RENAMO: Figuras-chave unem-se a guerrilheiros contra Momade
10 de fevereiro de 2026
Ex-guerrilheiros da RENAMO, oriundos de todas as províncias de Moçambique, estiveram reunidos no fim-de-semana, na cidade da Matola, na província de Maputo, na sua primeira conferência nacional, cujo objetivo, segundo o porta-voz dos antigos guerrilheiros, João Machava, era único.
"A agenda é única: Ossufo Momade tem de sair [da liderança]. Essa é a agenda. Esperamos ter uma decisão concreta e clara para o fim deste barulho, porque o barulho aqui é Ossufo Momade. A RENAMO não tem problemas", disse Machava.
A conferência organizada pela comissão nacional de gestão da RENAMO, composta maioritariamente por ex-guerrilheiros, contou com a participação de nomes sonantes do partido que assumiram publicamente lutar para a materialização dos objetivos.
"Ossufo não terá como"
António Muchanga disse que não descansará sem ver destituído o atual líder da RENAMO. "Se chegar essa vez, Ossufo não terá como. Terá de escolher entre cobra-mamba [serpente venenosa], espinhosa ou parede. Terá de furar a parede pela cabeça. Há comandantes que estão lá [do lado do líder] que querem sair porque estão a receber ordens de um cozinheiro civil. Alguma vez um militar recebeu ordens de um civil?", questionou.
Já Alfredo Magumisse, antigo deputado e candidato derrotado a governador de Manica pela RENAMO, que participou no último conselho nacional do partido realizado em finais do ano passado, em Nampula, também esteve como convidado dos desmobilizados. Diferentemente do primeiro evento, desta vez parecia estar "alinhado" com a propalada coesão interna.
"O meu desejo é que Ossufo Momade, nas condições em que está, na verdade já não há condições para ele exercer na efetividade a liderança do partido. Ele, com consciência, tem de deixar a liderança e o partido organizar-se, reestruturar-se e continuar como membro", disse.
Ainda não há datas para a destituição de Momade, tal como foi acordado no encontro. Até lá, os ex-militares prometem continuar a tomar e gerir as sedes, afirma o porta-voz do grupo, João Machava. "As delegações provinciais em que nós já estamos a ditar ordens são as de Maputo província, Inhambane, Manica, Tete, Zambézia e Cabo Delgado. Nessas, nós é que estamos a ditar regras", assegurou.
Momade não cederá ao "golpe de liderança"
O chefe da mobilização nacional da RENAMO, Geraldo Carvalho, minimiza e diz que Ossufo Momade não vai ceder ao golpe de liderança até a realização do congresso eletivo. "A RENAMO só é partido com um presidente eleito no congresso e com órgãos a funcionar", frisou.
"Ossufo Momade é presidente da RENAMO reconhecido com todos esses procedimentos, desde a história. E neste momento o único presidente da RENAMO é o general Ossufo Momade e ele é que tem de estar acima de todo o processo que se propõe aqui [da sua própria destituição]. Ele próprio já disse várias vezes que não vai concorrer ao próximo congresso, porque ele deixa de ser presidente no próximo congresso. Quando é que isso vai acontecer? Temos que sentar, estudar e nos organizarmos", declarou Geraldo Carvalho.
O jornalista e académico Dinis Robate considera que a atual situação da RENAMO agrava-se com a entrada em cena de novos atores e sugere uma reestruturação para recuperar a reputação do partido.
"A medir pelo discurso que assumem publicamente, mesmo que não o digam de forma direta, fica um indicador de que não se importam com a sua expulsão do partido - como se tem propalado, pelo menos ao nível da redes sociais -, e com a saída desses senhores [a ser provado] não restam dúvidas que será um duro golpe para RENAMO e isso denota uma fadiga. As soluções no meu entender são simples: a RENAMO precisa realizar reformas profundas, com vista a recuperar a confiança", concluiu.