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Abusos pós-eleitorais em Moçambique: "Há avanços no caso"

17 de fevereiro de 2026

ONG aponta "progressos significativos" no processo sobre os abusos nos protestos pós-eleitorais em Moçambique, que envolve o ex-comandante da Polícia e o ex-ministro do Interior. Hoje foi dia de audiência.

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Bernardino Rafael, antigo comandante-geral da polícia
Ex-comandante da polícia moçambicana, Bernardino RafaelFoto: Amós Fernando/DW

À DW, o líder da Plataforma DECIDE, Wilker Dias, afirma ter saído satisfeito da audiência de hoje, garantindo que "há progressos significativos" e manifestando otimismo quanto ao desfecho do processo.

A organização não-governamental apresentou uma queixa-crime contra Bernardino Rafael e Pascoal Ronda, imputando-lhes responsabilidades por torturas, desaparecimentos forçados e mortes, estimadas em mais de 400 pela sociedade civil e associadas à resposta das forças de segurança. 

Para Wilker Dias, este processo é "um dos principais caminhos para a reconciliação do povo moçambicano", uma etapa essencial que, no seu entender, tinha sido ignorada até agora. O ativista considera ainda que o caso representa "uma oportunidade para a Procuradoria-Geral da República limpar a sua imagem no que diz respeito à inércia" e recuperar a confiança pública.

Wilker Dias, líder da Plataforma DECIDE
"A justiça será feita", garante Wilker DiasFoto: Arcénio Sebastião/DW

DW África: Como decorreu a audiência de hoje?

Wilker Dias (WD): A audiência decorreu da melhor forma possível. Recebemos boas informações sobre o progresso do processo.

De forma geral, podemos afirmar que o processo está a decorrer da melhor maneira. Para além das pessoas arroladas pela defesa, neste processo contra o ex-comandante Bernardino Rafael e o ex-ministro do Interior, Pascoal Ronda, também algumas figuras ligadas a departamentos da polícia já começaram a ser ouvidas.

Posso garantir que essas audições estão em curso. Testemunhas e outras pessoas indicadas no processo também já foram ouvidas em grande medida. Há progressos significativos, e agora resta acompanhar quais serão os próximos passos.

DW África: Pode partilhar detalhes da audiência de hoje?

WD: Não posso partilhar muito mais além do que já referi, sobre os avanços registados. É um processo longo, que envolve matérias sensíveis, mortes, feridos e outros incidentes, e que diz respeito a várias partes do país. A recolha e constituição de materiais de prova leva o seu tempo.

É essa a razão da demora das autoridades em tomar uma decisão final. Segundo a Procuradoria-Geral da República, é necessário apurar ponto por ponto para que depois se possa avançar para a próxima fase, que poderá ser a constituição de arguidos, nomeadamente Pascoal Ronda e Bernardino Rafael, com base nas provas apresentadas.

DW África: Relativamente aos familiares das vítimas da violência pós-eleitoral, qual tem sido o envolvimento em termos de solidariedade, apoio e acompanhamento?

WD: Da parte das autoridades estatais, não houve qualquer solidariedade. Nunca existiu apoio. O acompanhamento às pessoas afetadas tem sido feito sobretudo pela sociedade civil, incluindo assistência psicossocial, por exemplo.

Moçambique: Protestos em Maputo em novembro de 2024
ONG DECIDE vê progressos no processo sobre abusos policiais pós-eleiçõesFoto: Siphiwe Sibeko/REUTERS

As vítimas, feridos, familiares das vítimas mortais, pessoas que passaram por situações de desaparecimento forçado ou tortura, estão todas a ser ouvidas no processo. Posso garantir isso. A maior parte já foi ouvida, embora ainda haja algumas audições em curso, incluindo de testemunhas.

Este é o trabalho que a Procuradoria-Geral da República está a realizar. E nós temos exortado as famílias e testemunhas e agradecido a flexibilidade e colaboração que têm demonstrado ao longo do processo.

A verdade é que há muitas pessoas envolvidas e estamos a acompanhá-las em todas as fases.

DW África: A Plataforma DECIDE mantém confiança no sistema de justiça de Moçambique?

WD: Acreditamos que será feita justiça. Temos essa certeza pela forma como acompanhámos o processo em diferentes fases, pela existência de materiais de prova sólidos e também porque acreditamos que este pode ser um dos caminhos fundamentais para a reconciliação do povo moçambicano.

Além disso, este caso representa uma oportunidade para a Procuradoria-Geral da República limpar a sua imagem no que diz respeito à inércia anterior e restaurar a confiança no sistema de justiça em Moçambique.

Pode vir a ser algo inédito e acreditamos seriamente que pode tornar-se uma realidade.

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Jornalista da DW Nádia Issufo
Nádia Issufo Jornalista da DW África