Major ruandês: "Estou à espera de morrer, não tem problema"
31 de outubro de 2025
Kigali atualizou a sua lista de "desafetos" nacionais refugiados no estrangeiro. De acordo com o New Times, "vinte e cinco pessoas foram sancionadas [...] por terrorismo e financiamento ao terrorismo". O jornal ruandês cita uma nova lista de sanções divulgada pelo Centro de Inteligência Financeira (FIC) publicada a 14 de outubro.
Um dos sancionados está baseado em Moçambique, facto que amedronta a comunidade ruandesa no país, segundo o presidente da Associação dos Ruandeses Refugiados em Moçambique (ARRM), Cléophas Habiyearame: "É uma notícia assustadora, porque não sabemos qual é a base que usam".
"Eu conheço bem esse homem, Monaco Dollar, vive aqui em Maputo conosco. É um cidadão normal e vive como outros refugiados. Quando lhe colocam nessa lista, não sei a partir de quê ele está a ser julgado como terrorista. Por isso isso mete medo a todos os refugiados", afirma Habiyearame.
Trata-se do major Alphonse Munyarugendo, conhecido por Monaco Dollar. Segundo o centro, citado pelo jornal ruandês, "é o coordenador das FDLR na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). É acusado de apoiar o terrorismo contra o Ruanda. O homem de 59 anos era um dos comandantes originais da ALIR, precursora das FDLR, que cometeram ataques terroristas no Ruanda. Munyarugendo coordena atividades de angariação de fundos para apoiar as atividades terroristas das FDLR".
À DW, Dollar negou tudo: "Não constitui verdade, não é primeira vez a indicarem o meu nome. Estou cá desde outubro de 2002, então não sei nada do Ruanda. São mentiras. Eu também vi [a notícia] assim como você viu, não é a primeira vez [a acusarem-me]".
Perseguição que se estende a familiares
E o sancionado não esconde: "Estou muito preocupado, dizem que estou entre os 25 e depois colocam-me em quarto lugar como se fosse muito perigoso".
Uma perseguição que se estende à família no Ruanda, denuncia o major: "Na minha família mataram mais de 50 pessoas, outros foram para a cadeia, outros desapareceram, o meu irmão estava preso. Não estou a ver porque me estão a meter nessas coisas".
Dollar acusa o regime de Paul Kagame: "Quando eles veem que não queres seguir a eles, eles te seguem só".
O medo dos refugiados tem razão de ser: frequentemente dissidentes políticos ruandeses são barbaramente assassinados ou sequestrados em Moçambique, sem qualquer esclarecimento da Polícia local. Suspeita-se que Kigali há muito está a acabar com os seus opositores no estrangeiro.
É o prenúncio de mais uma crónica de uma morte anunciada? O presidente da ARRM responde: "Eu não acho que vai haver mais violência. As autoridades moçambicanas já sabem da situação dos refugiados, já explicamos. E não somos sozinhos, trabalhamos com organizações dos direitos humanos, trabalhamos com tudo o que pode ajudar a fazer entender a situação dos refugiados ruandeses aqui onde estou, na cidade de Maputo, mesmo noutras partes do país, os refugiados seguem as orientações do Governo de Moçambique".
Extradição?
Em 2024, em meio a fortes contestações, Moçambique assinou um acordo de extradição com o Ruanda, visto como uma das moedas de troca com Kigali. Os dois países estavam mais próximos no contexto da cooperação militar com o Ruanda, que envia soldados para combater o terrorismo em Cabo Delgado desde 2021.
A extradição seria a medida menos extrema a ser tomada pelo Ruanda. Ainda assim, Habiyaremye está confiante: "Isso já foi assinado, sabemos, mas já fizemos as nossas reclamações, sabemos que Moçambique é um país de direitos humanos e há justiça".
O refugiado está consciente que "não é só carregar uma pessoa do Ruanda e colocar na lista, primeiro a justiça moçambicana tem de trabalhar, ver se o homem está a ser acusado por uma coisa verdadeira ou só por uma história porque era militar naquele tempo do Presidente Abiarima."
Proteção?
Em setembro de 2021, Revocant Karemangingo foi assassinado em Maputo e em maio do mesmo ano o jornalista Ntamuhanga Cassien foi sequestrado por homens com uniforme da Polícia moçambicana e até hoje não se conhece o seu paradeiro. Em meados de 2019, Louis Baziga também foi assassinado a tiros em Maputo. Que proteção terá Dollar num país com uma polícia deficitária?
"É esse o problema que eu tenho, porque quando ouvi esses comentários é que temos os nossos homens cá", diz o sancionado.
"Foi falado muitas vezes, o que vocês pensam? É esperar morrer, não há problema. Como não ter medo? Não tenho outra proteção", lamenta.