Tshisekedi em Luanda para relançar processo de paz?
8 de janeiro de 2026
O Presidente da República Democrática do Congo(RDC), Félix Tshisekedi, realizou, esta semana, uma visita a Luanda, a segunda em menos de um mês.
No encontro com o seu homólogo angolano e presidente em exercício da União Africana, João Lourenço, os dois chefes de Estado discutiram a situação de segurança no leste da RDC, onde continuam os confrontos entre o exército nacional, apoiado pelas milícias wazalendo, e os rebeldes da AFC-M23,apesar do acordo de pazentre a RDC e o Ruanda assinado a 4 de dezembro, em Washington.
O conflito já envolveu a mediação de vários países, entre os quais, Quénia, Angola, Togo, Qatar e Estados Unidos.
Em entrevista à DW, Yvon Muya, investigador da Escola de Estudos sobre Conflitos da Universidade Saint-Paul, em Ottawa, no Canadá, considera que estas deslocações reforçam a importância de uma mediação africana.
A seu ver, "é lógico que Félix Tshisekedi consulte João Lourenço, que durante muito tempo foi o mediador da União Africana neste conflito".
EUA estão focados na Venezuela
Além disso, lembra o investigador, "esta visita ocorre num momento em que os Estados Unidos, principais patrocinadores do acordo de Washington, estão absorvidos por outros dossiês internacionais, nomeadamente a Venezuela. Angola volta, assim, a ser um importante elo diplomático para manter a dinâmica da mediação", considera.
No final do encontro em Luanda, Félix Tshisekedi afirmou que João Lourenço apresentou "propostas muito interessantes" para a paz na região. O Presidente congolês, citado pela Agência Angola Press (Angop), disse que o encontro foi "muito proveitoso".
As propostas apresentadas por João Lourenço "não se afastam dos processos já existentes, nomeadamente os acordos de Washington e de Doha, mas visam antes reforçar e complementar os caminhos já abertos para a paz", ressalvou.
Angola parece estar novamente envolvida na mediação deste conflito. No entanto, alguns analistas questionam a sua capacidade de obter resultados positivos, considerando os insucessos de Washington.
O politólogo Christian Moleka teme que a proliferação de canais diplomáticos possa tornar-se contraproducente e questiona: "Trata-se de um processo interno? Trata-se de acompanhar a implementação dos diferentes protocolos assinados em Doha, que deveriam ser retomados por um Estado africano? Trata-se de uma nova mediação?".
Para Moleka, "tudo depende do enquadramento que for dado a Luanda. Não será esta uma diplomacia a mais, que vem novamente complexificar as abordagens e que, a dado momento, conduzirá a uma forma de desgaste?".
Estas novas tentativas destacam o papel do diálogo africano, embora as expectativas sejam baixas, já que os Estados Unidos, com um peso estratégico superior ao dos mediadores africanos ou do Qatar, não conseguiram restabelecer a paz no leste da República Democrática do Congo.