"Indústria não cresce sem investimento em infraestrutura"
22 de novembro de 2025
A poucos dias da Cimeira União Africana-União Europeia, que começa na próxima segunda-feira (24.11) em Luanda, a Embaixada da China em Angola e a Universidade Católica de Angola organizaram um debate sobre "Sistema Industrial Moderno e Desenvolvimento de Alta Qualidade", inserido no sétimo Encontro Anual sobre o Desenvolvimento Sustentável da China. O encontro reacendeu a discussão sobre o caminho que Angola deve seguir na sua industrialização.
Especialistas defendem que o país não deve ser empurrado para escolher um único parceiro.
Para o político e académico Jardo Muekalia, a experiência da China pode oferecer lições importantes para a realidade angolana:
"A China fez um caminho que é por todos conhecido. Conseguiram ultrapassar questões da pobreza e, num curto período de tempo, tornaram-se um país industrializado. O que acho ser positivo aqui é que existe uma experiência da qual podemos tirar lições e também podemos encontrar formas de engajar a nossa caminhada. Não temos de reinventar a roda”, afirmou Muekalia.
China vs União Europeia
As propostas de cooperação revelam estratégias distintas. A China apostaem grandes financiamentos e projetos de infraestrutura através do FOCAC e da iniciativa "Cinturão e Rota”, prometendo mais de 50 mil milhões de dólares sem condicionantes políticas. Já a União Europeia, com a estratégia Global Gateway, prevê 150 mil milhões de euros, condicionados ao cumprimento de critérios de governação e sustentabilidade. As duas potências disputam influência no continente africano.
Na opinião de Muekalia, a melhor opção é combinar as duas, "porque há-de haver sempre algo positivo nos dois modelos. Portanto, não penso que devemos estar muito interessados em selecionar ou excluir uma delas, mas ir buscar, em cada uma delas, o que nos interessa. Isso parte da identificação das nossas necessidades”, diz.
"Por que os europeus despertaram agora?"
Para o economista Alves da Rocha, diretor do Centro de Investigação Científica da Universidade Católica, a recente onda de cimeiras entre o Ocidente e África é uma reação direta ao avanço da China.
"De repente, todos se apressaram a organizar cimeiras, como a de Angola–Estados Unidos e a da União Europeia–União Africana. Por que os europeus despertaram agora? Isso deve-se, certamente, ao receio da crescente influência chinesa em África".
Segundo Alves da Rocha, "para que isso seja efetivo em Angola, precisamos de uma mudança de mentalidade e de uma estratégia de longo prazo. A indústria angolana não vai crescer sem o investimento em infraestrutura, que é a base de qualquer economia forte".
Da Rocha defende ainda que Angola se deve inspirar na estratégia industrial chinesa para superar a dependência do petróleo.
"A indústria angolana não vai crescer sem investimento em infraestrutura. É a base de qualquer economia forte. Mas isso exige mudança de mentalidade e uma estratégia de longo prazo.”
49 chefes de Estado em Luanda
A 7.ª Cimeira União Africana–União Europeia decorre em Luanda nos dias 24 e 25 de novembro, num momento que marca também os 25 anos da parceria entre os dois blocos e o jubileu da independência angolana. São esperados 49 chefes de Estado e de Governo africanos e 27 líderes europeus,incluindo António Costa e Ursula von der Leyen.
A embaixadora da União Europeia em Angola, Rosário Bento Pais, afirma que as prioridades do bloco europeu convergem com as do Governo angolano, sobretudo na diversificação económica.
Segundo Rosário Bento Pais, "o investimento em infraestruturas é, realmente, neste momento, uma prioridade da União Europeia, com a estratégia Global Gateway, e onde Angola tem exatamente um dos maiores flagship dos corredores, que são 12 no continente africano, onde Angola tem um dos corredores mais importantes.”
O porta-voz da cimeira, o embaixador Jorge Cardoso, frisa que o encontro deverá abrir portas para novas formas de cooperação.
"Vai naturalmente fazer a abordagem e análise do progresso feito e vai, igualmente, lançar as bases de uma cooperação reforçada para os próximos três anos, entre 2025 e 2027", entende.