Pode a Europa impedir Israel de invadir o Líbano?
20 de março de 2026
As potências europeias alertaram Israel contra uma ofensiva terrestre no Líbano, numa altura em que o Exército israelita admitiu estar a realizar "operações terrestres limitadas e direcionadas” no sul do país contra o Hezbollah, uma milícia e grupo político apoiado pelo Irão.
"Uma ofensiva terrestre israelita significativa teria consequências humanitárias devastadoras e poderia levar a um conflito prolongado”, lê-se numa declaração dos líderes de França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Canadá, "e deve ser evitada”.
No Líbano, cresce o receio de que incursões limitadas, dirigidas a "bastiões-chave do Hezbollah”, como referiu o Exército israelita, possam escalar para uma invasão do sul do país, região dominada pelo grupo.
Na segunda-feira (16.03), o Parlamento libanês prolongou o mandato por dois anos. As eleições, inicialmente previstas para maio deste ano, foram adiadas, por se considerar irrealista organizar uma votação nacional em contexto de guerra e deslocações em larga escala.
Apelos diplimáticos, que efeitos?
Há duas semanas, quando os EUA e Israel iniciaram bombardeamentos contra o Irão, o Hezbollah disparou contra Israel para vingar a morte do líder supremo iraniano, Ayatollah Ali Khamenei, apesar dos apelos do Governo libanês para que o país não se envolvesse na guerra entre EUA, Israel e Irão.
Os líderes europeus têm apelado ao desarmamento do Hezbollah. Agora, mostram preocupação com uma eventual crise humanitária de grandes dimensões no Líbano e com o possível impacto na Europa em caso de invasão israelita. O país enfrenta há anos uma grave crise económica.
Quais são, então, as preocupações dos líderes europeus? E que margem de manobra têm para travar o conflito?
"Temos assistido [a um ciclo de declarações] por parte dos europeus, a pedir, a implorar a Israel que não escale o conflito, que não alargue a ofensiva, seja no Líbano, em Gaza ou noutros locais. Mas raramente passa de um pedido diplomático”, afirmou Julien Barnes-Dacey, diretor do programa para o Médio Oriente e Norte de África do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR), à DW.
O problema da migração
A principal preocupação dos líderes europeus é o alargamento do conflito no Médio Oriente e a instabilidade e o caos que daí podem resultar — incluindo deslocações do Líbano e um aumento da migração para a Europa.
"Há um receio real de que este seja precisamente o tipo de situação que leva mais pessoas do Médio Oriente a fugir da região e a procurar chegar à Europa”, disse Barnes-Dacey.
Também aumentou o risco de confrontos sectários dentro do Líbano. A maioria dos deslocados das regiões libanesas sob ataque são xiitas e procuram refúgio em zonas dominadas por muçulmanos sunitas e cristãos. Estes deslocados são cada vez mais vistos como uma ameaça para os sunitas e cristãos: Hezbollah é uma milícia xiita, e a presença de potenciais apoiantes da milícia pode tornar essas áreas um alvo para ataques israelitas.
"O Exército israelita fala em avançar até, e possivelmente para além, do rio Litani e despovoar essa área”, referiu Barnes-Dacey, sobre o sul do Líbano. "Há o risco de isso alimentar conflitos internos, colocando diferentes comunidades umas contra as outras. Óbvio que a Síria, que faz fronteira com o Líbano, também enfrenta vulnerabilidades. Todos estes fatores combinados são muito preocupantes para a Europa. E óbvio que a Europa está atenta à questão da migração”, acrescenta.
Existe ainda risco para as forças de paz destacadas no sul do Líbano. Os observadores da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FINUL) já foram atingidos por fogo cruzado nos confrontos entre Israel e o Hezbollah. Estas forças também operam em zonas que Israel ordenou que os civis abandonassem.
"É inaceitável que forças de manutenção da paz, que cumprem mandatos do Conselho de Segurança, sejam alvo de ataques”, afirmou a FINUL num comunicado de 6 de março, dois dias depois de apelar à contenção de ambas as partes.
A influência económica da Europa sobre Israel
Especialistas consideram que a principal influência dos governos europeus sobre Israel reside nas relações económicas.
Poderá a União Europeia suspender parcialmente o Acordo de Associação UE-Israel e retomar discussões sobre restrições comerciais que chegaram a ser ponderadas para travar a campanha militar israelita em Gaza, em 2025?
"Claramente, a principal carta que os europeus têm evitado jogar nos últimos dois anos, no que toca a Israel, é a económica. A UE é o maior parceiro comercial de Israel. Ainda assim, a Europa nunca esteve disposta a colocar isso em cima da mesa”, afirmou Barnes-Dacey.
"Se os europeus quiserem exercer pressão real sobre Israel para não alargar esta ofensiva, terão de ponderar medidas concretas”, disse. Isto significa tomar medidas políticas e económicas que façam o país sentir pressão e isolamento internacional por prosseguir com este tipo de ofensiva”.
O que a Europa está a fazer para ajudar o Líbano
Um porta-voz da UE destacou recentemente a gravidade da crise humanitária no Líbano, indicando que até 900 mil pessoas já foram deslocadas.
Na semana passada, a União Europeia comprometeu-se a enviar ajuda ao país, durante uma videoconferência com líderes do Médio Oriente, após milhares de famílias terem fugido das suas casas em zonas dominadas pelo Hezbollah, incluindo Dahiyeh, um subúrbio da capital, Beirute.
Um porta-voz europeu disse à DW que o primeiro envio de ajuda já chegou a Beirute, proveniente de Copenhaga.
"Foram entregues materiais de assistência, como kits médicos, material para abrigo e kits recreativos para crianças”, afirmou Eva Hrncirova, porta-voz da UE.
A UE disponibilizou um pacote de ajuda de 100 milhões de euros para responder à deslocação de população libanesa e está a trabalhar com parceiros no terreno, como a UNICEF.
"O povo libanês pode contar com a União Europeia”, afirmou Hadja Lahbib, comissária europeia para a igualdade, preparação e gestão de crises.
Ainda assim, o apoio deverá limitar-se à ajuda humanitária. França, Alemanha, Itália e Reino Unido manifestaram profunda preocupação com a escalada da situação e apelaram a um "envolvimento significativo de representantes israelitas e libaneses para negociar uma solução política sustentável.
No entanto, não apresentaram qualquer estratégia ou plano para que essas negociações se materializem.