O que está em jogo nas eleições alemãs?
23 de fevereiro de 2025
Foi uma campanha eleitoral breve na República Federal da Alemanha (RFA), mas muito disputada. Uma expressão foi muito mencionada: mudança de rumo. "Vocês passaram três anos tentando fazer política de esquerda na Alemanha. Não podem mais continuar fazendo isso", disse Friedrich Merz, candidato a chanceler federal pelo partido conservador União Democrata-Cristã (CDU), duas semanas antes do pleito.
A fala foi proferida no Bundestag (câmara baixa do Parlamento alemão). Merz estava se dirigindo ao Partido Social-Democrata (SPD) do atual chanceler federal Olaf Scholz e aos Verdes, as duas principais legendas que lideraram a tripla coalizão partidária que governo a Alemanha nos últimos três anos.
Em novembro de 2024, a aliança se desintegrou com a saída do Partido Liberal-Democrático (FDP), parceiro menor da coalizão, em meio a disputas sobre o orçamento. Depois disso, Scholz, reduzido a um governo de minoria, acabou dando início aos trâmites para a realização de eleições antecipadas em 23 de fevereiro.
Declínio do SPD e agonia do FDP
Enquanto os Verdes têm praticamente o mesmo apoio nas pesquisas atuais que tinham em 2021, o SPD e o FDP aparecem em queda livre. Os liberais arriscam ficar abaixo da cláusula de barreira de 5%, ficando sem bancada de deputados no Bundestag.
Já o SPD está diante de um encolhimento histórico. Qualquer coisa abaixo de 20% deve marcar o pior resultado para o partido numa eleição federal desde o fim da Segunda Guerra Mundial – e no momento ele aparece com cerca de 15% das intenções de voto.
Dessa forma, Scholz caminha para se tornar o chefe de governo de mandato mais breve dos últimos 50 anos e o único chanceler social-democrata a não ter sido reeleito.
CDU lidera, ultradireitista AfD em segundo lugar
De acordo com pesquisas, o conservador Friedrich Merz aparece com a maior probabilidade de se tornar o próximo chanceler federal. O político veterano é o candidato ao posto indicado pelo seu partido, a CDU, juntamente com o braço bávaro da legenda, a União Social Cristã (CSU).
Na eleição de 2021, que marcou o fim da era Angela Merkel, a CDU/CSU amargou o segundo lugar no pleito. Agora, sob a liderança de Merz, antigo rival interno de Merkel, a legenda quer voltar a liderar o governo.
De acordo com pesquisas, a CDU/CSU deve ser seguida pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), de ultradireita, com até 20% do eleitorado – o dobro da marca das eleições de 2021. Com isso, a AfD pode ultrapassar tanto o SPD quanto os Verdes, e formar a segunda maior bancada do Bundestag.
Mas qual foi o caminho para essa queda dramática do SPD e a ascensão do AfD? O candidato da CDU/CSU, Merz, afirma que a estagnação da economia turbinou a ultradireita: "A economia do nosso país está agora na lanterna da União Europeia."
Segundo Merz, cerca de 50 mil empresas faliram sob o governo Scholz, e cerca de 100 bilhões de euros de capital corporativo têm escoado para o exterior todos os anos. "Nossa economia está encolhendo, estamos em recessão pelo terceiro ano consecutivo. Isso nunca aconteceu antes na história da Alemanha no pós-guerra", disse Merz durante um debate televiso neste mês.
Scholz e seu ministro da Economia, Robert Habeck, que está concorrendo à Chancelaria Federal pelos Verdes, "não percebem mais a realidade", diz Merz. "Sabem o que eles me parecem? Como dois executivos que levaram a empresa à falência e depois vão até os proprietários e dizem: 'A gente quer continuar assim por mais quatro anos.'"
Guerra, crise energética, inflação
Durante a campanha, enquanto Merz criticava o governo, o discreto Scholz se viu cada vez mais na defensiva. Embora parecesse mais ousado, mais autoconfiante e mais combativo do que nos anos anteriores, ele se viu mais frequentemente na posição de ter que justificar suas políticas.
O social-democrata argumentou que não foi seu governo, mas a guerra lançada pela Rússia contra a Ucrânia que provocou a crise energética e a inflação que castigam a Alemanha.
"A economia ainda está sofrendo as consequências", lembrou o chefe de governo em discurso no Bundestag, em fevereiro. E acrescentou que a situação também não se tornará mais fácil nos próximos anos, diante das exigências "irritantes” do presidente americano Donald Trump. "O vento não está soprando a nosso favor. E a verdade é: isso não mudará fundamentalmente nos próximos anos.”
O tema incendiário da imigração
A fraqueza da economia foi um tópico muito discutido durante a campanha eleitoral. Entretanto, após o ataque com faca executado por um afegão em Aschaffenburg, em janeiro, que deixou dois mortos, o tema da imigração passou a dominar a campanha.
Imediatamente após o ataque, Friedrich Merz anunciou que pretendia endurecer a política de refúgio no país por meio de uma votação no Bundestag, antes mesmo da eleição, se necessário até mesmo com os votos da AfD.
E assim ocorreu: a moção apresentada pela CDU/CSU recebeu a maioria dos votos em janeiro com a ajuda dos deputados populistas de direita.
"Uma nova era começa aqui e agora", comemorou o deputado Bernd Baumann. "Agora algo novo está começando, e nós, as forças da AfD, estamos liderando." Ele acrescentou que sua legenda estaria ansiosa para formar uma coalizão de governo com a CDU/CSU. Em tese, tal combinação poderia bastar para uma maioria no Bundestag, descartando a formação de complicadas alianças com mais de dois partidos.
Cooperação com a ultradireita?
Mas essa cooperação, ainda que pontual, entre os conservadores e a ultradireita provocou repúdio na Alemanha, onde é ainda é considerada tabu uma aproximação com um partido como a AfD, que conta com diversos diretórios classificados como "extremistas" pelas autoridades.
Em janeiro, após a votação no Bundestag, centenas de milhares de cidadãos foram às ruas de todo o país para protestar.
Scholz também se mostrou indignado: "Não é uma questão de indiferença trabalhar junto com a extrema direita. Não na Alemanha!". Segundo ele, os cidadãos do país não teriam garantia de que a CDU/CSU não pretenda formar uma coalizão com o AfD após a eleição geral.
Nas semanas que se seguiram, Merz tentou remediar a situação, reiterando que rejeita qualquer cooperação oficial com o AfD. O objetivo dos extremistas de direita, segundo ele, é destruir a CDU e a CSU. as quais não pretendem formar uma coalizão com a eles em nenhuma circunstância.
Quem poderia formar uma coalizão com quem?
Entretanto as pesquisas indicam que a CDU/CSU não poderá governar sozinha, necessitando pelo menos um parceiro de coalizão.
E, quanto mais partidos entrarem no Bundestag, mais difícil será a formação de um governo. De acordo com as pesquisas, o A Esquerda provavelmente alcançará a marca de 5%, enquanto o novato Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) e os liberais do FDP arriscam ficar de fora.
Se o FDP conseguir entrar no Bundestag, talvez sejam necessários três partidos para formar uma coalizão. Como ele descartou uma nova aliança com os Verdes durante uma convenção, restaria apenas a possibilidade de uma coalizão entre a CDU/CSU, o SPD e o FDP.
AfD isolada
Indicada como candidata à chefia de governo pela AfD, a deputada Alice Weidel argumenta que uma coalizão de governo formada por outros partidos só servirá para a continuação das políticas atuais. A "reviravolta" política, segundo ela, ainda estar por vir, e está sendo apenas "desnecessariamente adiada".
Mas, depois do escândalo em torno da votação que contou com apoio da AfD, a relação entre o SPD e os Verdes e a CDU/CSU não é das melhores. No final, uma coalizão certamente dependerá de quantas concessões nos seus programas os partidos estarão dispostos a fazer.
"Responsabilidade política"
Num eventual governo de coalizão, o SPD pretende dar prioridade à política social. Os Verdes, por sua vez, priorizam a proteção climática.
"Se a Alemanha eleger um governo em 23 de fevereiro que anuncie que não cumprirá suas metas de proteção climática, então a Europa não vai querer cumprir suas metas", advertiu o candidato verde Robert Habeck. "Então, a proteção climática global estará liquidada. Nenhum chanceler, nenhum ministro de proteção climática, nenhum comissário poderá viajar para a Índia, Indonésia ou China e dizer: 'Pessoal, queimem menos carvão, usem mais energia renovável!'"
Merz sabe que as negociações para a formação de uma coalizão não serão fáceis. Entretanto, ele afirma que, após as eleições legislativas, será necessária uma "responsabilidade política" para resolver os problemas da Alemanha. Essa é "uma das últimas chances" de privar a AfD de seu terreno fértil. "Se não formos bem-sucedidos, não estaremos mais lidando com apenas 20% de populismo de direita", disse Merz.
"Então, um dia, os populistas de direita não contarão apenas uma minoria de capaz de bloquear decisões no Bundestag, que não permitirá mais emendas constitucionais: eles poderão chegar perto de uma maioria." O provável próximo chanceler federal apelou a social-democratas, verdes e liberais: "Esta é uma responsabilidade da qual vocês não podem se esquivar e da qual nós também não nos esquivaremos."