Que desafios aguardam o próximo Presidente do Malawi?
26 de setembro de 2025
Peter Mutharika regressou à cena política, destituindo o Presidente em funções Lazarus Chakwera numa vitória eleitoral decisiva no Malawi. Ao contrário de Chakwera, a campanha de Mutharika atraiu multidões modestas, mas garantiu uma margem de vitória significativa, refletindo o descontentamento generalizado devido aos cinco anos de dificuldades económicas.
Peter Mutharika nasceu a 18 de julho de 1940, no distrito de Thyolo, no sul do Malawi. É um distinto académico nas áreas de direito económico internacional, direito internacional e direito constitucional comparado, tendo ensinado em universidades de África, Europa e Estados Unidos.
Mutharika aconselhou o seu irmão, o Presidente Bingu wa Mutharika, sobre políticas internas e externas até à sua morte em 2012. Mais tarde, ocupou cargos ministeriais antes de ser eleito Presidente do Malawi em maio de 2014, cargo que ocupou até junho de 2020.
A candidatura de Mutharika em 2025 baseou-se em promessas de reformas para estabilizar as finanças, fortalecer as instituições e criar um quadro jurídico mais robusto para a descentralização.
"Chakwera falhou na gestão da economia perante choques internos e externos, o que levou a uma elevada inflação. Nenhum governo sobrevive a tal situação porque afeta o nível de vida das pessoas", disse Kingsley Jassi, jornalista de negócios do conglomerado indiano The Times Group.
Pobreza em ascensão
Kingsley Jassi afirmou que a pobreza aumentou de 50,7% para cerca de 77% nos últimos cinco anos, enquanto a inflação disparou de 9,9% para mais de 30% ao ano. O Banco de Reserva do Malawi reportou uma taxa de inflação homóloga de 28,2% em agosto.
O jornalista atribuiu o colapso económico ao excesso de gastos e à escassez de alimentos. "Quando um governo gasta mais do que a economia gera, as reservas estrangeiras diminuem, o kwacha [moeda malawiana] enfraquece, os custos das importações aumentam e a inflação dispara. A insegurança alimentar agravou-se devido a políticas de produção inadequadas, que limitaram a produtividade agrícola", disse à DW.
O secretário de comunicação da Associação de Ciências Políticas do Malawi, Mavuto Bamusi, acrescentou que a corrupção e a má gestão, especialmente na aquisição de medicamentos e na construção, enfraqueceram ainda mais a liderança de Chakwera.
À medida que os malawianos olham para o futuro, Bamusi disse que Mutharika terá de restaurar a disciplina fiscal, implementar medidas de austeridade e cortar despesas desnecessárias.
Cidadãos querem políticas decisivas
O reverendo Francis Mkandawire, secretário-geral da Associação Evangélica do Malawi, ecoou estas preocupações, dizendo à DW que os cidadãos exigem, sobretudo, alívio económico. "As pessoas querem políticas decisivas que atenuem as dificuldades dos últimos anos. A eleição foi sobre a economia e, se o novo presidente não agir, os cidadãos voltarão a manifestar-se", afirmou.
Os malawianos comuns, no entanto, mantêm um otimismo cauteloso. Thokozani Banda, mãe de três filhos de Lilongwe, disse: "Isto não é um alívio só porque entra um novo governo. Quero mudança real. Quero que o custo de vida estabilize. A vida tem sido insuportável".
Anne Machesi, comerciante de pequena escala em Lilongwe, acrescentou: "Promessas não são suficientes. Gerir um pequeno negócio é quase impossível com os preços a subirem semanalmente. Precisamos de soluções que tornem os alimentos e bens básicos acessíveis".
O comentador político Chimwemwe Tsitsi, professor na Universidade de Negócios e Ciências Aplicadas do Malawi (MUBAS), observou: "Mutharika pode liderar nos resultados não oficiais, mas uma segunda volta ainda é possível. Independentemente de quem vencer, os desafios económicos como a escassez de combustível, a falta de moeda estrangeira e a elevada inflação persistirão por algum tempo". Afirmou que uma mudança de liderança pode melhorar a perceção pública, mas o que os malawianos realmente precisam são soluções concretas.
Durante a sua campanha, o manifesto de Chakwera focou-se em cinco pilares: segurança alimentar, criação de emprego, criação de riqueza, reforma da governação e melhoria na prestação de serviços públicos. Em contraste, Mutharika prometeu reformas para garantir sustentabilidade financeira, colmatar lacunas de capacidade e apoiar a descentralização através de um quadro jurídico mais robusto.
Malawianos pedem mudança
Para muitos, estas eleições foram um referendo à gestão económica. Uma empresária de comércio transfronteiriço, que preferiu manter o anonimato, expressou frustração com as dificuldades de fazer negócios no Malawi, o que influenciou o seu voto em Mutharika. "Durante a era do DPP [Partido Progressista Democrático], conseguíamos trabalhar sem problemas com a troca de moeda estrangeira. Não tínhamos dificuldades em viajar para a África do Sul em viagens de negócios", apontou. Embora o sistema não fosse perfeito, reconhece que fazer negócios era viável.
A era do DPP no Malawi refere-se ao período em que o Partido Progressista Democrático, liderado por Bingu wa Mutharika e mais tarde por Peter Mutharika, governou o país entre 2004 e 2012, e novamente entre 2014 e 2020, moldando as políticas económicas e de governação.
A empresária sublinhou que a sua decisão foi motivada pelo desejo de estabilidade económica e pela capacidade de realizar comércio transfronteiriço sem entraves.
A vitória de Mutharika representa não apenas um regresso político, mas também as elevadas expectativas de uma população desesperada por alívio face à crise económica. O desafio que se impõe será transformar promessas em ações concretas e estabilizar a economia, de forma a restaurar a esperança e os meios de subsistência dos malawianos comuns.