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EUA e Irão: Três gerações de conflito

Peter Hille
17 de março de 2026

Três momentos-chave que moldaram as atitudes iranianas e americanas — e explicam por que a desconfiança persiste.

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Iran Teheran 2016 | Anti-US-Wandbild vor der ehemaligen US-Botschaft
Mulheres iranianas passam ao lado de um mural anti-EUA a caminho da antiga embaixada dos EUA em Teerão.Foto: Abedin Taherkenareh/dpa/picture alliance

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, iniciada a 28 de fevereiro de 2026, não surgiu de forma repentina. O conflito entre Washington e Teerão foi-se desenvolvendo ao longo de gerações. A DW analisa três acontecimentos decisivos — o golpe de 1953, a crise dos reféns de 1979-81 e a disputa nuclear em curso — que continuam a influenciar políticas e a opinião pública, além de terem aberto caminho para a guerra.

A CIA e o golpe

Durante grande parte do século XX, Irão e Estados Unidos mantiveram uma relação próxima. Após a Segunda Guerra Mundial, Washington encarava Teerão como um aliado estratégico contra a União Soviética. Os EUA apoiaram o xá Mohammad Reza Pahlavi, que posicionou o país como uma monarquia pró-Ocidente no Médio Oriente.

Em 1951, porém, o primeiro-ministro eleito Mohammad Mossadegh nacionalizou a indústria petrolífera iraniana, desafiando o controlo ocidental sobre os recursos do país. Dois anos depois, a CIA e o serviço secreto britânico MI6 ajudaram a organizar um golpe contra Mossadegh. Segundo Ian Lesser, vice-presidente do think tank German Marshall Fund, o episódio de 1953 foi um ponto de viragem, "basicamente arquitetado por Estados Unidos e Reino Unido para derrubar Mossadegh e restaurar o xá”.

Irão Teerão 1951 | Primeiro ministro Mohammad é celebrado pelos apoiantes
Mohammad Mossadegh: Os EUA só confirmaram o seu papel no golpe contra o primeiro-ministro do Irão 60 anos depois, em 2013Foto: AP Photo/picture alliance

O golpe restabeleceu o poder do xá, mas também gerou um profundo sentimento de injustiça na sociedade iraniana. Muitos viram o episódio como uma intervenção estrangeira contra a democracia. Negin Shiraghei, fundadora da Azadi Network, afirma: "A geração dos meus pais acreditava que os problemas do país eram resultado da intervenção americana. Viam o xá como um fantoche dos EUA.” Esta memória tornou-se um dos motores da Revolução Islâmica, cerca de três décadas depois.

A revolução e a crise dos reféns

No final da década de 1970, a insatisfação com o regime do xá crescia de forma contínua. Muitos consideravam o seu governo repressivo e acreditavam que Washington tinha um papel decisivo na sua manutenção.

Em 1979, protestos em massa derrubaram o xá. O líder religioso aiatola Ruhollah Khomeini regressou do exílio e instaurou a República Islâmica, adotando uma ideologia abertamente antiocidental e antiamericana.

Hoje, muitos membros da geração que ajudou a criar a República Islâmica e a sua política de confronto ainda ocupam cargos de destaque. A liderança iraniana continua a recorrer aos símbolos e slogans da revolução de 1979 para legitimar o seu poder. Um pilar central do sistema é a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma força militar e política criada para defender a revolução e reprimir dissidências internas, reprimindo frequentemente protestos, média e sociedade civil.

Irão Teerão 1977 | Jimmy Carter & Schah Mohammad Reza Pahlavi na celebração de fim de ano
Relações estreitas: Xá Mohammad Reza Pahlavi com o presidente dos EUA Jimmy CarterFoto: AP Photo/picture alliance

Nos Estados Unidos, outra memória prevalece: a crise dos reféns de 1979-81. A 4 de novembro de 1979, estudantes alinhados com a ideologia de Khomeini invadiram a embaixada americana em Teerão e fizeram 66 reféns. Exigiam a extradição do xá, então no exílio, e afirmavam querer evitar um novo golpe apoiado por estrangeiros, como o de 1953.

Para muitos americanos, a tomada da embaixada foi um ataque ao país e uma humilhação transmitida diariamente pela televisão. Os reféns permaneceram detidos durante 444 dias; a sua libertação foi amplamente divulgada e celebrada com um desfile em Nova Iorque, deixando um impacto duradouro na opinião pública e na formulação de políticas.

Segundo Lesser, muitos dos atuais decisores em Washington — "incluindo o presidente e o seu círculo mais próximo” — formaram as suas visões nesse período. "A perceção do Irão como adversário está profundamente enraizada em certas gerações”, afirmou.

A hostilidade aumentou ainda mais com o atentado de 1983 contra o quartel dos fuzileiros navais em Beirute, quando a milícia Hezbollah, apoiada pelo Irão, matou mais de 200 militares americanos no Líbano. Para Lesser, "essas experiências moldaram a perceção dos EUA sobre o Irão, sobretudo os ataques terroristas atribuídos a Teerão”.

EUA Nova Iorque 1979 | Protesto contra a tomada de reféns na embaixada dos EUA em Teerão
Os diplomatas americanos foram mantidos reféns durante 444 dias – e aguardavam ansiosamente o regresso a casaFoto: ZUMA/IMAGO

Medo nuclear e diplomacia falhada

Após a revolução de 1979, o sentimento antiamericano no Irão era forte. Mas, segundo Shiraghei, essa intensidade diminuiu mais rapidamente do que sugere a propaganda oficial: "O sentimento no terreno mudava rapidamente, mesmo que as pessoas não tivessem coragem de o expressar.”

A geração que cresceu nos anos 1990 e início dos anos 2000 viveu um período marcado por tentativas de abertura política. Apoiaram líderes reformistas e, por algum tempo, acreditaram na possibilidade de mudança. "A minha geração reconhecia os aspetos negativos do poder americano, mas questionava se tanta hostilidade era necessária”, afirma Shiraghei.

Ao nível político, houve momentos de cooperação, especialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001. Segundo Lesser, havia convergência em temas como o combate ao fundamentalismo sunita e à Al-Qaeda, bem como na segurança energética. No entanto, estas aproximações raramente sobreviveram a mudanças de liderança.

No Irão, o movimento reformista enfrentou resistência dos setores mais conservadores e as expectativas de mudança esmoreceram. Já nos EUA, o receio de que Teerão desenvolvesse armas nucleares tornou-se central no início dos anos 2000. Washington suspeitava de um programa militar; o Irão insistia que apenas perseguia fins civis.

USA Ian Lesser 2017
Ian Lesser é especialista em política externa dos EUA e assuntos do Oriente Médio.Foto: Samuel Corum/AA/picture alliance

Estas desconfianças conduziram a anos de sanções, pressão e ameaças, alimentando um ciclo de escalada. A diplomacia resultou no acordo nuclear de 2015, que limitava o enriquecimento de urânio em troca de alívio de sanções. No entanto, críticos nos EUA consideraram o acordo limitado e temporário. A retirada americana em 2018 aprofundou novamente a desconfiança.

Após o colapso do acordo, as negociações voltaram a bloquear. O Irão expandiu o seu programa nuclear, enquanto os EUA reforçaram as sanções. Em junho de 2025, Washington iniciou bombardeamentos contra instalações nucleares iranianas. Ataques conjuntos dos EUA e de Israel que mataram o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, assinalaram o início da guerra de 2026.

Ainda assim, Lesser considera que uma reaproximação continua possível: "A mudança geracional poderá ter um efeito positivo. Grande parte da sociedade iraniana, sobretudo os jovens, já não está disposta a apoiar este regime.” Shiraghei acrescenta que o "sonho americano”, difundido através de filmes e da internet, continua a influenciar as gerações mais novas apesar das restrições. Mesmo em contexto de guerra, diz, o sentimento antiamericano entre os jovens permanece limitado: "Não procuram um inimigo fora. O inimigo está dentro."

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