Sudão: Situação humanitária é a 'pior crise' de 2025
29 de dezembro de 2025
Ao longo de 2025, a situação agravou-se, apesar de a guerra durar desde abril de 2023. O conflito entre o Exército e as Forças de Apoio Rápido transformou o Sudão naquela que a ONU descreve como a maior crise humanitária e de deslocação do mundo.
À DW, Philippe Dam, diretor de advocacy da Human Rights Watch (HRW), alerta que civis estão a ser atacados por ambos os lados do conflito e sublinha a urgência de a comunidade internacional agir e responsabilizar os autores.
"A realidade é que ambas as partes no conflito e os seus aliados não só falharam em proteger os civis, como o ataque deliberado a civis está no centro da sua forma de fazer a guerra", denuncia.
E o colaborador da HRW defende ainda "a necessidade urgente de a comunidade internacional levar a situação no Sudão a sério e de enfrentar os crimes que continuam a ser cometidos".
Os combates concentram-se agora em Kordofan, região estratégica que separa as áreas controladas pelo Exército, incluindo Cartum, dos territórios sob controlo das forças paramilitares em Darfur e no sul do país.
Prisões arbitrárias
Philippe Dam denuncia também que civis e trabalhadores humanitários estão a ser presos arbitrariamente, revelando que "as próprias Forças Armadas do Sudão cometeram graves violações contra civis, nomeadamente através do bombardeamento de zonas civis densamente povoadas".
"Mas, desde a reconquista do centro do Sudão, de Cartum e do resto da área metropolitana, assistimos a um aumento significativo das detenções em massa, dos assassinatos de civis e das represálias contra qualquer pessoa suspeita de ter colaborado ou apoiado as Forças de Apoio Rápido", acrescenta.
Infelizmente, estas ações parecem ser extremamente arbitrárias, uma vez que entre os visados se encontram também trabalhadores humanitários, pessoas que estavam a fornecer alimentos e apoio essencial às populações civis.
Segundo as Nações Unidas, cerca de 14 milhões de pessoas continuam deslocadas no Sudão e nos países vizinhos. As estimativas de mortos variam entre 40 mil e 250 mil.
Em dezembro, a União Europeia (UE) iniciou o transporte aéreo das primeiras partes de 100 toneladas de ajuda humanitária para Darfur. A ponte aérea, no valor de 3,5 milhões de euros, termina em janeiro, com o financiamento do orçamento humanitário da UE.
Apoio insuficiente
No entanto, Jan Friedrich-Rust, diretor executivo da secção alemã da ONG Ação Contra a Fome (Action Against Hunger), alerta que se trata apenas de uma gota no oceano: "As necessidades de ajuda são enormes, mas até agora apenas 35% dos recursos financeiros necessários para a ajuda humanitária foram disponibilizados".
E Friedrich-Rust aponta as consequências: "Programas que salvam vidas estão a ser encerrados, cozinhas comunitárias locais estão a fechar e milhões de pessoas perdem a sua última fonte de alimentação".
"O encerramento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foi um ponto de rutura. Com os Estados Unidos, perdeu-se o maior doador. Mas também os países europeus, incluindo a Alemanha, reduziram drasticamente os seus financiamentos, apesar de as necessidades terem aumentado de forma significativa”, recorda o diretor executivo da secção alemã da ONG Ação Contra a Fome.
A situação no Sudão é crítica: quase metade da população, cerca de 21 milhões, enfrenta insegurança alimentar aguda, segundo a Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar.
Também para Philippe Dam "a resposta da União Europeia ao conflito no Sudão continua a ser extremamente dececionante. Existe uma clara falta de liderança na resposta da UE, uma falta de interesse por parte de Kaja Kallas relativamente à situação no Sudão, e muito poucas medidas foram tomadas para responsabilizar os autores dos crimes cometidos no país".
Contude reconhece que "houve algumas sanções, o que é positivo, mas é absolutamente essencial que a UE intensifique o seu envolvimento e sancione a liderança de topo dos grupos armados responsáveis por violações graves".