Zambézia: Fim do curso noturno gera abandono escolar
9 de junho de 2026
A extinção do curso noturno em várias escolas da província da Zambézia, no centro de Moçambique, está a provocar fortes impactos entre estudantes que conciliavam os estudos com o trabalho. A medida, aplicada em cumprimento de orientações do Ministério da Educação, obrigou muitos alunos a optarem pelo ensino diurno ou a ficarem sem uma alternativa imediata para continuar a formação.
Em várias escolas afetadas, a direção apresentou duas possibilidades aos estudantes: frequentar o curso diurno ou aderir ao ensino à distância. No entanto, esta segunda opção ainda não foi implementada desde o início do ano letivo, deixando centenas de alunos numa situação de incerteza e, em alguns casos, levando ao abandono escolar.
Entre o trabalho e os estudos
Lúcio Alexandre, de 42 anos, é um dos alunos afetados pela medida. Atualmente frequenta a 12ª classe na Escola Secundária de Namuinho, em Quelimane, ao lado do filho e do sobrinho.
O estudante afirma que se matriculou no curso noturno para poder trabalhar durante o dia e garantir o sustento da família. Com o fim dessa modalidade, foi obrigado a optar pelo ensino diurno para concluir a classe e obter o certificado, mas diz que a adaptação não tem sido fácil.
"Tenho 42 anos e estudo no curso diurno porque o curso noturno aqui não existe. Estudo com os meus filhos e sobrinhos. O que quero é concluir o nível médio", relata.
Silva Daniel é outro aluno que diz estar a ser prejudicado pela medida. Segundo explicou, frequentava as aulas à noite para poder dedicar o dia às suas atividades económicas.
"Obrigaram-me a estudar de dia. Muitos dos meus amigos desistiram porque não conseguem conciliar os estudos com o trabalho e acabam por perder oportunidades de rendimento", lamenta.
Autoridades justificam o encerramento
As autoridades da Educação reconhecem o impacto da decisão, mas defendem que o encerramento do curso noturno ocorreu em escolas que registavam um número reduzido de estudantes.
De acordo com Celso Malua, chefe da repartição de ensino à distância na Direção Distrital de Educação de Quelimane, os alunos foram encaminhados para estabelecimentos de ensino que continuam a oferecer aulas noturnas.
"Mapeámos as escolas que tinham muitos alunos no curso noturno e essas mantiveram a modalidade. As que tinham poucos estudantes tiveram de encerrar o curso", explica.
Professores pedem recuo
A Associação dos Professores considera que a medida poderá agravar o abandono escolar e prejudicar muitas famílias moçambicanas.
O secretário provincial da organização, Horácio Cerrano, afirma que a associação já tinha alertado as autoridades para os riscos da decisão e defende uma reavaliação urgente da medida: "Nem todas as pessoas têm disponibilidade para estudar durante o dia. O Ministério da Educação tem de rever essa situação", apela.
Sem o curso noturno e com o ensino à distância ainda por arrancar, centenas de estudantes permanecem sem uma alternativa viável para prosseguir os estudos sem abdicar do trabalho.