Guerra no Sudão impõe vida sombria para milhões de crianças
22 de abril de 2026
Entrando no quarto ano, a guerra no Sudão impõe uma realidade cada vez mais sombria para as crianças do país africano. O alerta é do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que contabiliza 4,3 mil crianças assassinadas ou mutiladas desde o início do conflito.
A vasta maioria das mortes de crianças resultou de ataques com drones, que se tornaram uma arma frequente no conflito. Tanto as Forças Armadas do Sudão (SAF), o Exército sediado em Cartum, quanto os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) lançam mão deles contra a infraestrutura civil, na tentativa de frear o avanço de opositores.
"Apenas nos primeiros três meses deste ano, pelo menos 245 crianças teriam sido mortas ou feridas. Trata-se de um aumento acentuado em comparação com o mesmo período do ano passado," disse Eva Hinds, porta-voz do Unicef. No total, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 700 civis tenham morrido em ataques por drones no país no mesmo período.
A maioria dos casos ocorreu nos estados de Darfur e Kordofan, onde a violência se tornou constante. Em 2022, o país era lar de estimados 21 milhões de crianças, aproximadamente metade da população.
Segundo o Unicef, os ataques são "cada vez mais indiscriminados", atingindo casas, mercados, estradas, arredores de escolas e instalações de saúde.
Além disso, os combates se espalharam por grande parte do Sudão, devastando cidades e forçando mais de 13 milhões de pessoas a se deslocarem, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 5 milhões seriam crianças, na estimativa do Unicef.
Milhões em desnutrição aguda
A sobrevivência no cenário de guerra tem impacto severo sobre os menores de idade, segundo Ashan Abeywardena, gerente de resposta emergencial na War Child, organização que apoia crianças em conflitos. "Passar por três anos de conflito teve um impacto enorme nessas crianças. O dia a dia delas é marcado por notícias de morte e destruição", destcaou.
À medida que as linhas de frente da guerra mudam e a violência se espalha, famílias inteiras são forçadas a se deslocarem repetidamente. Muitas delas vivem em instalações lotadas e sem acesso a itens básicos.
"Só neste ano, estima-se que 4,2 milhões de crianças em todo o Sudão venham a sofrer de desnutrição aguda. Mais de 825 mil delas estarão gravemente desnutridas, uma condição que pode ser fatal sem tratamento urgente," acrescentou Hinds.
Além disso, quase metade das escolas sudanesas já não servem ao propósito original – algumas foram desativadas e outras, convertidas em abrigos ou ocupadas por atores armados. Pelo menos 8 milhões de crianças, por isso, não tem hoje acesso à educação.
Desde abril de 2023, quando começou o conflito, estima-se que pelo menos 59 mil pessoas foram mortas, segundo o Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), um projeto internacional que reúne dados publicados sobre conflitos armados.
Lacuna de financiamento
O conflito no Sudão tem origem na destituição, em 2019, do ditador de longa data Omar al-Bashir. A transição política esperada foi minada pelo conflito interno entre forças diferentes que tentavam preencher o vácuo de poder.
Atualmente, o país está dividido entre o Exército, que controla grande parte das regiões norte, leste e central – incluindo os portos no Mar Vermelho e refinarias de petróleo – e as RSF, que dominam Darfur e partes da região de Kordofan, no sul e oeste do país.
Em três anos de guerra, o financiamento da ajuda para a população sudanesa virou um desafio global. Organizações internacionais frequentemente argumentam que a guerra no país africano é negligenciada por governos ao redor do mundo, enquantoproliferam conflitos em outras regiões.
O Unicef, por exemplo, diz que até março só recebera 16% do orçamento que precisa para proteger 7,9 milhões de crianças no Sudão em 2026. Um plano das Nações Unidas pretende prestar assistência a 14 milhões de pessoas, mas requer 2,2 bilhões de dólares em financiamento.
Na semana passada, uma conferência internacional realizada em Berlim resultou em 1,5 bilhão de dólares (R$ 7,49 bilhões) prometidos em doações.
Os efeitos da guerra se fazem sentir não só no Sudão, como em outras partes do Leste da África. Países vizinhos têm sido afetados pelo deslocamento de pessoas, interrupções das rotas comerciais e tensões políticas.