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Gana: Mineração ilegal torna-se forte ameaça

Cai Nebe
7 de novembro de 2025

Extração ilegal de ouro tornou-se um problema sério para o meio ambiente, mas também para economia do Gana. Garimpeiros ocupam extensas antes usadas para a produção do cacau - uma das principais culturas de rendimento.

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Ghana Kibi 2017 | Illegaler Goldschürfer wäscht Erde auf der Suche nach Gold
Foto: Cristina Aldehuela/AFP/Getty Images

A mineração de ouro tem uma longa história na África Ocidental. Países como o Gana dependem deste recurso para sustentar as suas economias. Mas hoje, grande parte do ouro extraído desaparece em mercados informais, sem controlo nem rastreio do Estado.

O problema agravou-se com a subida dos preços das matérias-primas e os efeitos das alterações climáticas. Isso impulsionou o chamado galamsey, como é designada localmente a mineração artesanal ilegal. Estima-se que mais de um milhão de ganenses praticam o garimpo ilegal.

Awula Serwaa, cofundadora da Eco-Conscious Citizens, é contra a atividade e justifica: "No Gana, enfrentamos o que eu chamo de ameaça existencial. A nossa água não é segura. A nossa comida não é segura. Estão a destruir as nossas florestas e terras agrícolas”.

No país, a mineração ilegal já não é feita com ferramentas simples. Hoje, os garimpeiros usam máquinas pesadas e deixam enormes buracos abertos e perigosos, conta Awula Serwaa.

"Temos tido muitas pessoas, crianças e adultos, que caem em buracos abertos deixados por mineiros irresponsáveis e morrem afogadas”, relata. 

Gana Kibi 2017 | Garimpeiro ilegal examina o solo em busca de vestígios de ouro.
Um Galamseyer, ou garimpeiro ilegal, recolhe terra para verificar se existem partículas de ouro na região de KibiFoto: Cristina Aldehuela/AFP/Getty Images

Mão de obra local excluída

Apesar dos riscos, a mineração pode ter um efeito estabilizador, reduzindo a criminalidade. No distrito de Talensi, no nordeste do Gana, junto à fronteira com o Burquina Faso, a DW ouviu quem vive desta atividade.

"Há muito desemprego na comunidade”, lamenta um morador.

A migração é uma das alternativas, conta outro morador: "A maioria dos meus amigos foi-se embora. Mas eu não quero sofrer noutra comunidade. Aqui posso encontrar ouro”.

"As concessões foram dadas a uma empresa chinesa. Eles nem contratam pessoas de Talensi. Contratam do sul. Temos famílias e propinas escolares para pagar”, queixa-se outro morador do distrito. 

cacau, principal produto agrícola do Gana, também está a ser afetado. Mesmo com o aumento de mais de 60% no preço por tonelada, muitos agricultores vendem as suas terras aos garimpeiros.

Lucia Bird, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), publicou recentemente um relatório que detalha os perigos da mineração ilegal, e diz que "as alterações climáticas estão a reduzir os rendimentos agrícolas, especialmente no norte do Gana.”

A ativista Awula Serwaa endurece o tom contra os garimpeiros: "Chamo-os de terroristas, porque mesmo em tempo de guerra, quando se envenena a água, é um crime de guerra”.

Ela acredita que falta vontade política para controlar o boom da mineração artesanal e que as autoridades são cúmplices.

Solomon Kusi - especialista em recursos naturais concorda e acrescenta que "as forças de segurança precisam de proteger os cursos de água. São áreas muito sensíveis”.

Ghana Kibi 2017 | Garimpeiros ilegais procuram ouro numa jangada
O garimpo ilegal polui o ambiente tornando, por exemplo, a água imprópria para consumo Foto: Cristina Aldehuela/AFP/Getty Images

Financiamento ao extremismo 

A mineração ilegal também está ligada a grupos armados. Na tríplice fronteira entre o Gana, a Costa do Marfim e o Burquina Faso, a extração de ouro serve para financiar grupos extremistas, denuncia Lucia Bird: "Esses grupos cobram taxas aos mineiros em troca de segurança. O ouro vai para o norte, o dinheiro vem do sul. Isso facilita a infiltração”.

A falta de fiscalização e controlo faz com que o Governo perca receitas fiscais, segundo Solomon Kusi Ampofo, especialista em recursos naturais.

"Os pequenos mineiros deveriam pagar 5% de royalties e 1,5% na exportação. Mas isso não acontece. O Governo arrecada pouco e o impacto ambiental é enorme”, lamenta.

A mineração ilegal de ouro está longe de ser apenas um problema ambiental. É uma ameaça à economia, à segurança e à vida das comunidades da África Ocidental.

Gana: Promover a exploração sustentável de ouro