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Trump segue doutrina Maga em estratégia de segurança dos EUA

Matt Pearson | Beatrice von Braunschweig
9 de dezembro de 2025

Presidente americano abandona curso adotado desde o fim Guerra Fria e adota discurso de seu movimento em documento que define rumos da política externa do país.

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Trump com boné escrito Make America Great Again
Donald Trump impôs mudanças fundamentais na política externa americanaFoto: Alex Brandon/AP Photo/picture alliance

Um dos principais lemas do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece mais próximo da realidade do que nunca. "Em tudo o que fazemos, colocaremos a América em primeiro lugar", diz a introdução do documento estratégico de 29 páginas, divulgado recentemente, que define a atual política externa americana.

A Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) não determina políticas, mas sim, define a visão de política externa do governo. Publicado regularmente, o documento determina as diretrizes de como o governo americano pretende conduzir sua política de segurança no futuro. Mas isso pode mudar em casos de eventos mundiais inesperados.

Andrew Payne, especialista em política externa americana, cita como exemplo a versão de 2022, divulgada durante o mandato do ex-presidente Joe Biden que não mencionou significativamente o Oriente Médio. A NSS, porém, impacta sobre como os recursos governamentais são alocados, além de orientar governos estrangeiros sobre as intenções dos EUA.

"Mesmo que os princípios e prioridades ali estabelecidos não sejam seguidos, o documento é a melhor fonte disponível para quem busca clareza sobre a direção de um governo que até agora tem sido inconsistente e imprevisível", disse Payne, diretor de pesquisa do think tank de relações internacionais Chatham House.

O que diz o documento da Estratégia de Segurança?

Além de muita autoglorificação e uma rejeição da política externa tradicional dos EUA, Trump apresenta um plano "América em primeiro lugar" bem mais reforçado do que o de 2017, divulgado durante seu primeiro mandato na Casa Branca.

"Após o fim da Guerra Fria , as elites da política externa dos EUA se convenceram de que a dominação americana permanente do mundo inteiro era do interesse do nosso país", afirma a introdução do documento. "No entanto, os assuntos de outros países só nos dizem respeito se as suas atividades ameaçarem diretamente os nossos interesses."

Protesto com cartazes com frases como "Não à guerra na Venezuela" e "Yankees voltem para casa"
Estratégia de segurança defende "preeminência" dos EUA no Hemisfério Ocidental e na América LatinaFoto: Dave Decker/IMAGO

Como tal, os principais pontos da estratégia são um afastamento da intervenção americana no exterior, do multilateralismo e dos organismos internacionais, e uma aproximação à autodeterminação nacional, pelo menos até onde isso convém aos EUA.

A NSS propõe que os EUA tenham controle total de suas fronteiras, as "forças armadas mais poderosas, letais e tecnologicamente avançadas do mundo" e "a economia mais dinâmica, inovadora e avançada", além de manter uma influência de soft power em todo o mundo para seu próprio benefício.

Em termos globais, o documento defende um "corolário Trump" à Doutrina Monroe , estabelecida em 1823 e relacionada à autodeterminação dos EUA em meio à intervenção europeia. O texto menciona a necessidade de impedir que "uma potência adversária domine o Oriente Médio" e observa que o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia é um objetivo fundamental, juntamente com o combate ao narcotráfico no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico Oriental, ao mesmo tempo que pede que outras nações assumam uma parcela maior da responsabilidade em assuntos globais.

O documento também afirma que a Europa enfrenta a "perspectiva de extinção civilizacional ", que alguns países europeus estarão "irreconhecíveis em 20 anos ou menos" e questiona se eles são "fortes o suficiente para permanecerem aliados confiáveis".

A mensagem geral de isolacionismo americano nem sempre é aplicada de forma consistente. A Estratégia de Segurança defende a "preeminência" dos EUA no Hemisfério Ocidental e na América Latina em particular, e declara que "recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégias".

Nova direção da política externa dos EUA?

Embora esses objetivos estratégicos não se tornem necessariamente a política oficial, a declaração marca uma mudança radical em relação à estratégia divulgada por Biden em 2022. Segundo Payne, a guinada representa a rejeição fundamental e explícita das estratégias de segurança desenvolvidas pelos EUA desde pelo menos o fim da Guerra Fria.

"Fica mais claro no que ela não é: a ortodoxia internacionalista liberal tradicional que sustentou a grande estratégia dos EUA por décadas", observou Payne.

Chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, discursa em evento em Bruxelas
"Nem sempre concordamos em tudo, mas acredito que o princípio geral permanece", disse Kaja KallasFoto: Nicolas Tucat/AFP

Para Rubrick Biegon, professor de relações internacionais da Universidade de Kent, na Inglaterra, a nova estratégia está em sintonia com as mudanças mais amplas de seu segundo mandato. "Parece estar em consonância com as mudanças que ocorreram entre Trump e Trump 2.0. O documento atual está mais alinhado com a visão de mundo peculiar de Trump do que o de 2017."

Biegon acrescenta que isso se deve em parte ao fato de "Trump estar mais confortável em sua posição desta vez e ter mais pessoas de sua própria equipe ao seu redor, em vez de figuras do establishment".

Rússia satisfeita e Europa preocupada

Na Rússia, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, saudou o documento como sendo "em grande parte consistente com a nossa visão" e um "passo positivo". Outros na Europa demonstraram preocupação.

"Não podemos aceitar a ameaça de interferência na vida política da Europa", disse o presidente do Conselho Europeu, António Costa, nesta segunda-feira (09/12) em Bruxelas.

O ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul , afirmou que seu país não precisa de "conselhos externos" após a divulgação da Estratégia de Segurança Nacional, mas que os EUA continuam sendo "nosso aliado mais importante na aliança [da Otan]". "Acredito que questões de liberdade de expressão ou a organização de nossas sociedades livres não pertencem [à estratégia], pelo menos não no que diz respeito à Alemanha", disse Wadephul.

A chefe da diplomacia da União Europeia (UE) , Kaja Kallas, adotou um tom semelhante. "Acho que nem sempre concordamos em todos os assuntos, mas acredito que o princípio geral permanece", disse Kallas. "Somos os maiores aliados e devemos permanecer unidos."

Continuidade da doutrina Maga

Para a pesquisadora de relações internacionais do Carnegie Europe Judy Dempsey, o documento é uma continuação da política do movimento trumpista Maga (Make America Great Again). "Agora está escrito preto no branco o que há muito vinha sendo sinalizado". Dempsey ressalta que a estratégia deixa claro que os EUA "pretendem promover a resistência ao curso atual da Europa dentro das nações europeias". Isso pode significar o fortalecimento a apoio com partidos e movimentos de extrema direita .

Enquanto muitos observadores da UE olham com preocupação para os sinais vindos dos EUA, líderes políticos europeus continuam defendendo a parceria transatlântica. Para Dempsey, a nova estratégia americana, porém, "é um duro golpe vindo dos Estados Unidos". A especialista não espera uma reação europeia, pois o bloco não possui uma estratégia comum apoiado por todos os países-membros.