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Moçambique: Mais deslocados e sistema de saúde sob pressão

13 de dezembro de 2025

Médicos Sem Fronteiras denuncia falta de atenção internacional à violência no norte de Moçambique, um fator que, segundo a organização, agrava o impacto humanitário e deixa as comunidades ainda mais expostas.

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Médicos sem Fronteiras em Cabo Delgado
Agravamento da violência no norte de Moçambique impacta sistema de saúde com tratamentos interrompidos e mais partos em casa (arquivo)Foto: Marília Gurgel/MSF

A organização de ajuda humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta para o agravamento da violência em Cabo Delgado e Nampula desde julho, que já forçou a fuga de mais de 100 mil pessoas.

O sistema de saúde, já debilitado, está sob forte pressão, com tratamentos interrompidos e mais partos em casa.

Entre janeiro e junho, a MSF registou 107 mil consultas e 5 mil partos assistidos. Só em Cabo Delgado, até julho, contabilizou quase 100 mil consultas, 45 mil casos de malária e 12 mil infeções respiratórias.

À DW, Sofia Minetto, gestora de Comunicação da Médicos Sem Fronteiras em Moçambique, denuncia a falta de atenção internacional à violência armada, um fator que, sublinha, agrava o impacto humanitário e deixa as comunidades ainda mais expostas.

DW África: O ano de 2025 já caminha para o fim. Como é que, enquanto organização que atua no terreno, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) olha para a violência no norte de Moçambique?

Sofia Minetto (SM): Em 2025, especialmente nesta última parte do ano, a partir do fim de julho, temos vindo a verificar que a violência no norte de Moçambique está a intensificar-se, com níveis de deslocamentos e frequências de ataques que não se viam há bastante tempo. E esse agravamento causa, como sabemos, essas vagas de deslocamentos como a que está a acontecer em Nampula. Creio que é a terceira vaga de deslocamento que se verifica desde julho e, para já, parece ser a maior com mais de 100.000 pessoas deslocadas, que tiveram que fugir das próprias casas. 

DW África: Que impacto tem o agravamento da violência no acesso aos cuidados de saúde tanto em Cabo Delgado como em Nampula?

SM: Nós, como Médicos Sem Fronteiras, podemos dizer que a violência continua a perturbar o acesso aos cuidados de saúde num sistema de saúde que já estava bastante enfraquecido antes da violência começar. Por exemplo, há pessoas que perdem acesso a alguns cuidados de saúde. Pessoas que estavam a seguir algum tratamento - doentes crónicos, por exemplo -, que têm de ser acompanhadas regularmente e que quando fogem para outros locais que consideram mais seguros não conseguimos saber se têm condições de continuar com os tratamentos. Também estamos a ver, por exemplo, mais partos domiciliares, em casa, nas comunidades, o que traz mais complicações. Então, isso leva-nos a ter algumas preocupações no âmbito da saúde materno-infantil também, seja para a mãe, seja para a criança.

DW África: Segundo um comunicado recente da Médicos Sem Fronteiras, a crise no norte de Moçambique permanece fora do foco internacional. Que consequências isso traz para as populações afetadas e para os atores humanitários?

SM: Claramente isso faz com que haja menos atenção para Moçambique e para Cabo Delgado em particular. Também há uma falta de cobertura mediática consistente. Essa falta de cobertura mediática acaba por ofuscar a crise de Cabo Delgado em comparação com outras crises globais, que também têm dados alarmantes, números muito altos de mortos e feridos. Também devido à complexidade do conflito torna-se difícil para a comunidade internacional abordar a situação, abordar o contexto de forma eficaz e, em geral, isso faz com que haja uma ausência de pressão significativa por parte de países ou organizações que têm muita influência.

DW África: Que medidas urgentes precisam ser tomadas para evitar o colapso total do sistema de saúde e reduzir o impacto psicológico e físico sobre as populações deslocadas?

SM: Precisamos abordar esta falta de pessoal de saúde e garantir formação e recursos para esses profissionais. Também acelerar a reabilitação das infraestruturas de saúde, porque há ainda instalações que não estão a funcionar a 100% ou funcionam apenas em estruturas temporárias. Então, isso também tem um impacto no acesso das comunidades a esses serviços de saúde. Além disso, seria bom fortalecer as cadeias de abastecimento para evitar rupturas de estoques de suprimentos médicos, especialmente quando se trata de medicamentos essenciais para a tuberculose e para HIV, que as pessoas têm que tomar regularmente.

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