Candidatura de Macky Sall à liderança da ONU criticada
9 de março de 2026
Causou estupefação a candidatura do ex-Presidente do Senegal Macky Sall à liderança da Organização das Nações Unidas (ONU). Sobre Sall pesam principalmente acusações de mau uso do dinheiro público e violações dos direitos humanos quando tentou forçar um inconstitucional terceiro mandato.
Mesmo que até ao momento não se tenha provado a sua falta de ética, seria uma figura manchada a ideal para trazer prestígio para África?
O especialista em relações internacionais Nkikinamo Tuassamba responde: "Penso que assumir este cargo já é um prestígio do ponto de vista pessoal. Do ponto de vista diplomático não apenas do país e penso que traria, sim, porque acrescenta o seu curriculo".
Contudo frisa que "do ponto de vista ético, na política nem tudo vale. Sall acabou claramente violando todos os príncipios éticos".
Moral e Ética esquecidas?
Mas visibilidade e prestígio de África se obtém sacrificando a ética e a moral? O ativista angolano João Malavindele, da ONG angolana Omunga, entende que não e defende que "a ONU não pode ser um refúgio para dirigentes criminosos".
O ativista recorda que "a ONU é uma instituição credível, então quem se acha no direito e capacidade de dirigir a ONU tem de ser alguém com um perfil que dignifiique a função".
Mesmo sendo "persona non grata", Macky Sall tem um apoio de peso, da União Africana, atualmente liderada pelo Burundi, que está a promover a sua candidatura, facto que torna quase irrelevante a falta de apoio político do seu país.
De qualquer modo, ao final do dia não é a liderança da ONU que conta, destaca Malavindele: "Acho que os ganhos diplomáticos são subjetivos, no caso do Senegal vai ser bom, vai dar outra visibilidade ao país, igualmente para África".
Malavindele lembra, contudo, que "em termos de ganhos politicos não vai trazer nada de novo, porque a ONU precisa de uma reforma e o novo figurino das Nações Unidas não beneficia África."
Nódoas de Maky Sall o impedirão de vencer?
Por todas as nódoas da governação de Sall, o analista Tuassamba não acredita na vitória africana. Entende, por outro lado, que o Burundi não tinha outa alternativa se não apoiar Sall, o único candidato africano.
"Não estou ver o Sall a ganhar, tendo em conta que acabou manchando o seu percurso político, sobretudo no último ano", diz.
A eleição do secretário-geral na ONU é por voto secreto na Assembleia-geral, bastando para isso uma maioria de dois terços. Para Malavindele, não é o "voto da nacionalidade" que conta.
"Apelo aos Estados que tenham algum sentido de responsabilidade e de Estado em relação à eleição do novo líder nas Nações Unidas", pediu.
O primeiro africano a dirigir a ONU foi Boutrus Boutros-Ghali, entre 1992 e 1996, e o último o ganês Kofi Annan, de 1997 a 2006, que se destacou por exigir reformas na instituição. O mandato do atual secretário-geral, António Guterres, termina a 31 de dezembro de 2026, e neste momento decorre o processo seletivo do próximo líder.