "apoio" ou o "respeito" necessários para governar o país.

Impedida de concorrer na eleição presidencial de 2024 pelo governo Maduro, Machado liderou a campanha de seu substituto, Edmundo González Urrutia. Ela mobilizou milhões de venezuelanos e coordenou uma rede nacional de fiscalização que coletou e digitalizou atas eleitorais. Esses documentos, segundo a oposição, comprovam que González venceu a disputa e que o regime de Maduro ocultou os resultados oficiais e manipulou o processo para se manter no poder.

Muitos venezuelanos ficaram chocados com a decisão de Trump de excluir Machado da transição. Quem tomou posse como chefe interina do governo, nesta segunda-feira, foi a vice de Maduro, Delcy Rodríguez , um quadro histórico do chavismo. Ela estendeu a mão ao governo Trump e se ofereceu para "colaborar" com os EUA.

Integram ainda o governo interino o ministro do Interior de Maduro, Diosdado Cabello, e o poderoso ministro da Defesa, Vladimir Padrino López. Cabello, em particular, é uma figura temida por muitos venezuelanos, depois de ter comandado a repressão aos protestos pós-eleitorais em 2024, que resultaram na prisão de cerca de 2.400 pessoas e ao menos 24 mortes.

Na entrevista à NBC News, Trump disse que Rodríguez está cooperando com as autoridades americanas. "Tenho a sensação de que está cooperando. Precisam de ajuda. E tenho a sensação de que [Rodríguez] ama seu país e quer que seu país sobreviva", afirmou. 

Ele acrescentou que não houve contato de Washington com Rodríguez antes da operação militar que capturou Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em Caracas.

Delcy Rodríguez sai da cerimônia de posse acompanhada do ministro da Defesa, Vladimir Padrino López (à esq.), do ministro do Interior, Diosdado Cabello (de colete preto), do presidente da Assembleia Nacional e seu irmão, Jorge Rodriguez, e de Nicolas Maduro Guerra, filho do líder capturado (ao fundo, à dir.)
Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da VenezuelaFoto: Marcelo Garcia/Miraflores Palace/REUTERS

Coordenação da transição

Trump afirmou ainda que os secretários de Estado, Marco Rubio, e da Defesa, Pete Hegseth, e o assessor para temas de Segurança e Migração, Stephen Miller, estarão a cargo de coordenar a transição na Venezuela e incluiu também na equipe encarregada da Venezuela o vice-presidente JD Vance.

À pergunta sobre quem será nesse grupo o principal responsável por tomar decisões sobre a Venezuela, Trump se limitou a dizer que ele mesmo terá a última palavra. "É um grupo de todos. Todos são especialistas em diferentes [campos]", afirmou.

O jornal The Washington Post publicou na noite de domingo que a Casa Branca estava considerando Miller, o arquiteto da política anti-imigração do governo Trump, para um papel mais elevado na gestão da Venezuela. 

O secretário de Estado, Marco Rubio, disse no domingo que os responsáveis americanos por dirigir a transição na Venezuela o farão a partir de um âmbito de "políticas" e que será um "esforço de todo o aparato de segurança nacional". 

No sábado, Trump disse que os EUA governarão a Venezuela, e nesta segunda-feira assegurou que já estavam "no comando" do país sul-americano, além de ter advertido Rodríguez que ela poderá ter um futuro pior que o de Maduro se não "fizer o que é certo".

Oposição pressiona por eleições

Em entrevista à emissora de TV americana Fox News, de um local não revelado, Machado criticou Rodríguez e a chamou de "uma das principais arquitetas da tortura, perseguição, corrupção e narcotráfico".

Ela acrescentou que planeja retornar à Venezuela "o mais rapidamente possível" depois de ter saído do país secretamente no mês passado para receber o Prêmio Nobel da Paz.

Logo após a captura de Maduro, ela defendeu que Edmundo González Urrutia deveria assumir o mandato presidencial. 

A Constituição do país prevê dois caminhos diante da ausência de um presidente. No caso de uma "ausência absoluta", define a realização de novas eleições dentro de 30 dias, o que foi descartado por Trump nesta segunda.

A Constituição também prevê uma "ausência temporária" do líder. Neste caso, o vice assumiria a presidência por 90 dias, prorrogáveis por mais 90, totalizando seis meses, quando então deveriam ser realizadas eleições.

O próprio presidente da Câmara dos Deputados dos EUA e aliado de Trump, Mike Johnson, disse que acha que uma eleição "deveria acontecer em breve" na Venezuela.

Sem retorno à vista

O cenário de incerteza jurídica, política e econômica tem adiado os planos de retorno de muitas pessoas da diáspora venezuelana. Cerca de 7,9 milhões deixaram a Venezuela nos últimos anos devido à violência, insegurança e ameaças, segundo a agência da ONU para refugiados (Acnur).

Embora muitos sonhem em voltar para sua terra natal, a economia devastada do país e o medo do aparato de segurança do governo tem desencorajado esse movimento.

"Não houve mudança de regime na Venezuela, não há transição", disse a socióloga e ativista de direitos humanos venezuelan Ligia Bolívar, que mora na Colômbia desde 2019, à AFP. "Nestas circunstâncias, ninguém vai voltar para casa", concluiu.

sf/as (AFP, AP, ots)

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