Missão da nova ministra da Educação gera dúvidas em Angola
12 de fevereiro de 2026
Até ao momento, o número real de crianças fora do sistema de ensino é desconhecido. O Presidente da República de Angola, João Lourenço, fala apenas em "taxa elevada" e não revela dados concretos.
Faltam poucos meses para o fim do mandato do Executivo de Lourenço e é neste período pré-eleitoral que o chefe de Estado atribuiu à nova titular da pasta a tarefa de integrar todas as crianças no sistema escolar.
O próprio Presidente reconhece a insuficiência de escolas no país. Paralelamente, Erika Aires deverá ainda melhorar a qualidade do ensino, preocupação partilhada por toda a sociedade angolana.
Ao discursar na cerimónia de passagem de pasta, na quarta-feira (11.02), Erika Aires - que substitui Luísa Grilo após seis anos à frente do Ministério - apontou como prioridades o acesso ao ensino e o recrutamento de novos professores.
"Sabemos que os desafios são muitos. Mas entre as nossas prioridades, destacamos o alargamento ao acesso ao ensino. Principalmente ao ensino primário. A melhoria das infraestruturas escolares, o reforço da contratação de professores e a valorização contínua dos profissionais da educação", declarou.
"Não se fazem milagres da noite para o dia"
Ademar Jinguma, secretário-geral do Sindicato Nacional dos Professores (SINPROF), não acredita que esta missão será cumprida: "Não sei se a ministra conseguirá em ano e meio, fazer aquilo que o próprio Presidente João Lourenço não fez em oito anos, porque, como a própria nova ministra sublinhou na sua entrevista, ela é uma mera auxiliar."
"Embora o Presidente João Lourenço lhe tenha dado liberdade para bater a porta do seu gabinete para puder expor as preocupações, mas na educação não se fazem milagres da noite para o dia", destaca Jinguma.
Para o sindicato, o elevado número de crianças fora da escola não está relacionado com o crescimento acelerado da população, como referiu o Presidente. O problema reside na incapacidade do Governo em responder às necessidades do setor.
Angola precisa de dez mil escolas novas
Ademar Jinguma sublinha que o país necessita de dez mil novas escolas, mas em dois mandatos o Executivo não conseguiu construir sequer metade desse número.
"Nestes dois mandatos, o Presidente João Lourenço não constituiu se quer duas mil escolas. Alguém mesmo acredita que quem não conseguiu construir duas mil escolas em oito anos, vai construir mais duas mil escolas em um ano e meio? Não vai conseguir porque esta ministra encontra um orçamento já em execução e é um orçamento irrisório como os outros", considera.
Para o líder do Movimento dos Estudantes Angolanos (MEA), Simão Formiga, inserir todas as crianças no sistema de ensino é uma "missão impossível" atribuída à ministra Erika Aires. "O mandato do Presidente termina já no próximo ano e não é possível que esta ministra consiga já consiga incluir mais de quatro milhões de crianças dentro do sistema de ensino no próximo ano. É impossível", argumenta o líder do MEA.
"A inclusão destas crianças no sistema de ensino pressupõe a construção de mais escolas. Temos escassez de escolas a nível nacional. Pressupõe a contratação de mais professores. Angola carece de mais de 78 mil professores no sistema de ensino", lembra Simão Formiga.
Combater a pobreza primeiro
Segundo o líder do MEA, há escolas que descontinuaram cursos por falta de docentes. Algumas unidades nem sequer dispõem de professores de Matemática e Língua Portuguesa.
O presidente do movimento sublinha que, para retirar crianças da marginalidade escolar, é preciso antes combater a pobreza. "Há muitas crianças que estão fora do sistema de ensino por causa da pobreza no seio da família. Preferem ir engraxar sapatos para conseguir alimentos para família do ficar na escola a estudar. O Governo insiste em colocar uma criança a estudar das 7 até às 12h, sem dar água para beber, sem dar alimentação escolar à criança. Praticamente o Presidente deu à nova ministra uma missão impossível de se realizar", considera.
O recém-eleito presidente do MEA, que substituiu Francisco Teixeira, tem como prioridade no seu programa trabalhar continuamente com os estudantes da educação especial. Simão Formiga defende que a ministra da Educação direcione esforços para os alunos com deficiência visual e auditiva, que enfrentam dificuldades de várias ordens.
Tal como o MEA, também o SINPROF espera que a nova ministra esteja aberta ao diálogo com os parceiros sociais do setor da Educação.