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Julgamento de Machar agrava crise política no Sudão do Sul

Isaac Mugabi
27 de setembro de 2025

O vice-presidente do Sudão do Sul, Machar, enfrenta julgamento por homicídio e traição, gerando receios de nova guerra civil e instabilidade política. A sociedade civil exige transparência e supervisão internacional.

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O líder da oposição do Sudão do Sul e ex-vice-presidente Riek Machar senta-se no banco dos réus durante a terceira sessão do seu julgamento no Freedom Hall, em Juba, em 24 de setembro de 2025
Riek Machar enfrenta graves acusações - homicídio, traição e crimes contra a humanidade - relacionadas com confrontos violentos em Nasir, no início deste ano, envolvendo a milícia do Exército Branco, dominada pelos NuerFoto: Peter Louis Gume/AFP

O julgamento do primeiro vice-presidente do Sudão do Sul, Riek Machar, reacendeu as preocupações sobre a fragilidade da paz no país e o futuro do seu governo de unidade. Machar, que está em prisão domiciliária desde março, fez uma rara aparição pública esta semana numa sessão especial do tribunal em Juba, acompanhado de 20 co-arguidos, entre os quais se encontra o ministro do Petróleo, Puot Kang Chol.

Riek Machar enfrenta graves acusações - homicídio, traição e crimes contra a humanidade - relacionadas com confrontos violentos em Nasir, no início deste ano, envolvendo a milícia do Exército Branco, dominada pelos Nuer.

Riek Machar
Com as eleições presidenciais repetidamente adiadas, o julgamento ameaça comprometer o processo de paz e desestabilizar o país antes das eleições previstas para 2026Foto: Samir Bol/REUTERS

No início deste mês, o Presidente Salva Kiir suspendeu Machar por decreto, alegando preocupações de segurança nacional. Esta decisão levou ao colapso do governo de unidade do Sudão do Sul estabelecido no Acordo de Paz de 2018.

Apelos por transparência

Omara Joseph, responsável pela defesa e proteção na Rede de Defesa dos Direitos Humanos do Sudão do Sul, declarou à DW que a detenção de Riek Machar tem um significado tanto simbólico como prático.

"É um gesto de que o Sudão do Sul também pode avançar no sentido da responsabilização", afirmou Omara, reconhecendo as dificuldades históricas do país em matéria de justiça institucional.

No entanto, criticou a decisão do Governo de limitar o acesso dos meios de comunicação ao julgamento, que decorreu num espaço habitualmente utilizado para casamentos e concertos.

"Este é o momento em que precisamos que os atores internacionais exerçam pressão, porque o mundo precisa saber exatamente o que está a acontecer neste julgamento", acrescentou. "Por que razão é que os meios de comunicação são impedidos de aceder e apenas é permitido o canal estatal?", questionou.

Perseguição política?

Observadores alertam que tais restrições podem reforçar a perceção de que o julgamento é politicamente motivado e pouco provável de ser imparcial.

O Presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir (à esquerda), e Riek Machar
Os procedimentos também reacenderam as tensões étnicas entre a base Nuer de Machar e os apoiantes Dinka de KiirFoto: Peter Louis Gume/AFP

Os procedimentos também reacenderam as tensões étnicas entre a base Nuer de Machar e os apoiantes Dinka de Kiir. A ativista da sociedade civil Tabitha Nyantin disse à DW que os líderes do Sudão do Sul devem dar prioridade à unidade nacional.

"Temos muitas etnias neste país, e os líderes provêm de diversos grupos étnicos", afirmou. "Se não mudarem a sua mentalidade, não avançaremos como os nossos vizinhos do Quénia", apontou.

Tensões étnicas e repercussões políticas

A rivalidade entre Machar e Kiir remonta à década de 1990, quando Machar liderou uma fação dissidente acusada de trair o movimento rebelde. As suas forças estiveram envolvidas no massacre de Bor, que visou os Dinka, aprofundando ainda mais a desconfiança entre ambos.

Embora tenham partilhado o poder num governo de unidade, os analistas afirmam que a relação entre Machar e Kiir continua tensa. Daniel Akech, analista sénior do International Crisis Group, disse à Associated Press que o caso contra Machar parece ser "um pretexto para uma luta pelo poder político".

Com as eleições presidenciais repetidamente adiadas, o julgamento ameaça comprometer o processo de paz e desestabilizar o país antes das eleições previstas para 2026.

O Acordo de Paz de 2018 pôs fim a uma guerra civil de cinco anos que causou mais de 400.000 mortes. Agora, com o governo de unidade em desordem, o julgamento de Machar pode anular anos de progresso e mergulhar o Sudão do Sul novamente no conflito.

À medida que o julgamento decorre, os riscos são elevados - não só para Riek Machar e seus aliados, mas para o futuro do próprio Sudão do Sul.

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