Cadangue: "Fiquei em pânico porque levava o meu filho"
5 de fevereiro de 2026
Mais um jornalista foi alvo de tentativa de assassinato em Moçambique. A noite desta quarta-feira (04.01) foi de terror para Carlitos Cadangue, do canal privado STV. O jornalista moçambicano sofreu um atentado quando seguia no seu carro na companhia do filho, na cidade de Chimoio, província de Manica. Ambos escaparam ilesos aos tiros de pessoas até aqui não identificadas.
Cadangue contou à DW como se sentiu: "Fiquei em pânico, traumatizado porque levava o meu filho no carro. Saímos daí e nenhum de nós conseguiu apanhar sono, a família passou a noite em branco porque não sabiamos se aquelas pessoas podiam regressar para terminar a sua missão."
O crime aconteceu com nuances de assalto, mas ter ouvido dos atacantes "já está", depois da rajada de tiros contra o seu automóvel, fez Cadangue ter a certeza de que o ataque tinha motivações relacionadas com o seu trabalho.
"Eu vou mais pela segunda opção, o assalto visava apenas confundir. Nós últimos dias tenho estado a fazer grandes reportagens sobre a mineração na província de Manica e a relatar sobre os impactos da mineração", argumenta o jornalista.
E foi a partir das reportagens, entende Cadangue, que o Governo suspendeu a atividade mineira a 30 de setembro de 2025. Contudo, recentemente as autoridades levantaram a suspensão para alguns operadores cumpridores das recomendações de preservação ambiental.
Mas e os que continuam suspensos, poderiam estar envolvidos no atentado por revanche? "Eu prefiro falar de mineradores artesanais, estes ficaram mais lesados [com a suspensão]. Porque os que estão lá, em rigor, não são garimpeiros. Têm lá os seus patrões que mandam as pessoas minerarem, estes que nalgum momento sentiram-se lesados [com a suspensão da mineração]", responde o jornalista.
MISA exige medidas do Estado
Em Moçambique, os jornalistas têm sido frequentemente atacados, ameaçados e assassinados e às vezes até desrespeitados pelas autoridades. Da Polícia chegam as conhecidas respostas "estamos a trabalhar", mas raramente são esclarecidos os casos.
É neste contexto que o MISA-Moçambique reage ao caso Cadangue: "É um caso muito grave que nos obriga mesmo a levantar a voz e requerer que o Estado tome a sério essa questão de ameaças contra jornalistas", afirma o diretor Ernesto Nhanale.
"Não podemos continuar a viver num país onde cada um pode acordar de manhã e decidir por si próprio colocar em risco a vida do jornalista porque está a perseguir um interesse legítimo do Estado que é usufruir das sua liberdade de imprensa para proteger os direitos humanos, para dizer a verdade", acrescenta.
É tão comum a indiferença, inclusive até vinda do campo da media, que há quem nem solidariedade demonstre. Há riscos de desvalorização do jornalista, diante do aparente descaso? Nhanale sublinha que não se trata de um problema exclusivo dos escribas, é geral, em que o cidadão está desprotegido num contexto de ausência do Estado.
"E o quão as pessoas abusam do poder do Estado e também o quão o Estado está ausente para garantir o funcionamento normal das instituições se faça sentir também são motivos sufientes disto. Se por exemplo, no caso de ontem o Estado estivesse para garantir os direitos das pessoas, incluindo dos jornalistas, talvez teríamos outro nível de desenvolvimento", conclui o diretor do MISA-Moçambique.
A Polícia diz não ter pistas sobre os criminosos. Várias organizações de media nacionais condenaram o atentado, bem como a Presidência da República que exigiu, em comunicado, "as autoridades competentes, o esclarecimento deste atentado, devendo os seus perpetradores serem levados à justiça."