Alemanha: Os desafios da política externa em 2026
26 de dezembro de 2025
O historiador e cientista político Herfried Münkler resumiu recentemente o que considera ser o principal problema de política externa da Alemanha: “O idealismo liberal de uma ordem internacional baseada em regras revelou-se uma ilusão.”
Ao mesmo tempo, o Governo continua a encarar a preservação do multilateralismo e de uma ordem internacional assente em regras como o seu grande objetivo estratégico. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, alertou que “a China e a Rússia estão a tentar reescrever a ordem internacional baseada no direito internacional”.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que a ordem baseada em regras já não está apenas a ser posta em causa por Governos há muito considerados autoritários. “Infelizmente, também se aplica aos EUA”, disse, referindo-se ao Presidente Donald Trump. Um recente documento estratégico dos EUA, que critica duramente os aliados europeus e a União Europeia, reforçou essa perceção.
"Pressão sobre os europeus"
Uma grande preocupação entre líderes políticos e militares alemães é a possibilidade de os EUA estarem a afastar-se da Europa em matéria de segurança. No início de dezembro, o general Christian Freuding disse à revista The Atlantic que o contacto direto com os seus homólogos norte-americanos tinha sido “interrompido”.
No passado, contou Freuding, a comunicação era possível “dia e noite”. Classificou a perda desses canais de contacto rápido como um “sinal de alerta”, especialmente tendo em conta a possibilidade de um ataque da Rússia contra Estados da NATO no flanco oriental.
Os europeus também estão a sentir as consequências da mudança da política norte-americana em relação à Ucrânia.
Trump procurou um acordo de paz que acomodasse muitas das exigências feitas pelo Presidente russo, Vladimir Putin. Além disso, a estratégia de segurança dos EUA divulgada no final de 2025 procurava uma “estabilidade estratégica” com a Rússia, para grande consternação de Governos noutros países europeus.
“Se chegar ao ponto em que os americanos, de alguma forma, se afastem, a pressão sobre os europeus para serem capazes de agir e de constituírem um forte contrapeso voltará a aumentar”, disse à DW Henning Hoff, do Conselho Alemão de Relações Externas.
Merz tem trabalhado com o Presidente francês, Emmanuel Macron, e com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, para contrabalançar o declínio do empenho dos EUA na Ucrânia. No entanto, os três líderes enfrentam orçamentos apertados, pressão interna da direita política e um apoio público cada vez mais frágil à Ucrânia nos seus próprios países.
Dependência da China
Com a indústria alemã dependente dos elementos de terras raras controlados pela China, Berlim tornou-se cada vez mais dependente de Pequim.
“Os chineses têm sido muito bem-sucedidos em tornar-se líderes em muitos domínios tecnológicos e em ocupar posições que tradicionalmente pertenciam à indústria alemã”, afirmou Hoff. “E, num momento como este, a Alemanha também deixa de ser tão importante.”
Merz planeia visitar a China no início de 2026.
Alemanha e Israel
Durante a sua visita a Israel em dezembro, Merz afirmou: “Venho como um amigo de Israel, que sabe que a amizade entre a Alemanha e Israel é infinitamente valiosa e preciosa.”
Após o ataque terrorista do Hamas, a 7 de outubro de 2023, Israel iniciou uma guerra de dois anos em Gaza que já matou mais de 70.000 pessoas. Ao lado do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Merz reconheceu que a guerra confrontou a Alemanha com “alguns dilemas”. Invocando a responsabilidade alemã pelo Holocausto, afirmou que o seu Governo procura garantir a segurança de Israel, mas acrescentou que expressará críticas sempre que necessário.
É significativo que Merz já não utilize a formulação da sua antecessora, Angela Merkel: “A segurança de Israel é razão de Estado para a Alemanha.” Em vez disso, afirmou que o apoio à existência e à segurança de Israel pertence “ao núcleo imutável das nossas relações”.
Em questões-chave, porém, os dois Governos continuam muito afastados, sobretudo quanto à solução de dois Estados. A Alemanha continua a apoiar a ideia de um futuro Estado palestiniano ao lado de Israel. Netanyahu rejeita essa possibilidade, afirmando: “O objetivo de um Estado palestiniano é destruir o único Estado judeu.”
Hans-Jakob Schindler, analista do Médio Oriente e de segurança, afirmou que a solução de dois Estados é “possivelmente uma visão para um futuro muito, muito distante, cuja viabilidade prática está cada vez mais em causa”.
Schindler acrescentou que a Alemanha e a União Europeia perderam em grande medida o seu papel de mediadores no Médio Oriente. “É evidente que tanto os palestinianos como o lado israelita olham para Washington como o mediador central, e não para a Europa”, disse. A União Europeia terá um papel importante na reconstrução de Gaza e na ajuda humanitária, afirmou, “mas, como mediador central, a Europa, em parte, despediu-se realmente desse papel ao longo dos últimos 10 anos”.
As alianças desconfortáveis da Alemanha
A Alemanha tem de decidir como conduzir a sua política externa num mundo em que o peso geopolítico está a mudar e as regras internacionais são cada vez mais ignoradas.
Johannes Varwick, professor de relações internacionais na Universidade de Halle, disse à DW que procurar parceiros que ainda valorizem o multilateralismo — incluindo parceiros difíceis — é a abordagem correta. “A Alemanha está a tentar manter alianças antigas, ao mesmo tempo que cria novas parcerias e expande redes com outras potências médias em todo o mundo”, explicou, citando o Brasil, o México e o Vietname como exemplos.
Merz tem dado grande ênfase à política externa desde o início e, devido às suas numerosas viagens ao estrangeiro, tem sido por vezes apelidado de forma irónica de “chanceler da política externa”.
“No geral, pode-se de facto falar de uma certa revitalização”, afirmou Hoff. Acrescentou, no entanto, que “a política externa de Berlim continua demasiado lenta a responder a esta nova situação global”.
São esperadas mudanças no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Entre outras, uma comissão irá abordar a questão da dependência da China em 2026. “Tudo isto é positivo”, disse Hoff, “mas chega dois, três, quatro, cinco anos demasiado tarde. E, se não conseguirem imprimir mais rapidez ao processo, as coisas vão tornar-se difíceis.”