1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
PolíticaAlemanha

Merz na China para estreitar laços económicos e diplomáticos

Christoph Hasselbach dpa, Reuters
25 de fevereiro de 2026

O chanceler alemão, Friedrich Merz, disse esta quarta-feira que pretende expandir as relações económicas e diplomáticas com a China, defendendo uma cooperação mais estreita num contexto de tensões globais ainda elevadas.

https://p.dw.com/p/59MlC
China Peking 2026 | Bundeskanzler Friedrich Merz wird von Ministerpräsident Li Qiang empfangen
Foto: Michael Kappeler/dpa/picture alliance

"Atribuo grande importância à manutenção e ao aprofundamento dessas relações sempre que possível", disse Friedrich Merz no início da sua primeira visita de dois dias à China como chanceler, falando ao lado do primeiro-ministro chinês, Li Qiang, numa reunião em Pequim.

O chanceler acrescentou que a Alemanha tem preocupações específicas sobre a cooperação e quer garantir que esta seja "justa". Merz salientou que os dois países devem dialogar abertamente entre si. 

O primeiro-ministro chinês exortou a Alemanha a ajudar a salvaguardar o comércio livre, referindo-se à guerra comercial do Presidente dos EUA, Donald Trump, que causou repercussões no sistema comercial global.

"A China e a Alemanha, como duas das maiores economias mundiais e países importantes com influência significativa, devem fortalecer a confiança na cooperação, salvaguardar conjuntamente o multilateralismo e o comércio livre e esforçar-se por construir um sistema de governação global mais justo e equitativo", afirmou Li Qiang.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, chega ao aeroporto em Pequim, capital da China, para uma visita oficial à China
Friedrich Merz aterrou hoje em Pequim, acompanhado por uma grande delegação empresarial, para uma visita oficial de dois diasFoto: Dai Tianfang/Xinhua/picture alliance

Os interesses económicos alemães estão no topo da agenda, que também inclui as relações de Pequim com Moscovo e a Europa. O chanceler alemão está à procura de parceiros globais, depois de os EUA terem abandonado parcialmente o seu antigo papel. Há muito em jogo nesta primeira visita à China.

Merz já alertou que, na era das grandes potências, a liberdade está sob ameaça. Na Conferência de Segurança de Munique, na semana passada, referiu expressamente a China, sublinhando que Pequim poderá, em breve, enfrentar militarmente os Estados Unidos em pé de igualdade. Friedrich Merz afirmou ainda que já não vê os EUA como um parceiro totalmente fiável.

Em Munique, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, defendeu o multilateralismo, a ordem internacional baseada em regras e o livre-comércio, princípios que Berlim considera menos assegurados sob a liderança de Donald Trump.

Novas parcerias estratégicas

Antes da sua primeira visita a Pequim desde que tomou posse, Merz anunciou que pretende discutir novas parcerias estratégicas.

Em entrevista à DW, Eberhard Sandschneider, especialista da Universidade Livre de Berlim, deixou um alerta: "Nem tudo o que a China pretende é, necessariamente, do interesse alemão; sobre isso será preciso dialogar e negociar. Mas pelo menos a proposta está em cima da mesa e constitui, naturalmente, um claro contraste. E, para nós, numa perspetiva ocidental, é extremamente difícil aceitar que os EUA s se tornem o destruidor de uma ordem mundial que eles próprios ajudaram a construir."

Europa pressiona China: o mundo em tensão diplomática

A China é o principal parceiro comercial da Alemanha, com trocas superiores a 250 mil milhões de euros em 2025, superando novamente os Estados Unidos.

No ano passado, o défice alemão atingiu um recorde de cerca de 90 mil milhões de euros. Recentemente, no Bundestag, Friedrich Merz alertou para a "lacuna de crescimento” face à China e defendeu maior competitividade.

A indústria automóvel reflete esta mudança: os modelos alemães, de gama alta, perderam terreno na China, enquanto os veículos chineses chegam à Europa a preços muito mais baixos.

Sandschneider afirma que, durante demasiado tempo, a Alemanha descansou sobre os seus êxitos, enquanto a China avançou rapidamente em tecnologia e inovação. "Nós, alemães, orgulhamo-nos de construir automóveis e não telemóveis com rodas, como disse certa vez um gestor do setor automóvel. Mas é precisamente isso que os chineses estão a construir e é precisamente com isso que estão a ser bem-sucedidos", lembra.

Reduzir a dependência da China

O anterior Governo alemão já tinha decidido reduzir a dependência da China, sobretudo em terras raras essenciais para automóveis elétricos. Em 2025, restrições chinesas provocaram paragens temporárias na produção automóvel alemã. Além disso, especialistas têm vindo a alertar para riscos de segurança associados ao acesso chinês a dados.

Também o Governo norte-americano alerta para estas dependências: em Munique, o secretário de Estado Marco Rubio apelou aos aliados europeus para se alinharem com os EUA.

Eberhard Sandschneider adverte para o risco de uma ordem mundial bipolar, na qual a Alemanha poderá ter de escolher entre EUA e China. "Os Estados Unidos e a China estão a caminhar para uma ordem mundial bipolar, o que coloca outros Estados, não apenas a Alemanha, mas também os países europeus, numa situação difícil”, diz.

Ontem, numa breve declaração antes de partir para a visita de dois dias, o chanceler alemão defendeu relações comerciais com Pequim baseadas numa concorrência transparente: "A concorrência é saudável, desde que seja leal. Queremos uma parceria com a China que seja equilibrada, fiável, regulamentada e justa. É o que propomos. É também o que esperamos da parte da China".

A visita de Friedrich Merz junta-se a uma série de deslocações de líderes ocidentais à China nos últimos meses, com o objetivo de conquistar nova margem de manobra económica.

São os Estados Unidos que mandam no mundo?