1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Como a juventude africana quer salvar a democracia

Philipp Sandner
8 de junho de 2026

A população jovem africana vê-se frequentemente confrontada com líderes antigos e autocráticos. Já não se satisfaz com meros rituais democráticos e procura outros caminhos. Para isso, é preciso criatividade.

https://p.dw.com/p/5F1G2
 Nesta imagem, um jovem protesta na Tanzânia
A forma como os jovens encaram a democracia foi analisada por investigadores no metaestudo realizado para o projeto "Megatrends África"Foto: Emmanuel Herman/REUTERS

"Não somos apenas o futuro, somos o presente", diz um jovem chamado Clinton numa rua de Lusaka, na Zâmbia. "Mas será que nos ouvem?". "Já não existe Camarões", diz Jean David Blot, em Douala, e que faz parte do movimento de base "The Okwelians". "Temos de reconstruir tudo, tudo.”

"Se quiseres candidatar-te a um cargo, isso é ótimo", diz a estudante Mbayo Akiri, em Dar-es-Salaam, na Tanzânia. "Mas existem determinados sistemas que garantem que certos tipos de pessoas não consigam ultrapassar um certo limite."

Esses jovens representam uma tendência visível em todas as regiões de África: uma geração jovem, motivada e cheia de ideias, que quer decidir, criar mudanças, e se esbarra nos limites de um sistema mantido por uma pequena elite, muitas vezes envelhecida.

E as possibilidades parecem limitadas. Será que a participação democrática tornou-se um beco sem saída? Ou existem novos caminhos? Estas são as questões colocadas pela DW na minissérie "O poder aos jovens: O futuro da política africana" com reportagens de cinco países africanos.

Quando votar já "não faz diferença"

África é um continente jovem. Segundo a plataforma de dados worldometers.info, a idade média é atualmente de 19,5 anos. Ou seja, mais de metade de todas as pessoas que vivem em África têm menos de 20 anos. Em 2023, dos cerca de 1,5 mil milhões de africanos, mais de 870 milhões tinham menos de 25 anos, apenas 53 milhões tinham 65 anos ou mais.

A forma como estes jovens encaram a democracia foi analisada pelas investigadoras Christine Hackenesch e Godfred Bonnah Nkansah num metaestudo realizado para o projeto interdisciplinar "Megatrends África", um projeto de investigação de institutos alemães financiado com fundos públicos. A partir de dados de inquéritos da plataforma Afrobarómetro, recolhidos ao longo de vários anos, identificaram uma tendência: os jovens africanos participam cada vez menos nas eleições.

"Os jovens estão desiludidos com os seus governos", diz Bonnah Nkansah à DW. "Têm a sensação de que votar ou não votar não fará grande diferença.” A credibilidade das eleições e a fraude eleitoral são, na perceção dos jovens, um grande problema: "Há partidos no poder que contornam as constituições para conseguirem manter-se no poder.”

Mas isso não significa resignação, afirma o investigador do Centro Internacional de Formação para a Manutenção da Paz Kofi Annan, no Gana: "Os dados mostram que os jovens estão cada vez mais a explorar formas alternativas de influência política, por exemplo, através de protestos. " Esses protestos acontecem nas ruas das grandes cidades africanas e também no espaço virtual, onde as pessoas se organizam através das redes sociais.

O poder aos jovens: O futuro da política africana

Kyle Findlay abordou este tema a partir de outra perspetiva. Como cofundador da empresa de consultoria digital Murmur Intelligence, o sul-africano analisa atividades nas redes sociais, nomeadamente em contextos eleitorais. Uma das conclusões que retira de inúmeras análises é a seguinte:

"As pessoas em África já não apostam tanto na democracia como antes. Naturalmente, existem diferenças entre países, mas a perceção geral é que a democracia em África não produziu de forma consistente os resultados desejados." Quando as democracias não conseguem melhorar as condições de vida das pessoas e reprimem a liberdade de expressão, cresce a frustração,e o desejo de mudança.

Desejo de mudança

É o caso da Tanzânia. Quando o governo da Presidente Samia Suluhu Hassan começou a reprimir cada vez mais duramente a abertura social, muitas pessoas saíram à rua. Para a estudante Mbayo Akiri, isto representa uma clara ruptura com a cultura tanzaniana: "Fomos educados com a ideia de não questionar a autoridade. Quando uma figura de autoridade fala, tu escutas.” Mas isso mudou. "Não somos conhecidos pelos protestos. Os nossos vizinhos são, nós não."

Akiri diz estar satisfeita com esta evolução, mas admite também sentir medo. Ela própria não participa nos protestos: "Há ouvidos por todo o lado. E nunca sabemos quem será o próximo." Não pretende que isso seja entendido como uma crítica, é simplesmente assim que o governo funciona, acrescenta rapidamente. "Mas penso que a nossa vida poderia ser melhor." De facto, a repressão governamental tornou as manifestações quase impossíveis. Entretanto, a resistência transferiu-se para a internet.

Segundo Godfred Bonnah Nkansah, o espaço virtual oferece inúmeras possibilidades, por exemplo, para divulgar informação política ou mobilizar pessoas. "As redes sociais parecem ser um bom meio para amplificar preocupações comuns. Eu falo sobre desemprego, outra pessoa retoma o tema e, de repente, isso desencadeia uma onda, por exemplo, na plataforma X.”

Jovens criam redes de ligação

Muitas pessoas na Tanzânia já só se expressam de forma anónima. Figuras da diáspora, como o músico Wakazi, utilizam a sua notoriedade para denunciar problemas como a corrupção ou as restrições aos direitos civis. Também falam sobre pessoas que desaparecem depois de expressarem críticas. Mais recentemente, ativistas da região demonstraram solidariedade com as lutas da população tanzaniana.

Um olhar sobre a história de África mostra o potencial desta interligação e também os seus limites. Segundo o sociólogo Joschka Philipps, da Universidade de Bayreuth, isso tornou-se evidente pela primeira vez durante a Primavera Árabe, em 2011, frequentemente descrita como a Revolução do Facebook. Desde então, fenómenos semelhantes repetiram-se várias vezes por exemplo, quando ativistas congoleses procuraram inspiração nos protestos do Senegal e do Burkina Faso, em 2015.

Angola: Jovens promovem consciência cívica através da arte

"Existem novos recursos ou novos repertórios com os quais os movimentos juvenis podem trabalhar”, afirma Philipps à DW. "Mas, por outro lado, este é também o ponto em que os movimentos se tornam vulneráveis. Os Estados e os governos aprenderam a identificar os líderes dos protestos através das redes sociais e, depois, a silenciá-los.”

Uma observação que coincide com as análises da Murmur Intelligence. Um exemplo é o Uganda, onde um músico popular há muito assumiu o papel de líder da oposição: "Bobi Wine travou uma luta extraordinária durante dez anos. Mas nas eleições mais recentes vimos que o Presidente Museveni e o seu círculo adotaram todos os métodos desenvolvidos por este jovem movimento tecnológico”, afirma Kyle Findlay.

Compreender a complexidade "com paciência"

Significa isto que os movimentos democráticos correm o risco de se esgotarem? Não necessariamente, responde o sociólogo Philipps, que apela a mais paciência. "O facto de os Estados terem origem colonial continua a ser extremamente relevante. A forma como a democracia foi supostamente promovida a partir do Norte Global era, em si mesma, uma construção antidemocrática."

Assim, formaram-se sistemas que não beneficiavam a população em geral. De forma paradoxal, também os jovens que hoje apoiam líderes militares como Ibrahim Traoré, do Burkina Faso, e a sua retórica antiocidental podem ser vistos como um sinal de empoderamento democrático.

No meio destas relações complexas, as pessoas procuram novos caminhos em diferentes contextos africanos e exercitam a paciência. "Talvez a democracia digital não produza mudanças na vida real", diz a estudante Mbayo Akiri, em Dar-es-Salam. "Mas estamos a mudar por dentro. E quando tivermos oportunidade, talvez façamos as coisas de maneira diferente.”

Também os ativistas de base dos The Okwelians, nos Camarões, onde o Presidente Paul Biya, de 93 anos, acaba de iniciar o seu oitavo mandato,sabem que precisam de perseverança. "Se queremos curar e reconstruir, é importante educar a próxima geração para se tornar uma liderança visionária e ao serviço dos outros”, afirma Doris Ngum. Por isso, ela é uma das muitas ativistas que visitam escolas. A sua mensagem é clara: "Não esperem pelo governo. Vocês são a mudança!”

Colaboração: Elisabeth Asen (Douala), Imani Luvunga (Dar-es-Salam), Kathy Short (Lusaka)

Saltar a secção Mais sobre este tema