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Conferência de Segurança: África em segundo plano?

Saleh Mwanamilongo
15 de fevereiro de 2026

Temas como a guerra na Ucrânia, tensões no Médio Oriente e o futuro da Europa estiveram em discussão na Conferência de Segurança de Munique, que fica porém marcada por uma crítica recorrente: o lugar concedido a África.

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Conferência de Segurança de Munique
Conferência de Segurança de MuniqueFoto: dts-Agentur/picture alliance

A edição de 2026 da Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha, terminou este domingo (15.02), após três dias de debates intensos.

A Conferência chegou ao fim com uma constatação: o mundo está mais instável do que nunca e a Europa já não tem tempo a perder.

Durante três dias, as discussões foram dominadas pela guerra na Ucrânia, pela questão do apoio militar ocidental a Kiev e pelo receio de um esgotamento político, nomeadamente por parte dos Estados Unidos. Outro tema omnipresente foi o conflito no Médio Oriente, com repetidos apelos para que seja evitado um agravamento regional.

Mas Munique foi também palco de uma reflexão mais ampla sobre o futuro estratégico do continente europeu: defesa comum, rearmamento, cibersegurança e combate às ingerências estrangeiras.

A China e a sua influência económica e militar alimentaram igualmente numerosos painéis, tal como a ascensão de regimes autoritários e a fragilidade das democracias.

Neste contexto, o chanceler alemão, Friedrich Merz, quis dar o tom: uma Alemanha mais assertiva no panorama internacional.

“Compreendemos que, na era das superpotências, a nossa liberdade já não é um dado adquirido. Está ameaçada. Será necessária força e determinação para defender essa liberdade”, frisou.

Como crises em África foram abordadas?

Algumas delegações africanas estiveram presentes em Munique, mas os debates raramente abordaram em profundidade as crises no continente, como o Sudão, o leste da República Democrática do Congo (RDC) ou o Sahel. Algo que lamenta Zerbo Lassina, antigo primeiro-ministro do Burkina Faso.

“Gostaria de ter visto mais pessoas do Sahel envolvidas na discussão. É preciso incluir os três países do Sahel neste tipo de debates, como a Conferência de Segurança de Munique. Isso permite também conhecer o seu ponto de vista. É muito importante”, sublinhou.

Ministra dos Negócios Estrangeiros da RDC, Thérèse Kayikwamba Wagner
"Não nos podemos dar ao luxo de não tentar alcançar a paz", ministra dos Negócios Estrangeiros da RDC, Thérèse Kayikwamba WagnerFoto: Ronka Oberhammer/DW

Presente também em Munique, Vincent Biruta, ministro ruandês do Interior, considerou, por seu lado, que o predomínio dos temas internacionais é lógico.

“De qualquer forma, são crises que acontecem noutros lugares, mas que nos afectam. A guerra na Ucrânia afectou-nos, mesmo estando longe. Portanto, é importante que nós, africanos, possamos acompanhar estas discussões e compreender melhor o que está em jogo”, defendeu.

Cessar-fogo entre RDC e M23

Quanto à crise de segurança no lesta da RDC, as autoridades congolesas anunciaram na sexta-feira (13.02) que aceitam o cessar-fogo com o grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23), a partir de 18 de fevereiro, medida proposta por Angola.

À margem da Conferência de Segurança de Munique, a DW conversou com a Ministra dos Negócios Estrangeiros da RDC, Thérèse Kayikwamba Wagner. Questionada sobre o que garante que este novo cessar-fogo será definitivo, a ministra respondeu: "Porque não nos podemos dar ao luxo de não tentar alcançar a paz".

"Mais uma vez, quero reiterar que as populações que estão sob ocupação são populações congolesas. Enquanto Governo congolês, temos a responsabilidade de assegurar a proteção das nossas populações. Houve outras tentativas que produziram resultados durante mais tempo. Houve outras que falharam muito mais rapidamente. Da parte do Governo, faremos tudo o que for necessário para cumprir os nossos compromissos. E esperamos também que a outra parte faça o mesmo", reiterou Kayikwamba Wagner.

Para a ministra, "não pode haver um processo que conduza a uma paz duradoura sem responsabilização".

"Comprometemo-nos, portanto, com os processos na expectativa de que os facilitadores nos ajudem igualmente a responsabilizar todas as partes pelos seus compromissos. É aí que deve ser feita a diferença".

Conselheiro para África de Donald Trump, Massad Boulos
"Não aceitaremos que qualquer das partes [do conflito na RDC] se afaste do (...) caminho da paz", Massad BoulosFoto: Ronka Oberhammer/DW

Paz no leste da RDC é "prioridade para o Presidente Trump"

Já em dezembro do ano passado, o Ruanda e a República Democrática do Congo assinaram, em Washington, um acordo de paz, mediado pelos EUAe descrito, na altura, por Donald Trump como "um milagre", para pôr fim a um conflito de décadas.

Em Munique, neste fim-de-semana, o Conselheiro para África de Trump, Massad Boulos, disse à DW que "a questão da paz no leste da RDC e o conflito entre a RDC e o Ruanda são uma grande prioridade para o Presidente Trump e para os EUA".

"O que vimos em Washington, a 4 de dezembro, com a assinatura do acordo de paz foi apenas o início.Sabemos perfeitamente que as coisas não serão assim tão fáceis. Mas não aceitaremos, de forma alguma, que qualquer das partes se afaste do caminho que assumiu em Washington: o caminho da paz", reforçou.

Em entrevista à DW, Boulos sublinhou que os EUA está em "conversações com todas as partes".

"Temos equipas que trabalham quase todos os dias com os nossos parceiros do Qatar, porque as negociações do Qatar, em Doha, são também uma via muito importante. É o eixo que está encarregue de tudo o que diz respeito ao processo entre o M23 e a RDC, com um apoio dos EUA muito significativo.
Estamos totalmente envolvidos neste processo de Doha e acompanhamos de muito perto, com todos os atores, a sua implementação", garantiu. 

A Conferência de Segurança de Munique de 2026 deixa claro que a segurança mundial joga-se em várias frentes ao mesmo tempo e ninguém está imune.

Para Wolfgang Ischinger, presidente da Conferência de Segurança de Munique, a próxima edição terá de responder a uma questão central: como incluir mais as regiões frequentemente relegadas para segundo plano, quando também elas sofrem as consequências diretas das crises globais.

À lupa: E agora, o que se segue ao acordo RDC-Ruanda?

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