"Diplomacia discreta" de Trovoada levanta interrogações
20 de fevereiro de 2026
O enviado especial da União Africana (UA) a Bissau já está no país para discutir com as autoridades a situação política após o golpe militar de novembro de 2025.
Patrice Trovoada reuniu‑se esta quinta-feira (19.02) com o presidente de Transição, Horta Intá. No final do encontro não houve declarações à imprensa, mas mais tarde, em comunicado de imprensa, o governo guineense considerou a visita de Trovoada como uma "diplomacia discreta".
O antigo primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe também manteve conversações com o candidato presidencial Fernando Dias, que reclamou vitória nas eleições de 23 de novembro de 2025.
Em entrevista à DW África, o académico são-tomense Liberato Moniz manifesta esperança no sucesso da missão de Patrice Trovoada na Guiné-Bissau, mas levanta dúvidas sobre a nomeação pela União Africana do ex-primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe.
Moniz defende que, neste momento, Trovoada poderá não ter o perfil mais adequado para esta missão, após o golpe de Estado de novembro passado. Ainda assim, apela a que Trovoada coloque a sua experiência internacional ao serviço da estabilidade na Guiné-Bissau.
DW África: O que se pode esperar desta visita de Patrice Trovoada a Bissau?
Liberato Moniz (LM): O ex-primeiro-ministro Patrice Trovoada é alguém com muita experiência, é alguém com contactos internacionais já muito bem identificados, é alguém que se movimenta bem neste panorama internacional. O que eu posso esperar, sinceramente, é que Patrice Trovoadaa possa ter uma equipa forte, possa ser suficientemente humilde, possa ser competente, possa entender que, acima de tudo, estão as pessoas e possa, assim, ajudar a encontrar o melhor caminho para a paz que se espera na Guiné-Bissau.
DW África: Como avalia a nomeação de Patrice Trovoada como enviado especial da União Africana para a Guiné-Bissau?
LM: Para mim foi surpreendente devido a tudo o que tem acontecido em São Tomé e Príncipe e de que o próprio Patrice Trovoada faz parte, o que é preocupante. E não vai ser fácil devido a tudo o que tem acontecido em São Tomé e Príncipe, que muitas vezes se assemelha ao que se passa na Guiné-Bissau, e isso que tem acontecido também, Patrice Trovoada faz parte desta desorganização, o não cumprimento constitucional em São Tomé e Príncipe. Espero que se consiga ultrapassar para o bem de todos.
DW África: Alguns guineenses contestam a escolha de Trovoada, apontam a proximidade com Umaro Sissoco Embaló. Qual a sua apreciação sobre isso?
LM: Eu julgo que a escolha de Patrice Trovoada talvez no momento não tivesse sido a mais acertada, mas a União Africana deve ter lá os seus melhores dados para o fazer. Mas na minha perspectiva, eu julgo que deveria-se ter escolhido uma outra figura que facilitasse mais esse trabalho, porque neste momento, no meu entender, o trabalho de Patrice Trovoada não será fácil.