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ONU: Quatro candidatos à sucessão de Guterres

23 de abril de 2026

Quem será o próximo secretário‑geral das Nações Unidas: o senegalês Macky Sall, a chilena Michelle Bachelet, a costa‑riquenha Rebeca Grynspan ou o argentino Rafael Grossi? As audições dos quatro candidatos já começaram.

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Rebeca Grynspan, Rafael Grossi, Macky Sall, Michelle Bachelet: os quatro candidatos ao cargo de secretário‑geral das Nações Unidas
 Rebeca Grynspan, Rafael Grossi, Macky Sall, Michelle Bachelet: um destes candidatos será o próximo líder da ONUFoto: KEYSTONE/EuropaNewswire/Sipa USA/AA/ZUMApicture alliance

Na terça‑feira (21.04) tiveram início as audições dos quatro candidatos na corrida à sucessão de António Guterres no cargo de secretário‑geral das Nações Unidas. Um deles irá assumir, a partir do início de 2027, a liderança de uma organização internacional mergulhada numa profunda crise.

Na corrida estão o senegalês Macky Sall, a chilena Michelle Bachelet, a costa‑riquenha Rebeca Grynspan e o argentino Rafael Grossi. 

Macky Sall

O antigo Presidente do Senegal (2012‑2024), geólogo de formação, é o único candidato que não é oriundo da América Latina. Insiste na ligação intrínseca entre paz e desenvolvimento, sublinhando que a paz não pode ser "duradoura" quando o desenvolvimento é minado pela pobreza, pelas desigualdades, pela exclusão e pela vulnerabilidade climática.

A sua candidatura à ONU, apresentada pelo Burundi - que detém a presidência rotativa da União Africana (UA) -, não é apoiada nem pelo bloco regional, no qual 20 dos 55 Estados‑membros se opuseram, nem pelo seu próprio país, o Senegal.

As atuais autoridades senegalesas acusam‑no de ter reprimido manifestações políticas, violência que provocou dezenas de mortos entre 2021 e 2024. Esta falta de apoio no seio do continente constitui um sério obstáculo à sua candidatura.

Michelle Bachelet

Com 74 anos, a socialista, que foi torturada nas prisões do regime militar de Augusto Pinochet, foi a primeira mulher Presidente do Chile (2006‑2010 e 2014‑2018), tornando‑se uma figura política de relevo internacional.

A sua passagem pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (2016‑2022) valeu‑lhe algumas animosidades. A China criticou duramente a publicação de um relatório severo sobre a situação da minoria uigure.

Na carta em que expõe a sua visão como secretária‑geral, Michelle Bachelet afirma estar "convencida” de que a sua experiência a "preparou para enfrentar" uma época em que o sistema internacional enfrenta desafios "de uma dimensão, urgência e complexidade sem precedentes". A sua candidatura é apoiada pelo México e pelo Brasil.

O Chile retirou‑lhe o apoio após a tomada de posse do novo Presidente de extrema‑direita, José Antonio Kast. Bachelet foi ainda alvo de críticas de setores conservadores norte‑americanos devido às suas posições a favor do direito ao aborto, tendo o enviado dos EUA junto da ONU levantado dúvidas sobre a sua aptidão para o cargo.

Um africano na liderança da ONU?

Rebeca Grynspan

A antiga vice‑presidente da Costa Rica, pouco conhecida do grande público, dirige atualmente a agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED). Nesse contexto, negociou em 2022 com Moscovo e Kiev a "Iniciativa do Mar Negro", destinada a facilitar a exportação de cereais ucranianos após a invasão russa.

Com base na sua história pessoal - é filha de pais judeus que sobreviveram ao Holocausto antes de emigrar para a Costa Rica -, destaca o seu apego à Carta das Nações Unidas, fundada nas cinzas da II Guerra Mundial, que descreve como "um aviso permanente contra os perigos da desumanização, da desconfiança e da fragmentação".

Rafael Grossi

Diplomata de carreira, o argentino de 65 anos ganhou projeção internacional ao assumir, em 2019, a direção da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

Nesse cargo, tem lidado com dossiers sensíveis como o programa nuclear iraniano e os riscos associados à central nuclear ucraniana de Zaporíjia, ocupada pelas forças russas - dois temas centrais que envolvem membros permanentes do Conselho de Segurança.

Na sua carta de candidatura, defende um "regresso da ONU às suas bases fundadoras: salvar a humanidade do flagelo da guerra". Um discurso apoiado pela administração Trump, embora outros Estados sublinhem a importância do equilíbrio entre os três pilares da ONU: paz, direitos humanos e desenvolvimento. Rafael Grossi, pai de oito filhos, fala inglês, espanhol, francês e italiano.

África exige assentos permanentes e direito de veto na ONU

Decisão final cabe ao Conselho de Segurança

O cargo de secretário‑geral da ONU é tradicionalmente atribuído segundo um princípio de rotatividade regional, embora essa regra nem sempre seja respeitada, como aconteceu em 2016, quando o português António Guterres foi eleito, apesar de ser a vez da Europa de Leste. A próxima região na lista é a América Latina.

Nenhuma mulher ocupou até hoje o cargo de secretária‑geral nos 80 anos de história da ONU e muitos Estados defendem que chegou o momento de uma mulher liderar a organização.

A América Latina reivindica o cargo com base na tradição da rotação geográfica. No entanto, o poder decisivo pertence aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França -, todos com direito de veto.

O próximo secretário‑geral deverá estar alinhado com "os valores e interesses americanos”, avisou o embaixador dos EUA, Mike Waltz. Os quatro candidatos oficiais à liderança da ONU sublinham a necessidade de reconstruir a confiança numa organização fragilizada e à beira de uma crise financeira.

Um candidato deve ser proposto por um Estado‑membro da ONU. Uma regra tácita determina que o secretário‑geral nunca seja oriundo de um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, para evitar uma concentração excessiva de poder.

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